EL TRAPEZIO entrevista Rui André Soares: “Não olho para Espanha como um país inimigo, mas sim um aliado e parceiro”

O diretor e fundador da Comunidade Cultura e Arte afirma que as coproduções audiovisuais ibéricas são um bom exemplo de como “criar sinergias” a outros níveis

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Rui André Soares (Águeda, 1986) é o exemplo vivo de que não é preciso estar nas grandes cidades para operar grandes mudanças. A partir de Crastovães, uma aldeia no concelho de Águeda, criou uma das páginas sobre cultura e arte na internet com maior sucesso em Portugal, a Comunidade Cultura e Arte, promovendo todos os dias uma aproximação efetiva dos jovens à realidade cultural e a sua formação e educação através dela.

Não se considera propriamente um iberista, mas partilha a crença de que é preciso fazer mais pelos dois países e que isso passa pelas sinergias em várias dimensões. É, portanto, um interessado por Espanha e um defensor acérrimo dos bilateralismos sempre que estes servirem “para melhorar as condições de vida das pessoas”, o que levou o EL TRAPEZIO a conhecê-lo.

“Viva a União Ibérica!” foi o texto com que remataste, recentemente, uma sequência de histórias na tua página de Instagram em que comparavas algumas medidas sociais dos governos espanhol e português face à corrente inflação. O que querias dizer com isso?

Na verdade, estava a ser irónico. Estava a mostrar o meu desagrado face a algumas medidas que os dois governos têm tomado. Por exemplo, houve uma medida implementada em Espanha, que muita gente em Portugal tem defendido, que foi baixar o IVA em alguns bens alimentares essenciais. Para mim, essa medida não faz sentido porque, há uns anos, também se baixou cá o IVA na restauração e verificou-se que os preços não baixaram. E, há uns meses, também se baixou o IVA nas bicicletas, mas já saiu uma reportagem publicada pela CNN que diz que a redução dos preços não se verificou em muitos dos sítios onde se vendem bicicletas.

O que eu acho é que, ao divulgar-se notícias sobre estas coisas, é possível criar-se um conflito de ideias e gerar pensamento. Foi isso que eu fiz e é isso que eu procuro sempre.

Mas essa tua afirmação tem por detrás, de alguma forma, um pensamento iberista?

Sim, mas não totalmente. Eu defendo mais uma lógica europeia, não especificamente entre países. Agora, é claro que se devem criar sinergias e, no caso de Portugal e Espanha, existem vários acordos, até alguns recentemente feitos. Nesse sentido, sou completamente a favor dessa união, desde que sirva para melhorar as condições de vida das pessoas.

Em termos culturais, existe também uma fusão entre uma cultura e outra, mas, por fatores históricos, muitas vezes ainda se vê o país vizinho como um inimigo, acendem-se rivalidades… Não concordo com isso, acho que se devia criar pontes entre um país e o outro. O que, na verdade, já existe. Alguns artistas portugueses têm exposições em Espanha e vice-versa, como é o caso do [cineasta] Pedro Costa, que está agora com uma exposição em Barcelona e segue depois para a Corunha.

Ou de José Saramago, um autor que aprecias…

Sim. Há nomes que são tão grandes que conseguem furar essas barreiras, como é o caso do Saramago. Ele foi viver para Lanzarote e construiu lá uma parte da sua carreira e vida, embora tenha saído de Portugal não pelos melhores motivos. Mas depois dele há uma série de outros artistas que também o fizeram e fazem.

Pode-se dizer então que és um interessado por Espanha?

Sim. Interesso-me mais por Espanha, creio eu, porque não tenho essa coisa de olhar para o país como um inimigo, mas sim um aliado e parceiro. E quando eu publico isso nas minhas redes sociais ou divulgo notícias na Comunidade Cultura e Arte com assuntos de Espanha, é mesmo para causar assunto. Para gerar reflexão, pensamento com sentido crítico.

Por exemplo, sobre o tema dos acordos bilaterais que já referi, acho que é um caminho a seguir. Se nós partilharmos com Espanha aquilo em que somos bons e os espanhóis fizerem o mesmo connosco, acho que ganhamos todos. E ganha a União Europeia no final. Como se costuma dizer, “a união faz a força”. Se andarmos cada um para o seu lado, não vamos a lado nenhum.

Em que áreas consideras que os dois países têm ainda grandes desafios pela frente?

Acho que se resume a economia, uma vez que é transversal a todas as áreas. Como, para mim, a cultura também o é. Vou dar um exemplo que costumo usar muito. Para criares o teu ser cultural, precisas de várias coisas: habitação acessível, boas condições de trabalho, salários justos, acesso e qualidade na educação e saúde. Se a economia não for saudável nestas temáticas, não consegues construir o teu ser cultural. Penso que estes temas são a resposta-base.

Outro exemplo, a globalização. Pode ser muito boa, mas também pode ser má. Vimos agora durante a pandemia que bastou a China fechar o comércio de alguns produtos para abalar várias economias no mundo. É preciso pensarmos em investir na produção nacional, e mesmo à escala europeia, para fazermos face a esses obstáculos que podem surgir.

E, por exemplo, em relação a temas quentes como a ferrovia. Qual pensas que deve ser o caminho a seguir?

A discussão sobre a ferrovia é um tema tão absurdo como é a discussão sobre o aeroporto de Lisboa. Andamos há anos a discutir se devemos investir ou não no aumento ou melhoria destas infraestruturas e não se faz nada. Devíamos pensar todos os dias como deixámos degradar e desinvestimos na ferrovia. Há linhas que, pura e simplesmente, deixaram de existir, e isso não devia ter acontecido.

Lá está, mais uma vez volto ao essencial. A ferrovia são vias de comunicação. Se não investirmos nelas, neste caso até sendo mais amigas do ambiente, isso tem consequências não só na economia como na vida das pessoas. Se as pessoas e a mercadoria não se conseguem deslocar de forma rápida, também há consequências.

E não havendo ligações sérias a esse nível entre Espanha e Portugal, pronto… andamos todos muito mais devagar. Por isso é preciso investir nessas ligações, tanto pelo eixo atlântico como pelas capitais. São ambas importantes. Se ligarmos as capitais, isso tem um retorno relativamente rápido, mas é preciso sabermos o que estamos a ligar. Que indústrias? Que pessoas? Isso é muito importante.

Falando agora em termos culturais, o que consideras que nos une a Espanha?

A língua, por exemplo. Acho que não é assim tão diferente se compararmos o português com o castelhano e as outras variantes que existem na Península. É certo que há algumas expressões que achamos que percebemos, mas não percebemos. Mas, no geral, acho que nos entendemos bem.

E a gastronomia. Acho que existem algumas diferenças, mas também são poucas. Somos todos influenciados pela cozinha mediterrânica e também pela história comum com os países africanos.

E há algo que nos separe?

A forma como cada país encara a própria língua. Por exemplo, no caso das dobragens nos filmes e séries. Nós só o fazemos para filmes e séries de animação, no sentido de chegar ao público mais jovem, mas em Espanha é uma prática recorrente. Neste sentido, Espanha protege mais a sua língua. E isso ajuda-os também a criar outros acessos.

Outro exemplo que nos separa é a abordagem dos dois países em relação à chamada “taxa Netflix”. O governo português não queria taxar as plataformas de streaming, até que foi pressionado por pessoas do meio e pela oposição e chegou à conclusão que devia taxar em 1%. Pelo contrário, países como Espanha, mas também França ou Itália, optaram por taxas superiores a 4%, revertendo para um investimento real na indústria cinematográfica e audiovisual nacional.

O que podemos fazer então para superar estas diferenças?

No fundo, a minha resposta pode ser um resumo daquilo que estivemos a falar. Vimos que só havendo situações extremas, como é o caso da pandemia ou da guerra na Ucrânia, é que os governos português e espanhol decidiram criar sinergias para resolver a falta de bens essenciais como a energia. Mas, para mim, essa abordagem reativa não resolve. Se houvesse uma mentalidade de maior proximidade e de verdadeira união entre os países, de resolver os problemas antes de eles acontecerem, não verificaríamos esta extrema dependência que ainda temos de países terceiros.

No caso de países vizinhos como Portugal e Espanha, isso é ainda mais importante. É como viveres num condomínio e dares-te mal com os teus vizinhos. O ambiente vai ser hostil e isso nunca é benéfico para nenhuma das partes. Por isso devemos fortalecer as ligações entre vizinhos, porque a probabilidade de nos cruzarmos é grande.

Como é que isso se faz? Acho que devem ser os governos e as instituições públicas a darem o exemplo, como já acontece, por exemplo, com as coproduções audiovisuais entre as televisões estatais dos dois países. Tem de se criar uma matéria orgânica forte o suficiente para os privados verem que vale a pena investir nela.

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