‘2 Margens’, um diálogo artístico entre as duas orlas do Guadiana

Dedicada este ano às ‘Emoções’, a exposição chega a Ayamonte a 2 de outubro com uma proposta multidisciplinar que reúne o trabalho de 18 artistas portugueses e espanhóis

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Um rio, duas margens. Duas margens que, por sua vez, se traduzem em dois países. Portugal e Espanha, separados – ou unidos – pelo Guadiana, voltam a encontrar-se através da arte. É este o ponto de partida de ‘2 Margens’, uma exposição multidisciplinar que reúne o trabalho de 18 artistas ibéricos. Depois de passar pelo Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António, durante o mês de setembro, a mostra atravessa agora o rio e chega a Ayamonte. Poderá ser visitada no Centro Cultural Casa Grande a partir de 2 de outubro e até ao final do mês.

De um lado está Vila Real de Santo António; do outro, Ayamonte. Juntamente com Castro Marim, as três localidades compõem a Eurocidade do Guadiana. É neste espaço de passagem que nasceu, há oito anos, ‘2 Margens’. Com curadoria da artista luso-espanhola Ana Feu, a iniciativa assenta em dois objetivos principais: por um lado, dar visibilidade ao trabalho de artistas portugueses e espanhóis; por outro, valorizar o património e a identidade da região.

Este último objetivo encontra-se particularmente patente na temática que dá mote a cada nova edição. Se, até à data, se evidenciava uma predominância de temas materiais e profundamente arraigados à história local – como a pesca ou as conserveiras –, este ano, a proposta destaca-se por ser menos tangível. Numa apologia “à contemporaneidade e à liberdade criativa, a escolha recaiu sobre o conceito imaterial das emoções”, afirma Ana Feu.

Ana Feu, curadora da exposição ‘2 Margens’, ao lado do seu quadro. Fotografia de Catarina Castanheira

As emoções como matéria artística

Perante a subjetividade de uma temática que encerra em si um universo de interpretações, o resultado é necessariamente plural. Para Carla Mourão, a resposta encontra-se na fé. Segundo a artista, esta palavra constitui um sinónimo de “esperança num mundo melhor, apesar de todos os acontecimentos negativos que hoje enchem os noticiários, e de confiança num futuro de paz, apesar de todas as guerras que hoje semeiam dor e luto”.

Numa abordagem totalmente distinta, Dani Franco relaciona as emoções com a urbe. Na sua representação de Tavira, o pintor espanhol ilustra “uma espécie de anjos marinhos, protetores da cidade”, uma forma de transmitir os seus “melhores desejos a Portugal e aos portugueses”, confessa o próprio. Com uma perspetiva igualmente urbana, porém, fragmentada, o artista luso Paulo Gago expõe 50 pequenas pinturas de lugares ibéricos que integram a sua geografia afetiva. Entre elas, o espectador poderá contemplar não só referências emblemáticas da região, mas também outras mais longínquas – e, concomitantemente, icónicas – como a Sagrada Família, em Barcelona, ou o célebre elétrico 28 de Lisboa.

Distanciando-se do ambiente citadino, foram vários os artistas que encontraram na natureza a sua fonte de inspiração. É o caso de Rosa Gómez, pintora espanhola com uma carreira superior a seis décadas, que empreendeu o seu percurso artístico como autodidata, e cuja proposta se materializa num quadro “repleto de cor, de vegetação e de flores”, concebido para criar uma “serotonina” visual. Já as suas compatriotas Rocío Romero e Triny Pérez encontraram no mar o estímulo que procuravam. Enquanto a primeira utiliza o realismo para retratar a serenidade que a água lhe transmite, a segunda explora uma dimensão mais coletiva: a água enquanto símbolo “da união entre os povos”.

Pinturas expostas no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António. Fotografia de Catarina Castanheira

A arte como motor para uma consciência transnacional

Da pintura à escultura, passando pela fotografia e a instalação, a convergência de estilos, linguagens e expressões artísticas floresce precisamente como metáfora de uma fronteira entendida não apenas como a separação de dois territórios, mas também como um espaço de diálogo entre eles, “onde as diferenças podem coexistir, comunicar e enriquecer-se mutuamente”, tal como indica Joaquim Correia. À semelhança de ‘2 Margens’, também o artista português procura “pontos de encontro entre disciplinas, materiais e formas de expressão que, à partida, podem parecer separados”. Na sua intervenção, é possível comtemplar uma superfície impressa de ganga, prolongada por fios e flores que parecem abandonar a imagem e escapar para além dela.

À diversidade de linguagens corresponde, por sua vez, uma multiplicidade de intenções. Carlos de Oliveira, escultor português cujas obras podem ser apreciadas nas ruas de Vila Real de Santo António, presenteia o espectador com uma imensa figura feminina demarcada numa lua forjada em aço, construída sob o signo do “equilíbrio, liberdade e serenidade”. Já o seu conterrâneo João Jesus recorre ao seu “trabalhador cansado”, construído com “ferramentas atualmente pouco utilizadas”, para, de forma didática, “mostrar aos mais jovens como se trabalhava antigamente”. Por outro lado, Manuela Santos presta homenagem a Castro Marim, a terra que a acolheu quando veio de Angola. Num trabalho reflexivo sobre a memória e a transformação, a pintora pretende “despertar no público a curiosidade e a vontade de conhecer este território”.

Escultura de Carlos de Oliveira. Fotografia de Catarina Castanheira

Para Javi Castulo, responsável pelas atividades culturais da Câmara Municipal de Ayamonte, a própria existência de ‘2 Margens’ ganha uma dimensão acrescida. “Necessitamos da colaboração das instituições, da sociedade e da arte para construir uma verdadeira consciência transnacional entre os habitantes da Eurocidade”. Embora esteja ciente da dificuldade que este desafio acarreta, reconhece igualmente que “a cada dia que passa [os espanhóis e os portugueses] sentem-se mais unidos”.

Deste forma, Castulo opta por pintar o ferry – embarcação que, durante décadas, constituiu o único meio de conexão entre Ayamonte e Vila Real de Santo António –, evocando, assim, um sentimento de nostalgia e de memória. Paralelamente, Nuria Fuentes aborda essa mesma proximidade através de uma perspetiva mais contemporânea. Na sua proposta, a artista espanhola alude ao “Hipopótamo Gratifero”, uma persona “bestiária” da sua última coleção, que instala num “dos sítios mais emblemáticos das duas cidades: a Ponte que as une”.

Com carácter homogéneo, todas as telas correspondem às dimensões de 1,20 por 1,20 m. Fotografia de Catarina Castanheira

Uma Raia cada vez mais permeável

Todos os artistas presentes em ‘2 Margens’ possuem laços, mais ou menos intensos, com a fronteira entre Espanha e Portugal. Seja por família, amizades ou trabalho, a Raia ocupa um lugar relevante nas suas vidas. No caso de Elisabete Guerreiro, essa realidade evidencia-se em todos os âmbitos. Nascida em Faro, vive em Ayamonte, mas trabalha no seu país natal. Atravessar regularmente o Guadiana, manter vínculos e criar projetos dos dois lados fez com “essa linha se tornasse muito mais permeável”. É precisamente essa a experiência que procura refletir na sua pintura. “Onde termina um espaço e começa outro? O que é realmente uma fronteira? Aquilo que nos separa não poderá também aproximar-nos?”, são algumas das questões que espera suscitar no público.

Uma mostra multidisciplinar, com pinturas, esculturas, fotografias e intervenções. Fotografia de Catarina Castanheira

‘2 Margens”, uma plataforma de visibilidade

O propósito da exposição vai ainda mais além, pois há uma outra fronteira que procura analisar: a da presença feminina na criação artística. Oferecer um espaço para expor é muito mais do que disponibilizar uma parede; é criar oportunidades. Ao longo destes oito anos, Ana Feu pôde acompanhar o percurso de várias artistas que, ao passaram por ‘2 Margens’, foram conquistando visibilidade no setor. Assim o ilustram Carmen Carmona e Karina Müller, ambas residentes em Espanha e que, pela primeira vez, estão a mostrar as suas obras em Portugal. Fruto desse trabalho, a curadora reconhece com satisfação a plataforma de visibilidade que esta iniciativa representa, afirmando já ter assistido “muitas artistas aqui expostas a darem o salto para encabeçarem exposições e projetos por si próprias”.

Ficha técnica ‘2 Margens’

Local: Centro Cultural Casa Grande, Ayamonte

Inauguração: 2 de outubro às 19:00 (de Espanha)

Datas: 2 a 31 de outubro

Horário de visita: de segunda a sexta-feira, das 9:00 às 14:00 e das 17:00 às 21:00

Curadoria: Ana Feu

Pintura: Ana Feu, Carla Mourão, Dani Franco, Elisabete Guerreiro, Javi Castulo, Karina Müller, Manuela Santos, Nuria Fuentes, Paulo Gago, Rosa Gómez, Rocío Romero e Triny Pérez

Escultura: Carlos de Oliveira, Kvuela, João Jesus e Joaquim Correia

Fotografia: Carmen Carmona e Sónia Balão