EL TRAPEZIO entrevista Pedro Gil de Vasconcelos: “Viajar de carro é fast-food, fazer um Caminho a pé é gourmet do melhor”

O Meu Caminho, trabalho mais recente do realizador sobre o Caminho de Santiago, foi agora distinguido no New Wave Short Film Festival

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No âmbito profissional, Pedro Gil de Vasconcelos (Porto, 1965) já fez muito. Estudou cinema e foi jornalista, começando pelas rádios locais até chegar à RTP. Na estação pública portuguesa, desenvolveu, produziu e apresentou programas, mas é a partir da produtora que fundou, a Completa Mente, que segue a sua carreira e tem concretizado as suas ideias.

A mais recente (e premiada) é O Meu Caminho, um documentário que gravou ao longo dos mais de 200 quilómetros que separam Braga e Santiago de Compostela pelo Caminho de Geira e Arrieiros. Mas é também já experiente nestas andanças. Nas pernas, leva já doze caminhadas de Santiago e não pensa parar. Até porque agora tem uma motivação extra: o prémio que recebeu na edição de agosto do New Wave Short Film Festival, com base em Munique, na categoria de melhor documentário de fé e religião. Um festival que, mensalmente, destaca o melhor da realização emergente e das histórias que se contam a partir do que se tem à mão.

 

Como surgiu a ideia para este “seu” Caminho?

A ideia de fazer caminhos nasceu já há muito tempo. Sempre gostei muito de andar, de desportos de natureza, e sempre estive ligado a projetos que incluem este tipo de desportos (nomeadamente o programa Sem Limites, no qual trabalhei na RTP). Daí, o Caminho de Santiago surgiu naturalmente como uma experiência que decidi fazer, em 1999, à qual fiquei “agarrado” desde então.

Talvez devido a uma pedra, sobre a qual falo no documentário, que existe ali perto do Porto de Marín, desgastada pelos milhares de peregrinos que por lá passam. É uma pedra côncava no centro, pelo facto de que quem lá passou lhe foi tirando a areia, mas, ao fazê-lo, acrescentando também algo de seu. E quando me interroguei sobre isso, comecei a interrogar-me sobre uma série de coisas das quais eu gosto, nomeadamente a História. Acho que, a partir desse momento, passei a olhar o Caminho de outra forma. Depois disso foram mais 11 caminhos [risos] e espero fazer o 13.º ainda este ano.

O Meu Caminho, filme, nasceu como uma ideia para televisão, que depois não foi agarrada por alguns canais, o que me fez repensá-lo. E como no ano passado decidi fazer o Caminho da Geira, planeado há bastante tempo, pensei: “porque não, em vez de fazer um documentário com meios pesados e imensos, fazer isto com impacto zero ou muito reduzido?” E assim foi. Atualmente temos as ferramentas para isso e, então, eu e um amigo meu, o Adriano Carneiro – que é o protagonista do filme – começámos o caminho em Braga e lançámo-nos à aventura até Santiago.

 

E porquê o Caminho da Geira e Arrieiros? Que tem de especial este caminho?

Qualquer Caminho de Santiago não tem só uma História, tem milhares de histórias – talvez uma por cada um que por lá passou. E foi isso que eu quis retratar neste documentário. Os factos históricos por detrás do Caminho – o lado pagão para além do religioso, a relação dos Caminhos com as vias romanas – mas também a minha história.

E como o Caminho de Santiago não tem necessariamente de ser o Francês, achei que este Caminho da Geira era o cenário ideal para criar esta narrativa. É um caminho belíssimo, de natureza exuberante e variada, que nos permite ter sucessivamente experiências diferentes. Quando se entra na Geira, estamos a trilhar os passos de tantos que por lá passaram antes: romanos, cristãos, judeus, mouros… Depois entramos no Parque Natural da Peneda-Gerês e é encantadora a relação que criamos com a água e a terra, através do tato e do cheiro. Chegados aos planaltos de Castro Laboreiro, temos uma paisagem mais agreste, mas encantadora também, onde por vezes encontramos javalis e outros animais. E mesmo a etapa que nos leva até Ribadavia, do lado espanhol do rio Minho, é também lindíssima pelos vinhedos do Ribeiro.

Portanto, de alguma forma dou a conhecer um caminho pouco conhecido – e ainda bem – mas espero sinceramente que não se torne um caminho tão massivo quanto é, por exemplo, o Francês, pelo qual passam num dia tantos peregrinos como num ano inteiro pela Geira. É verdade que este não tem tantas infraestruturas de apoio, que também são importantes, mas é um caminho mais bruto, mais selvagem, que pode (e deve) ser apreciado.

 

Como foi a experiência de gravar com um material escasso?

Foi uma aventura, de facto. Inicialmente tinha um telemóvel, um selfie stick, um microfone e um gimbal [um suporte estabilizador da imagem], mas, às páginas tantas, decidi prescindir do quilo e meio que me estava a pesar este material e enviei-o num envelope para Santiago. O que aconteceu foi que, a pé, fui mais rápido a chegar a Santiago do que o gimbal, que ficou algures retido em Espanha, mas depois consegui recuperá-lo quando já estava no Porto.

Agarrado ao telemóvel tinha então o microfone direcional, para conseguir ter um pouco mais de som – que é importante – e o selfie stick, que me permitiu ter alguns planos rentes ao chão e, também, estabilizar a imagem. É muito mais leve do que o gimbal – deve ter uns 300 gramas – e isso é muito bom. Quem já fez o Caminho sabe que 100 gramas mais 100 gramas rapidamente se torna um quilo ou dois e que, se formos tirando algum peso, é melhor para as nossas costas, pernas e pés.

E foi assim que [o filme] foi produzido. Logicamente que, depois, a edição é feita já numa workstation digital, mas assim consegui fazer um filme de baixo impacto, provando que é possível fazê-lo. E, em boa hora, lá de fora conseguiram entender este projeto…

 

Fala, obviamente, do prémio que recebeu de Munique. A que sabe esta distinção?

Sabe, acima de tudo, a reconhecimento. Tinha também previsto entrar com este documentário num outro festival cá em Portugal, que tem um prémio dedicado às relações transfronteiriças, mas nunca cheguei a perceber sequer se foi inscrito. Não me enviaram qualquer confirmação da inscrição e, depois de várias tentativas de contacto, responderam-me a dizer que a lista de participantes já tinha sido divulgada, mas num dia anterior ao fecho das inscrições, o que não faz sentido.

Entretanto, depois desta má experiência, decidi também enviar o documentário para o New Wave Short Film Festival e, com uma grande surpresa, recebi um email a dizer que tinha vencido a categoria [de melhor documentário de fé e religião]. Estou grato e, de facto, este prémio sabe também a gratidão àquele festival que soube entender este produto.

 

Voltando às gravações, que momentos recorda desta aventura?

Isso é difícil [risos]. Quando falo sobre o Caminho, digo sempre que, em quatro dias, fazemos o mesmo que alguém em bicicleta faz em dois ou que em automóvel faz em apenas um. Portanto, a perceção que temos das coisas, do que se atravessa à nossa frente, é completamente distinta: acho que viajar de automóvel é fast-food, fazer um Caminho a pé é gourmet do melhor que pode haver!

Assim de memória, recordo um besouro com uma cor estranhíssima – que parecia quase uma daquelas pinturas metalizadas que se usa no tuning – que se cruzou no meu caminho ao chegar a Lobios. Recordo paisagens fantásticas, o encontro que tivemos com um javali, um gamo, com águias-de-asa-redonda que passaram por nós… Mas recordo especialmente uma parte do caminho, já do lado espanhol, em que ficámos em Pazos de Arenteiro, uma terra muito bonita encaixada num vale profundo.

Chegar lá não é fácil, porque o caminho está mal sinalizado nessa zona, por isso fomos positivamente a cortar mato – houve até uma parte em que tivemos de ir a rastejar. Quando lá chegámos, percebemos que não tínhamos sítio para dormir, porque fomos mal atendidos por uma pessoa do hotel rural onde planeávamos ficar. Procurámos outro sítio e, eventualmente, encontrámos a dona do espaço que nos informou que já tinha fechado, devido à pandemia. Entretanto apareceu-nos um senhor, cuja esposa era portuguesa e, curiosamente, da zona de Entre-os-Rios, onde tenho família da parte da minha avó. E foi esse ponto de encontro que levou o senhor a dizer-nos para falarmos com a filha dele, a alcaldesa [autarca] daquele local, que simpaticamente fez alguns contactos e resolveu-nos a situação.

Partimos para outra aldeia um pouco mais à frente, onde estava então a casa de turismo rural onde dormimos e um sítio – que não era um restaurante – onde nos serviram uma salada de tomates da horta, um pão caseiro, um vinho da ramada daquela casa, um orujo que também destilavam ali perto, e omeletas. Essa refeição, de facto, ficou-me na cabeça. Podia estar a comer caviar noutro sítio qualquer, mas de certeza não recordaria esta experiência de acolhimento, de respeito, de tudo o que se possa dizer de bem daquela gente. Com o pouco que tinham, conseguiram fazer-nos um manjar e dar-nos uma experiência inesquecível.

Para mim, o Caminho de Santiago é o colecionar destas experiências. De todas as vezes que o fiz, nunca o fiz por fé ou por promessas, mas acho que o que faz com que eu regresse é o facto de o Caminho ter muito para nos dar e boa gente para nos acolher.

 

Em relação ao filme, já recebeu alguma crítica ou comentário, nomeadamente do lado espanhol?

Eu ainda não mostrei o documentário [inteiro]. Mostrei já um pequeno trailer, com cerca de um minuto, porque o documentário está ainda reservado aos festivais. A fazer alguma mostra, gostaria de a fazer com a Federação Portuguesa do Caminho de Santiago, já que também apresentei com eles o trailer. É possível que algo apareça dentro de algum tempo.

Portanto, ainda não tenho grandes críticas. A única crítica pública que recebi, de facto, foi por parte do New Wave Short Film Festival, que me premiou. Já tive, sim, alguns amigos que viram o filme – um ou outro espanhol – e, como amigos que são, disseram bem [risos].

 

No futuro, outro filme sobre o Caminho, ou há algo mais deste território ibérico que o inspire?

Tenho um projeto para televisão, outro documentário de maior duração, desta vez sobre os Caminhos portugueses e não só um. Vai desde o Caminho Interior ao Central, ao da Geira e ao da Costa.

Para além disso, tenho na calha um outro documentário, completamente virado para o Porto, que fala das relações históricas da cidade com Inglaterra, com o vinho e outros produtos como o bacalhau. Aborda também a génese da segunda dinastia portuguesa e um personagem muito interessante, um senhor chamado Afonso Martins Alho, que foi fulcral em tudo isso.

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