Jaime Cortesão, o génio que participou na Guerra Civil

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A poucos dias de se assinalarem os 90 anos do início da Guerra Civil espanhola e com os meios de comunicação a recordarem a participação dos portugueses em ambos os lados do conflito, descobri que moro (desde que nasci) numa rua que tem o nome de um dos portugueses que combateu numa guerra que serviu como laboratório para a II Guerra Mundial. Apesar de ter sido um conflito civil, vários países, desde a Alemanha até à União Soviética, sem esquecer Portugal, acabaram por se envolver de alguma forma.

A minha rua tem o nome de Jaime Cortesão, um influente médico, político e historiador português. O seu trabalho de investigação focava-se tanto nos Descobrimentos Portugueses como na formação do Brasil. Como médico de formação que era, Jaime Cortesão participou como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português (CEP) na Flandres. As baixas portuguesas na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial totalizaram mais de 8 000 militares, sendo este o período mais sangrento para as tropas nacionais. Jaime Cortesão nasceu em Cantanhede e faleceu no bairro da Lapa, em Lisboa — um bairro habitualmente associado a uma classe social mais alta e tradicional da sociedade portuguesa.

É considerado um dos grandes intelectuais do século XX em Portugal. Jaime Cortesão chegou a dirigir a Biblioteca Nacional de Portugal e participou na fundação da revista «Seara Nova». Era visto como um autêntico génio em tudo o que fazia, fosse a nível intelectual ou no campo de batalha.

Cortesão era, como se costuma dizer, um homem dos «sete ofícios» que lutou pela democracia nos dois lados da fronteira. Nascido ainda antes da Implantação da República, foi um republicano convicto e, em 1915, durante a frágil Primeira República, chegou a ser eleito deputado.

Anos mais tarde, tornou-se uma figura de destaque na oposição ao regime do Estado Novo, tendo sido preso e vivido exilado entre Espanha, França e o Brasil. Cortesão teve um papel ativo na Guerra Civil espanhola, apoiando ativamente a Segunda República Espanhola. Atuou como um dos principais líderes intelectuais e políticos dos antifascistas portugueses no exílio e foi um dos fundadores da Frente Popular Portuguesa, organismo que, a partir de Espanha, pretendia unir os opositores ao regime de Lisboa que se encontravam no estrangeiro.

Em 1937, Jaime Cortesão discursou, em nome deste organismo, no II Congresso Internacional de Escritores para a Defesa da Cultura — um evento que visava alertar para a ascensão do fascismo na Europa e que decorreu nas cidades de Valência, Madrid e Barcelona. Jaime Cortesão e os seus companheiros também ajudaram a organizar o apoio logístico e moral a quem combatia as forças nacionalistas do general Francisco Franco.

Para os antifascistas, a derrota de Franco em Espanha era o primeiro passo para restaurar a democracia na península ibérica e derrubar Salazar do poder. No entanto, não o conseguiram fazer diretamente; foi a célebre queda de uma cadeira de lona (causada pelo desgaste material) que acabou por ditar o fim do seu governo. Salazar acabou por ser o único ditador europeu afastado do poder devido a um acidente com uma peça de mobiliário.

Na década de 30, a comunidade portuguesa em Espanha, espalhada por todo o território, contava com cerca de 30 mil pessoas. Com a vitória das forças franquistas, Cortesão fugiu de Barcelona em direção a França, a pé, através dos Pirinéus. Anos mais tarde, milhares de portugueses fariam o mesmo percurso de fuga à pobreza e à ditadura, mas a «salto» (clandestinamente) e de comboio, dando origem à enorme comunidade de portugueses e lusodescendentes em França.

Em 1958, Jaime Cortesão foi um dos grandes apoiantes da candidatura presidencial do general Humberto Delgado, conhecido como o «General Sem Medo» (que viria a ser assassinado em Espanha). Cortesão faleceu em 1960, antes da queda do regime salazarista, mas a história recorda-o hoje como um dos nomes fundamentais que ajudou a plantar as sementes para o regresso da democracia ao território ibérico.

Andreia Rodrigues