Há histórias tão improváveis que, se não fossem verdade, ninguém acreditava. E muitos dos habitantes de Sesimbra desconhecem o que o seu mar esconde. Esta é uma delas. Uma história que com os anos se escondeu debaixo do mar.
Se eu vos dissesse que um dos navios mais importantes da história de Espanha está afundado a poucos metros da Praia do Ouro, em Sesimbra, acreditavam? E tudo em frente de restaurantes que grelham peixe e de um Hotel do Mar com o seu estilo art déco.
O mais curioso é que milhares de espanhóis passam férias nesta praia todos os verões, mergulham nestas águas cristalinas, comem peixe acabado de sair do mar e regressam a casa sem fazer ideia de que, ali mesmo em frente, repousa uma das maiores lendas da sua história naval. Um navio que chegou a inspirar também a literatura.
A verdade é que Sesimbra sempre teve uma relação especial com Espanha. Não por causa de tratados, guerras ou fronteiras. Por causa do mar. Um mar que tanto separa como une.
Enquanto reis discutiam territórios e políticos desenhavam mapas, os pescadores sesimbrenses tinham uma preocupação muito mais urgente: saber se havia peixe.
Talvez seja por isso que esta vila tenha sempre olhado para o outro lado da Península com mais curiosidade do que rivalidade.
E é precisamente aqui que entra o Numancia. Quando foi lançado à água, em 1863, parecia uma nave espacial comparado com os restantes navios da época. Foi o primeiro couraçado blindado da História a dar a volta ao mundo, uma proeza extraordinária numa altura em que a tecnologia naval estava a mudar a uma velocidade nunca antes vista.
Imaginem aparecer um Fórmula 1 numa corrida de carroças. Durante décadas foi o orgulho da Armada Espanhola. Participou em campanhas militares, transportou personalidades e tornou-se um símbolo de uma Espanha que queria mostrar ao mundo que também sabia inovar.
Mas nem as lendas escapam ao passar do tempo. Aquilo que um dia foi revolucionário acabou vendido para sucata. É quase poético. Este navio ia passar do luxo ao lixo.
Sobreviveu a tudo, mas não a Sesimbra.
Depois de sobreviver a guerras, tempestades e milhares de milhas de navegação, o Numancia ia para Bilbau.
Só que o Atlântico tinha outros planos. Em dezembro de 1916, uma forte tempestade fez rebentar o cabo que o rebocava. Sem controlo, o velho gigante ficou entregue ao mar e acabou por encalhar junto à Praia do Ouro.
Depois de dar a volta ao planeta inteiro… …foi parar precisamente a Sesimbra. Convenhamos: há fins bem piores.
O naufrágio podia ter terminado numa tragédia. A bordo seguiam 32 tripulantes espanhóis. Foi então que os homens da estação de salva-vidas de Sesimbra mostraram porque esta terra sempre viveu de mãos dadas com o mar. Utilizando um sistema de cabo-vaivém, conseguiram resgatar todos os marinheiros.
Só com coragem, experiência e uma enorme confiança uns nos outros. Um milagre conseguido há mais de cem anos. Se pensarmos bem, não foi assim há tanto tempo (ou se calhar foi).
Entre os heróis desse dia estava Justino da Silva, patrão-mor do salva-vidas, cujo nome continua ligado a um dos mais notáveis salvamentos da costa portuguesa.
Alguns dos marinheiros espanhóis decidiram ficar por cá. Constituíram família. Criaram raízes. Chegaram a Sesimbra por acidente e acabaram por escolher esta vila para viver.
No fundo, talvez seja esta a melhor metáfora da relação entre Portugal e Espanha: às vezes passamos demasiado tempo a olhar para aquilo que nos separa e esquecemo-nos de tudo o que nos une.
Mais de cem anos depois, o Numancia continua onde o mar o deixou. Os seus restos permanecem junto à Praia do Ouro e fazem hoje parte do património subaquático de Sesimbra, sendo procurados por mergulhadores de várias partes do mundo. Em 2021 foi inaugurado um memorial que recorda o naufrágio e, acima de tudo, o extraordinário gesto de solidariedade dos sesimbrenses para com os marinheiros espanhóis.
É um dos poucos lugares onde a História não está atrás de uma vitrina. Está debaixo de água. À espera de quem tenha curiosidade suficiente para a descobrir.
Da próxima vez que encontrar um espanhol a passear pela marginal de Sesimbra, talvez lhe possa lançar um desafio: — «Sabia que um dos maiores símbolos da história naval de Espanha está aqui mesmo, à nossa frente?».
Às vezes, os maiores tesouros não estão nos livros de História. Estão escondidos no fundo do mar. Mesmo aqui, em Sesimbra.
Andreia Rodrigues

