Davide Gambini, autor da portada da Feira de Sevilha: “A fusão do Pavilhão de Portugal com o Pavilhão de Carlos V revelou-se visualmente harmoniosa”

O projeto do arquiteto italiano evoca referências lusas da Exposição Ibero-Americana de 1929 e assinala o quinto centenário do casamento de Carlos V com Isabel de Portugal

Comparte el artículo:

Bluesky Streamline Icon: https://streamlinehq.comBluesky
Portada iluminada de la Feria de Abril de Sevilla 2026
Alumbrado” / CATARINA CASTANHEIRA

Sevilha acaba de entrar numa das semanas mais emblemáticas do seu calendário festivo. À meia-noite do dia 21 de abril, milhares de sevilhanos e visitantes reuniram-se na interseção da rua Asunción com a avenida Flota de Indias para assistir ao tradicional “Alumbrado” (“iluminação”, em português), o momento que assinala oficialmente o começo da Feira de Abril.

Em poucos segundos, mais de 28 mil lâmpadas LED acenderam-se em simultâneo, iluminando a portada – símbolo de entrada no recinto festivo. O desenho deste ano é da autoria do arquiteto italiano Davide Gambini, que, fiel à linha criativa das edições anteriores, se inspirou nos emblemáticos edifícios da cidade. Desta vez, a escolha recaiu sobre o Pavilhão de Portugal da Exposição Ibero-Americana de 1929, atual sede do Consulado-Geral de Portugal, e o Pavilhão de Carlos V, alusivo ao casamento do imperador do Sacro Império Romano-Germânico com Isabel de Portugal.

O arquiteto, nascido em Cisliano, na província de Milão, chegou a Sevilha graças a uma bolsa de Erasmus. Rapidamente se apaixonou pela cidade, onde acabou por se fixar. Vive na capital andaluza há mais de nove anos e integrou-se de tal forma que assina, pela segunda vez, a portada da Feira de Abril, após a estreia em 2024.

 

Davide Gambini sonriendo en una cafetería de Sevilla
Davide Gambini, autor das portadas da Feria de Abril de Sevilha de 2024 e de 2026 / CATARINA CASTANHEIRA

O que sente ao ver o seu desenho na portada da Feira de Abril de 2026?

Alegria e muita felicidade. Não estava à espera, mas sabia que a proposta era boa e, como já tinha vencido uma vez, pensei que podia acontecer novamente. Ainda assim, a primeira vitória foi a mais surpreendente.

Qual foi a inspiração para o desenho deste ano?

A ideia surgiu quando li uma notícia sobre o 500.º aniversário do casamento de Carlos V com Isabel de Portugal. Não sabia que tinha ocorrido em Sevilha, o que me despertou certa curiosidade. A partir daí, comecei a procurar referências visuais e encontrei o Pavilhão de Carlos V, no Real Alcázar. No entanto, percebi que, por si só, não tinha uma estética adequada para a portada, uma vez que é um edifício bastante simples, onde apenas se destacam os azulejos.

Detalle de la portada de la Feria de Abril de Sevilla 2026 con elementos decorativos
Detalhe assinalando a celebração do 500.º aniversário de Carlos V e Isabel de Portugal / CATARINA CASTANHEIRA

Foi então que decidiu integrar o Pavilhão de Portugal da Exposição Ibero-Americana de 1929?

Exato. Fiz questão de encontrar outro edifício que fosse compatível com o tema e com a estética da Feira. O Pavilhão de Portugal surgiu de forma natural, não só pela ligação ao país e à Rainha Isabel, mas também pela sua relação com a Exposição de 1929, tema que já tinha sido explorado na portada de 2025. Além disso, creio que esta construção nunca tinha sido utilizada como referência, o que a tornou numa opção particularmente interessante. E, efetivamente, a fusão do Pavilhão de Portugal com o Pavilhão de Carlos V revelou-se visualmente harmoniosa.

Que elementos procurou destacar do Pavilhão de Portugal?

Sem dúvida, a abóbada. Sobretudo, porque não tem nada a ver com Sevilha nem com a Europa, já que a sua inspiração é essencialmente oriental. Quer isto dizer que se distingue dos demais edifícios da cidade e, por conseguinte, é mais facilmente reconhecível. E este é um fator que eu gosto sempre de incluir nos meus projetos: elementos identificáveis que as pessoas possam perceber de onde vem a inspiração.

Por outro lado, possui uma estética neobarroca, com muitas curvas, o que ajudou a criar arcos distintos aos das portadas anteriores e a dar mais movimento. Contudo, o principal desafio foi a cor, já que é um edifício demasiado cinzento e, na minha opinião, não se adequa ao ambiente da Feira. Por isso, optei por integrar os azulejos do Pavilhão de Carlos V, dado que têm muitíssima mais cor.

Portada de la Feria de Abril de Sevilla 2026 con diseño de Davide Gambini.
Portada da Feria de Abril de Sevilha de 2026 / CATARINA CASTANHEIRA

É a segunda vez que vence o concurso. Qual é o seu “segredo”?

Não acho que haja um segredo. Diria que é importante compreender a essência da Feira e criar algo bonito. As pessoas vão para se divertir, conviver e tirar fotografias em frente à portada, por isso procuram cor e alegria. Como tal, o projeto deve ser feito com carinho e estar pensado para a cidade e para os seus habitantes.

Sendo um concurso, a decisão depende de um júri e, em grande medida, de critérios subjetivos. Ainda assim, poderia indicar alguns aspetos fundamentais a considerar. Por exemplo, garantir que o projeto seja fisicamente viável tendo em conta a simplicidade dos materiais utilizados: uma estrutura de andaimes posteriormente revestida com painéis de madeira. Os apoios e as fundações praticamente não variam entre cada edição, assim como as dimensões, que não podem ultrapassar os 50 metros de largura por 40 de altura.

Também é essencial trabalhar a decoração, porque o que funciona no papel, pode não resultar à escala real. Desta forma, é necessário enriquecer a proposta com bastante decoração e evitar grandes superfícies monocromáticas.

Outro ponto relevante é o tema. Nas edições mais recentes houve mais liberdade, exigindo-se apenas uma conexão explícita com Sevilha. É verdade que, nos últimos anos, as referências aos pavilhões da Exposição de 1929 têm sido bastante frequentes, mas isso é natural, considerando a aproximação do centenário. De facto, é provável que essa tendência se mantenha até 2029.

Por último, concorrerá novamente em 2027?

Acho que não. Para o próximo ano prefiro não concorrer, embora não exclua voltar a participar mais adiante.

A fusão entre os pavilhões