Este artigo vem ainda seguido da atuação de Bad Bunny — nascido em Porto Rico, mas que viaja pelo mundo com passaporte norte-americano — no Super Bowl, onde em apenas 13 minutos celebrou a cultura latina e foi alvo das críticas de Trump e do movimento MAGA. Estes estão a atacar fortemente esta comunidade com deportações, e aí também estão os portugueses a sofrer (apesar da visita de Cristiano Ronaldo à Casa Branca). Até Pedro Sánchez falou sobre a importância de «mais amor e menos ódio» a Santiago Abascal. Quem pensaria ver Bad Bunny a ser citado no meio do Parlamento espanhol? Em Portugal isto não aconteceu pois o debate com o primeiro-ministro Luís Montenegro foi adiado, por duas vezes, devido ao Estado de Calamidade (em 60 municípios) que terminou hoje, dia 15 de fevereiro, em Portugal.
Benito disse o nome de todos os países que fazem parte do continente americano, incluindo o Canadá (os «latinos do gelo»). Muito se tem falado sobre esta atuação, onde alguém se queixou por não ouvir o nome de Espanha — pois toda a atuação foi em espanhol — e, no TikTok, uma influenciadora brasileira defendeu que portugueses e espanhóis não eram latinos. Esse conceito supostamente mudou nos últimos anos. A história não muda, mas pode ser redefinida segundo as vontades.
Em resposta a esta influenciadora e a todos aqueles que defendem que os ibéricos não são latinos, ser latino é, na realidade, pertencer a uma «tapeçaria de tradições» que une povos de diferentes continentes através de uma base comum. Portugueses e espanhóis também podem, e devem, ser chamados para esta festa latina. Pode ser que na próxima Cimeira Ibero-Americana, estes países comecem a «tocar uma música una».
Mas o que é ser latino? Será que também podemos dizer que portugueses e espanhóis são latinos europeus ou apenas ibéricos? Ou somos tudo isto e muito mais? Este conceito está baseado em três pilares: língua, geografia e herança cultural. Uma cultura que não é só caribenha, apesar de ser aquela que está mais presente nos meios de comunicação social. Está na altura de Portugal e de Espanha voltarem a recuperar os holofotes.
Começando pela língua, os latinos são descendentes dos Romanos, que falavam latim. Como tal, Portugal, Espanha, França, Itália e a própria Roménia (sim, temos mais em comum com a terra do Conde Drácula — que também pode ser uma Condessa, segundo uma série de ficção científica — do que pensamos). Estes são os latinos europeus, os povos do sul que também são vistos como barulhentos e apaixonados demais pelos nórdicos. Na Europa somos vistos como «demasiado passionais», enquanto na América Latina somos considerados como «gringos».
Só que, em algum momento da história, portugueses, espanhóis e franceses (não esquecendo o Haiti) decidiram atravessar o Atlântico e chegar ao continente americano, onde Trump quer que a «gente» deixe de interferir. Pelo menos é para isso que o Instituto Elcano chama a atenção.
A América Latina tem este nome pois são descendentes dos europeus que aí chegaram. Mesmo falando línguas diferentes, a mestiçagem, a história partilhada e a sua cultura vibrante são algumas das coisas que distinguem, e unem, os latinos. Um povo que procura desenvolver-se apesar dos problemas que possa enfrentar (no Carnaval, as pessoas tentam esquecer as suas dificuldades, apesar dos problemas que Portugal está a enfrentar com um «comboio de tempestades»).
Andreia Rodrigues

