Li “Bichos” quando era muito jovem, durante um daqueles intermináveis verões de cerca de três meses que marcaram a minha infância e adolescência. Recordo até hoje que um dos contos me emocionou de sobremaneira, obrigando-me à releitura quase compulsiva. Recordo até hoje a notícia do falecimento de Miguel Torga, a comoção invetável. Gosto de pensar que, por um curto período, teremos coincidido em Coimbra. Lamentavelmente para mim, nunca nos cruzámos. Melhor sorte teve o alfarrabista do Porto que me vendeu “Alguns Poemas Ibéricos”, e que relata, tão feliz e orgulhoso, ter avistado, um dia, o escritor.
Tenho uma primeira edição da obra impressa em Março de 1952 nas oficinas gráficas da Coimbra Editora. O meu livro com “Alguns Poemas Ibéricos” de Torga está, por isso, pela passagem do tempo, amarelado, é um pouco áspero ao toque, mas tem um cheiro quase doce, que só o papel consegue acrescentar à leitura. E começa, naturalmente, com “Ibéria”, essa “(…) Terra de pão e vinho (…)”, essa “(…) Terra nua e tamanha/Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo…/Que nela coube Portugal e Espanha/E a loucura com asas do seu povo”. A “loucura com asas do seu povo”, confesso, é uma ideia que me encanta, me faz voar.
Seguem-se muitos outros títulos dedicados à nossa Península, percorrendo-a e retratando-a através da paixão do “Fado”, do assombro artístico de “Picasso” ou “Goya”, da genialidade de “Camões”, “Cervantes” e “Federico Gacia Lorca”. No total, são mais de 30 poemas, que também recordam outras figuras históricas, de outros âmbitos, como “Inês de Castro”, “Fernão de Magalhães”, “D. Sebastião” e “Filipe Segundo”. O médico e escritor transmontano não esquece “Sagres” e não esquece o “Mar”, nem a “Terra”, nem “O Povo”, esse “Enxame rumoroso num cortiço/De paredes de espuma (…)”.
Na página 45, o poema de Miguel Torga tem por título “Unamuno”. Fala, claro, de “Dom Miguel…”, contando que “Fazia pombas brancas de papel/Que voavam da Ibéria ao fim do mundo…/Unamuno Terceiro!/(Foi o Cid o primeiro, /D. Quixote o segundo)”. Unamuno, Miguel de Unamuno, que “Amou a Ibéria como um novo Otelo/Em cabelo,/Saía à noite do seu Escurial/E trepava à Nevada, a ver se via/Qualquer impuro amor à Andaluzia/Qualquer impuro amor a Portugal.”
O iberismo de Miguel Torga é célebre, e o livro “Alguns Poemas Ibéricos” teria continuidade na obra “Poemas Ibéricos”, de 1965. Igualmente incontornável é o valor de toda a extensa obra deixada pelo autor raiano, que nasceu com o nome de Adolfo Correia da Rocha, em São Martinho da Anta, no ano de 1907, acabando por morrer em Coimbra, em 1995. É exatamente na terra Natal do médico, poeta e escritor, que pode ser visitado o Espaço Miguel Torga (www.espacomigueltorga.pt) consagrado à sua obra. É também ali que se encontra a casa da família do autor (www.casamigueltorga.pt), aberta ao público desde 2022. Coimbra, por seu turno, dedica-lhe a Casa-Museu Miguel Torga, desde 2007.
Voltando à minha casa e às minhas leituras, também tenho “Contos da Montanha” e “Novos Contos da Montanha”. Os dois exemplares foram um presente improvável de amigos de Valladolid. Miguel Torga, apreciado e recomendado por espanhóis a uma portuguesa. Não preciso dizer que as estórias de todos os contos são inolvidáveis. Igualmente memorável é a série “Histórias da Montanha”, neles baseada para apresentar cinco episódidos que relatam a vida no mundo rural português, nos anos de 1940. Com realização de Luís Galvão Teles, também coautor com Manuel do Ó Pereira e Tiago R. Santos, “A Maria Lionça”, “O Leproso”, “O Alma Grande”, “A Paga” e “Mariana”, podem ser assistidos na RTP Play (www.rtp.pt/play/p12185/historias-da-montanha).
Patrícia Menezes Moreira

