Há 25 anos, na noite de 4 de março, as notícias de todos os canais pararam para noticiar a tragédia de Entre-os-Rios. A histórica ponte Hintze Ribeiro colapsou sobre o rio Douro, numa das maiores tragédias do último século no país, que mudou a forma como fazemos jornalismo (a partir daquela noite, começámos a transmitir as tragédias em direto). As buscas pelos corpos demoraram meses; esta foi uma operação de resgate sem precedentes no país até à data.
Esta queda, após o colapso do quarto pilar da ponte, foi explicada pelas chuvas fortes e pela extração descontrolada de areias. O desastre de Castelo de Paiva levou à demissão imediata do ministro das infraestruturas, Jorge Coelho (entretanto falecido), que assumiu a «responsabilidade política pelo sucedido».
Jorge Coelho fez parte do governo de António Guterres. Antes da queda, na década anterior, uma perícia já tinha apontado para a possibilidade de colapso. Os familiares das vítimas recorreram à justiça, um processo habitualmente complexo em Portugal, onde a culpa costuma morrer solteira. Muitos ainda guardam memórias nítidas da ponte que ligava as duas margens do Douro. Durante muito tempo, aquelas localidades foram recordadas apenas pelo estigma da tragédia.
As vidas que terminaram no rio
A queda da ponte provocou 59 mortes. As vítimas seguiam em três veículos ligeiros e num autocarro de excursionistas que tinham ido ver as amendoeiras em flor. Uma parte dos corpos foi arrastada pela corrente até à Galiza. Dos 59 falecidos, apenas 23 corpos foram recuperados e, 25 anos depois, 36 famílias nunca puderam realizar o funeral dos seus entes queridos.
Foi erguido o monumento «Anjo de Portugal», em Castelo de Paiva, para homenagear as vítimas. Esta escultura, da autoria do arquiteto Henrique Coelho, tem inscritos na base os nomes das 59 pessoas que perderam a vida naquela noite em que os noticiários entraram em breaking news.
Os familiares continuam a visitar o «Anjo» para recordar os que partiram. A catástrofe levou à proibição da extração de areias nos rios portugueses e o Estado pagou indemnizações de 50 mil euros a cada família, com valores adicionais por herdeiro. Famílias inteiras desapareceram nas águas frias e escuras do Douro.
Neste 25.º aniversário, o Presidente da República e membros do Governo participam em cerimónias de homenagem, incluindo a inauguração de um novo memorial em Penafiel. O Governo reafirmou o compromisso de investir na segurança das infraestruturas para que uma situação semelhante nunca se repita.

