Uma geração que começa a sair de cena

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Dentro de dois meses viramos o ano, mas vamos olhar para o mundo do início do século XX. Afinal estamos novamente na década de 20, mas desta vez os «anos loucos» não estão a ser vividos ao som do jazz. A morte é uma constante da vida e a passagem do tempo tem feito que uma geração comece a sair de cena. No último mês, vários nomes que marcaram o Séc. XX (onde tudo mudou) saíram de cena.

A rainha Isabel II, Gorbachev ou Josep Soler i Sardá são alguns dos exemplos de pessoas que marcaram (de uma forma ou de outra) os últimos 100 anos. A geração que atualmente tem de 80 anos para cima destacou-se pelo brilho e tenacidade que apresentaram para ultrapassar alguns dos momentos mais difíceis da nossa história coletiva. A este grupo de «intocáveis» recentemente falecidos juntou-se o professor Adriano Moreira.

No ano em que Portugal comemora os centenários dos nascimentos de José Saramago e Agustina Bessa-Luís, o país viu partir Adriano Moreira. O académico, que ajudou a formar várias gerações tanto de civis como de militares, foi o político da história democrática com uma maior longevidade. Chegou mesmo a fazer parte do Conselho de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa no seu primeiro mandato como Presidente da República de Portugal.

O presidente, em Belém, agradeceu o trabalho que Moreira fez pelo país no último século, onde «foi tudo ou quase tudo». Augusto Santos Silva lembrou que Adriano Moreira «ajudou a democracia a situar-se na continuidade histórica de Portugal». É que num país pequeno, mas com quase nove séculos, às vezes é difícil compreender o nosso lugar neste mundo imenso. Perdemo-nos a olhar para o mar, mas a conquista do mesmo está cada vez mais difícil.

O político atravessou a história, mas sempre em desencontro com ela. Viveu bem de perto o desenvolvimento da história, mas muitas vezes esteve ao desencontro da mesma. Isto porque foi contra o Estado Novo, foi ministro do Ultramar (visto mesmo como um dos delfins de Salazar) e foi presidente do CDS e vice-presidente da Assembleia da República. O democrata-cristão viveu os inúmeros momentos do seu partido, desde a altura que faziam parte dos governos do PSD até agora, onde já não estão presentes na Assembleia da República.

Também foi defensor do lusotropicalismo, reabriu o campo do Tarrafal (que está candidato a património da humanidade) e foi defensor da política colonial, sendo o homem que detinha a pasta do Ultramar no início da guerra. O fim do colonialismo e desta guerra nefasta trouxe os cravos e uma nova geração onde a palavra liberdade sempre brilhou bem alto. Moreira foi um homem que nasceu durante o Estado Novo e que representou a transição para a Democracia sem lamentar o que se deixou no passado (o habitual «na altura do Salazar é que era bom!» normalmente vem das vozes de gerações mais novas). Um transmontano orgulho e sem qualquer tipo de ressentimentos.

Já não somos o país miserável, analfabeto e opressivo que eramos há 60 ou mesmo 10 anos atrás. Muito mudou e muito devemos às gerações que aos poucos começam a sair de cena. A pergunta é se ainda vamos a tempo para não deixarem os conhecimentos que estas pessoas detêm morrer com elas. Uma das maiores riquezas da humanidade é a memoria. A massa cinzenta que temos dentro das nossas cabeças não serve, apenas, para ser escondida pelo crânio e pelos cabelos.

Num documentário sobre a II Guerra Mundial, um cidadão polaco disse que são eles, os que viveram a guerra, que devem lembrar aos mais novos os horrores da mesma para que os erros do passado não sejam novamente repetidos. Uma pena que não aprendemos nada e estamos a viver uma nova Guerra Fria (analisem o contexto e vejam se os passos não são os mesmos). Só que este não é o tema principal deste artigo.

Adriano Moreira foi um dos principais pensadores políticos do último século português. O século em que nasci, já no finalzinho, deixámos de ser monárquicos e passámos a ser uma república progressista, mas que devido aos seus erros acabou por viver uma horrível ditadura que marcou os nossos avós e pais. Já os millennials lusos despediram-se com a realização da Expo 98 e da entrega de Macau a China.

Adriano Moreira foi defensor da importância da língua portuguesa, do estatuto dos povos locais das antigas colónias e um dos ideólogos da ideia que acabou com a criação da CPLP e da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (mais conhecida como UCCLA). As lágrimas e os agradecimentos a uma geração que aos poucos começa a desaparecer são merecidas, mas a memória não deve reter apenas o bom. Isto porque a vida é pintada a várias cores, não apenas a preto e branco.

 

Andreia Rodrigues

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