À medida que o céu escurecia, acendiam-se os holofotes do Revelim de Santo António, em Castro Marim. Pouco a pouco, a plateia compôs-se em redor de um palco. O ambiente era de expectativa. Gradualmente, começaram a soar os primeiros acordes de uma guitarra portuguesa. O concerto da Cuca Roseta estava prestes a começar.
Com início às 22h00 e entrada gratuita, a atuação da fadista assinalou o encerramento das comemorações do Dia do Município de Castro Marim, celebrado a 24 de junho. Este ano, a data ficou marcada pela evocação dos «50 anos do Poder Local, assinalando as cinco décadas das primeiras eleições autárquicas em Portugal», conforme destacou a Câmara Municipal.
Reconhecida como uma das vozes mais proeminentes do fado atual, Cuca Roseta pertence a uma geração de artistas empenhada em modernizar este género musical, sem desvirtuar a sua essência. Esta intenção refletiu-se ao longo do concerto, centrado na apresentação de Tradição, o seu mais recente álbum. Editado em abril de 2026, o disco revisita não só as raízes que moldaram o seu percurso pelas casas de fado de Lisboa, como também representa os frutos de um caminho artístico onde a tradição, a identidade e a contemporaneidade se entrelaçam.
«É um álbum que pensámos há muito tempo, só com fados tradicionais, dos mais antigos e de grandes compositores, mas com poemas novos», explicou a fadista, após interpretar o primeiro tema. «Porque esta é a forma de o fado se ir atualizando: trazer novas roupagens e novas histórias, mas as raízes mantêm-se exatamente as mesmas».

Também Te Amo, Sal Pranto (Fado Balada do António) e Botas de Cowboy (Fado Magala) foram alguns dos temas de Tradição apresentados ao público. No entanto, a atuação não se limitou ao novo repertório. Com mais de 15 anos de carreira, Cuca Roseta recordou também os seus inícios ao cantar Rua do Capelão, fado imortalizado por Amália Rodrigues. «É provavelmente a canção que mais interpretei ao longo da minha carreira», confessou, entre gargalhadas. Aproveitou ainda o momento para evocar o realizador espanhol Carlos Saura, ao agradecer-lhe a oportunidade de interpretar este tema no documentário Fados (2007).
Acompanhada por Sandro Costa, na guitarra portuguesa, Bernardo Saldanha, na guitarra clássica, e Francesco Valente, no baixo, a fadista conduziu os espectadores numa viagem pelo seu universo artístico. Ao longo de 14 canções, o concerto alternou entre momentos de alegria, com Amor Ladrão, de maior emoção, com Saudade Que É Saudade (Fado Carriche), e de dança, com o Vira do Minho.
Entre canções, estabeleceu-se uma relação de proximidade entre a artista e o público. Através de pequenos apontamentos, comentários humorísticos e algumas confidências, Cuca Roseta deixou várias mensagens de incentivo à autenticidade e à concretização de sonhos. «Só conseguimos chegar aos outros se formos verdadeiros connosco mesmos», afirmou, citando Amália Rodrigues, num prelúdio para a interpretação de O Meu Destino É o Fado (Fado Corrido).
Sem esquecer a sua faceta de mentora em programas televisivos como The Voice Kids, a fadista aproveitou a ocasião para dar visibilidade ao talento local. «As vozes de Portugal não param de crescer de ano para ano e, com certeza, teremos uma geração maravilhosa, com grandes vozes», defendeu Cuca Roseta antes de convidar Catarina Martins, uma das suas concorrentes na 5.ª edição do programa, a subir ao palco para interpretar Fado Jurado (Fado Lopes), um dos temas do seu mais recente álbum.