Um ano sem o histórico Elevador da Glória

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Há um ano, a 3 de setembro, a minha mãe gritou da sala de nossa casa que tinha havido um grande acidente em Lisboa. Como é habitual sempre que há uma tragédia, todos vão a correr para ver. O sangue vende muito!

Pelo ecrã da televisão, víamos que o Elevador da Glória, o conhecido «amarelinho» que transporta muitos dos que visitam a cidade de Lisboa, tinha descarrilado e que havia muitos mortos e feridos. Os hospitais da Grande Lisboa tiveram de socorrer todas as vítimas, ativando o plano de contingência criado para grandes catástrofes.

Este era um dos funiculares mais históricos da cidade, permitindo subir uma das suas sete colinas sem «deixar um pulmão para trás». O elevador podia não andar à mesma velocidade do metropolitano, mas, ao subir (ou descer), era possível sentir o ritmo de uma Lisboa mais pitoresca e menos turística, com pessoas a circular entre a Avenida da Liberdade e o Bairro Alto.

Até ao momento, apenas o Funicular da Graça voltou a estar ativo. Este foi um dos acidentes mais graves que a capital portuguesa sofreu no último século. Jornalistas portugueses e internacionais falaram amplamente sobre o desastre, numa altura em que as notícias sobre o país costumam focar-se no turismo de excelência ou no facto de ser a terra do G.O.A.T. Cristiano Ronaldo.

Nas primeiras horas após o descarrilamento, chegou a falar-se em sabotagem do equipamento histórico, num acidente que causou a morte a 16 pessoas e deixou dezenas de feridos.

Passou um ano desde o acidente, a minha mãe já não está cá e, como é típico em Portugal, falamos muito e agimos pouco. Fazemos relatórios, mas estes demoram uma eternidade a sair! Para assinalar a data e cumprir o «dever de memória», a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou um memorial de homenagem às vítimas. Entre elas, estavam pessoas que trabalhavam para a própria Carris, para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (cuja sede fica a poucos metros do local de onde este ascensor saía) e turistas que tinham vindo a Lisboa aproveitar os últimos dias de verão (já não me lembro se aquele 3 de setembro estava tão quente como o dia de hoje).

A composição do memorial integra uma oliveira adulta com 150 anos, implantada numa caldeira circular e rodeada por 16 blocos pétreos em calcário com «alturas diferenciadas e superfícies preparadas para gravação dos nomes das vítimas». A árvore tem exatamente a mesma idade do funicular. O patriarca de Lisboa rezou junto ao novo memorial, pedindo que a tragédia deixe lições de responsabilidade e atenção ao próximo. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, também esteve presente na inauguração.

Muitas pessoas foram salvas por quem passava na rua e as ajudou a sair para uma zona segura. O cenário atual divide-se entre as homenagens e os processos judiciais. Afinal, a culpa não pode morrer solteira!

A grande maioria das famílias das vítimas mortais e dos sobreviventes ainda não recebeu as respetivas indemnizações. Afinal, é preciso mover «mundos e fundos» para que uma seguradora pague uma apólice — mesmo que esta tenha sido pontualmente paga ao longo de anos. O acidente do Elevador da Glória aconteceu porque o cabo que unia as duas cabines cedeu; o guarda-freio fez tudo o que pôde, mas não conseguiu evitar a tragédia da qual também acabou por ser vítima. O profissional foi homenageado pelos seus colegas da Carris neste dia 3 de setembro de 2026.

Andreia Rodrigues