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Barrancos, a fronteira invisível que aproxima povos e criou uma nova língua

Mapa de Barrancos, localidad en la frontera entre Portugal y España.

O programa «Visita Guiada», da RTP2, foi até Barrancos, concelho próprio e que levou o «portunhol» um pouco mais longe. Isto porque em Barrancos, portugueses e descendentes de espanhóis (de várias regiões do país) convivem lado-a-lado. Vão a festa das flores, convivem de perto com as pessoas de Encinasola (a azinheira isolada, se não me engano esta é a tradução do nome) ou vêem os touros de morte. Uma tradição que veio, supostamente, de Sevilha (ao contrário das touradas ao estilo marialva que se fazem nas praças de touros mais tradicionais de Portugal).

Sabia que até há poucos anos Barrancos era a irredutível aldeia gaulesa que matava touros, a moda espanhola, não o sendo permitido em Portugal? Entretanto isto mudou e Barrancos já pode fazer as suas touradas descansados, com ricos e pobres a verem tudo através do tabuado (o meu avô chegou a estar ligado a um dos cafés que está na praça onde se fazem estas touradas).

Barrancos é um lugar peculiar na Raia portuguesa. Tu andas por Barrancos e se andares demais, e sem GPS (tal como o meu pai o fez), acabas perdido em algum lugar do outro lado da fronteira a ouvir as pessoas a falar em espanhol contigo (e ele, sendo do litoral, não percebia nada do que diziam).

Sou filha de uma barranquenha mas tive que aprender através deste programa de televisão que Barrancos foi fundada por famílias vindas da zona norte de Huelva (Cumbres de alguma coisa). Agora percebo quando a minha mãe dizia «ir às Cumbres» (e eu que achava que era alguma espécie de asneira).

A presença humana em Barrancos é milenar mas o local como o conhecemos começou com os espanhóis e daí podemos explicar esta peculiar língua que luta por ser a terceira de Portugal. Os portugueses estavam no interior do castelo de Noudar (entretanto recuperado) mas tiveram que sair daquela aldeia e acabaram todos juntos em Barrancos. Uma pontinha que está mais perto de Espanha do que de Portugal.

As pessoas em Barrancos tocam sambomba (um instrumento musical) e a comer roscas (massa frita). Existem workshops deste bolo no museu de arqueologia de Barrancos (muitos arqueólogos vão estudar esta terra). Durante as guerras da Restauração, Barrancos foi destruída pelas tropas portuguesas pois estas achavam que já estavam em Espanha. Uma curiosidade que desconhecia por completo. Tal como a mina da Paris (onde o meu avô também chegou a trabalhar) ter, em algum momento do século passado, ter sido um faroeste ao estilo alentejano. O que eu sabia era que, durante a Guerra Civil, houve dois campos de refugiados (tanto ligados a direita mas especialmente a esquerda espanhola) em duas das herdades locais. Um desses campos esteve na Cotadinha (nome estranho, concordo).

Uma das primeiras coisas que me ensinaram nas aulas de geografia foi a assinalar aquele pequeno ponto no mapa e a ver as alterações que o mapa sofreu (e a verdade é que não foram muitas) desde o Tratado de Alcañices para cá. Lembro-me de um dos meus professores ter se enganado a mostrar os mapas e a dizer que Barrancos pertencia a Espanha (algo que na altura me chateou e me fez gritar com o professor. Algo que não se deve dizer, eu sei).

Na televisão, o barranquenho tem que ser subtítulado para que se compreenda (na minha altura, e pelo telefone, ainda era mais difícil compreender a família da minha mãe quando ligavam para casa). Em Barrancos fala-se barranquenho, língua que recentemente ganhou uma gramática e outras formas de ensino/proteção de uma língua que mistura o português (do Alentejo), o extremenho, o andaluz e até algumas palavras do leonês ou do asturiano medieval. O concelho de Barrancos faz fronteira com pelo menos quatro regiões (duas em Portugal e outras duas em Espanha). No topo do castelo de Noudar, o mesmo onde supostamente há uma serpente de rabo-de-abalo (pelo menos é o que reza a lenda), é possível ver a linha da fronteira imaginária (a famosa raia seca) que separa a Extremadura da Andaluzia e a que separa os distritos de Beja e o de Évora.

Andreia Rodrigues

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