Da minha varanda, no centro do Porto, vejo uma casa próxima onde estão penduradas duas bandeiras: uma de Portugal e a outra do Brasil. Não resisti a tirar uma foto com o meu velho telemóvel (é de 2019 e espero que funcione durante mais alguns anos – pessoas analógicas são desprovidas de certas ambições) e enviar a alguns amigos, brasileiros, portugueses, espanhóis, italianos, norte-americanos, ucranianos radicados no Canadá – parecem muitos, eu sei, mas não é bem assim, com muita pena minha… A legenda da foto era “juntos, sempre!”, tal como leio a história, que, ao longo dos séculos, faz dar as mãos, amorosamente, a Portugal e Brasil, aos dois lados do Atlântico.
Creio poder presumir corretamente que as bandeiras foram colocadas tendo como contexto o Campeonato Mundial de Futebol, que decorre, numa organização conjunta, entre México, Estados Unidos e Canadá. Pois bem, eu cresci em ambiente de conversas futebolísticas, em família, na escola, no bar. Eu fui ensinada a torcer pelo Futebol Clube do Porto e a admirar jogadores como o inolvidável Fernando Gomes. Muito mais tarde, aprendi a vibrar, por mim mesma, com atletas fantásticos como o Deco ou o Ricardo Quaresma. Pai portista, padrasto benfiquista. Frequentei estádios, assisti a muitos jogos, sofri e festejei, sempre com total entusiasmo.
Porém, com o tempo, a chama da bola deixou de arder, o fogo apagou-se e eu afastei-me, desinteressei-me do chamado “desporto-rei”. É, realmente, muito emocionante, penso que pela sua raíz tribal, muito, talvez desmasiado, envolvente. Atualmente já não sei quem vence ou quem não vence o Campeonato Nacional de Portugal, as taças disto ou daquilo, nem conheço os jogadores, sejam os do Porto ou os de Lisboa, do Benfica ou do Sporting. Ainda assim, quando se trata de competições europeias ou mundiais, não resisto a assistir a uma ou outra partida, a controlar os resultados, a enteirar-me de quem desafiou quem, quem ganhou, quem perdeu – como assim?! E também sou capaz de trocar alguns comentários (mais ou menos eruditos, confesso) com amigos chegados.
Na verdade, e por mais irracional que possa parecer, os meus posicionamentos transpiram, inevitavelmente, as minhas emoções e as minhas leituras geopolíticas. Fazer o quê? É o que é, a humanidade em estado visceral. E claro, sempre tenho os meus favoritismos. Tratando-se de competição mundial, a situação é ainda mais complexa, pois o meu pobre coração bate por muitos mais… Tantos! E velozmente, claro, com o devido sofrimento! É que, quando se trata de Campeonato Europeu, eu fico menos dividida, entre duas ou três preferências… Mas a nível planetário… é, naturalmente, outra dimensão!
Ai, ai, ai… aí dói! Dói feio! Pareço um puzzle, dividido em múltiplas peças, aparentemente desencaixadas, o tal do puzzle “pan”, entenda-se pan-cultural, pan-iberista, pan-mediterrânico, pan-mundo greco-latino…. Então vejamos…. Para começar, o México, sim, claro, muy contenta, por supuesto…. Brasil contra Marrocos ou Marrocos contra Brasil, não concordo, não posso aceitar! Espanha e Cabo Verde, Cabo Verde e Espanha…. devería ser proibido, é inaceitável! Depois, Portugal, Colombia, Uruguay…. Obrigada Argentina, mi Buenos Aires querida, pena que massacraste a Argélia – também gosto tanto dela!
Pode parecer estranho, mas eu, logo eu que não entendo nada, mas mesmo nada de futebol, não conseguindo reconhecer claramente, nem sequer, uma falta ou um fora de jogo, já tenho o meu candidato preferencial a vencedor do Campeonato do Mundo de 2026. Não, não, nada disso, não sou assim tão previsível que tenha que torcer pelo estado-nação, pelos seus vizinhos mais próximos ou pelos seus “filhos” espalhados pelo Mundo…. Quem eu quero que ganhe a competição é quem arrasta atrás de si o longo manto de uma grande civilização de brilho filosófico, matemático, astronómico, entre outros…. Será difícil, eu sei… Mas não é impossível e, afinal, quando se trata de certas competições, tudo se pode resumir a emoções fortes e geopolítica, não é mesmo?
Patrícia Menezes Moreira

