Entrevista a Tiago Barbosa, o multifacetado artista e rei dos teatros musicais

Hoje entrevistamos o artista brasileiro Tiago Barbosa, multifacetado, ator e cantor com grande experiencia em teatro, especialmente em teatro musical

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Nascido no Rio de Janeiro, Tiago Barbosa foi preparador vocal e participou do programa de televisão Ídolos. No mesmo ano, foi escolhido pela criadora e diretora geral do musical, Julie Taymor, para protagonizar a versão brasileira do musical da Broadway O Rei Leão e dar vida ao icônico personagem Simba. Naquela ocasião foi considerado como o melhor intérprete de todas as produções já realizadas.

Fez parte do elenco da comédia da Broadway Mudança de Hábito, onde deu vida ao capanga TJ e explorou seu viés cómico. Em 2016 fez história ao ser o primeiro ator negro a interpretar um príncipe no musical de Cinderela, onde se dividiu entre dois papeis: Lord Pinklenton e Príncipe Topher.

Tal êxito só podia levá-lo a uma exitosa carreira internacional, a caminho da Espanha para reviver o personagem Simba do Rei Leão, agora no Teatro Lope de Vega em plena Gran Vía madrilenha, papel que desenvolveu com sucesso por cinco anos.

Morando na Espanha durante os últimos anos, atualmente dá vida a Lola, a poderosa drag queen da versão espanhola do reconhecido musical de Broadway Kinky Boots. Foi premiado no Brasil e internacionalmente, com vocês Tiago Barbosa:

Li que você veio do Vidigal, conte um pouco da sua história e começo de carreira?

Eu sou Tiago Barbosa do Nascimento da Silva, tenho um irmão de sangue, mas eu digo sempre que tenho outros quatro irmãos, fomos criados juntos em São João de Meriti na favela da Vila Ruth, filho de Jorge Brás da Silva e de Maria da Penha Barbosa da Silva. Eu considero a minha história como a de grande parte dos brasileiros, que é de muita luta, muito suor e de muita conquista também.

Como a música entrou na sua vida?

Meu pai era músico, cantor compositor, minha mãe cantarolava um pouco, mas meu pai era fundamente músico. Em casa sempre fomos ninados ao som de muita música, meus avós eram evangélicos, e por isso sempre estávamos na igreja e ali cantávamos. Meu avô cantava, minha avó cantava, todos meus irmãos são muito afinados e cantam. Então era praticamente impossível não viver ou não seguir esse caminho sabe? Era impossível!

Qual é a importância da arte na vida e desenvolvimento dos jovens, especialmente os mais vulneráveis?

Eu digo que a arte é um elemento de transformação, independente da classe, seja pobre, média ou mais elevada. A arte é um elemento de transformação da mente, a arte como elemento de transformação transformou a minha vida e me deu muita oportunidade.

Eu costumo dizer que a arte me salvou, porque se não fosse a arte tudo seria muito distinto na minha vida, não acredito que estaria aqui hoje se não fosse pela arte, provavelmente não teria conhecido as pessoas que eu conheci, eu não teria sido eu.

Assim como no poder da educação, acredito que a arte também tem o poder de quebrar algumas barreiras, trazer consciência, levar a reflexão, trazer, cura, amor. Eu acredito na arte como esse elemento de transformação.

Você foi o primeiro ator negro a representar um príncipe da Disney, o que isso significa nos tempos atuais, onde ainda existe tanto racismo?

Naquele momento era um marco fazer o príncipe Topher, como alternante, era algo muito novo ter um príncipe negro no Brasil, ainda sabendo que grande parte da população brasileira é de negros, mas ainda existe muito preconceito.

Naquela época, há 7 anos, e ainda hoje é difícil para a sociedade entender que estamos falando de contos e contos não tem cores, são contos, são fábulas.

Para mim, foi muito importante, também para toda uma geração que está por chegar e uma geração que viu naquela época poder pensar e dizer eu sou negro, eu sou gordinho, eu sou gordinha, eu posso ser um príncipe, uma princesa, um advogado um doutor.

Porque não? Quem disse que a cor da minha pele pode determinar o papel que eu tenho que fazer? O papel que eu posso fazer, sabe o papel social que eu exerço? Foi muito importante e ainda vejo a necessidade dessa inserção no mercado hoje em dia. É dizer, essa quebra desses paradigmas que ajuda a uma evolução social.

Depois do grande sucesso no papel de Simba do Rei Leão, agora vemos sua atuação como Lola em Kinky boots, como foram os preparativos para essa mudança tão significativa?

Foi uma troca, uma mudança muito brusca, o Simba é um leão, hétero, animal, másculo para uma lady que é a Lola, que é uma mulher empoderada, resistente, que sabe sobre si, é uma mulher determinada.

Foi um período de muito autoconhecimento, de muito estudo, de muita busca, de muita leitura, de ver muitas coisas para me alimentar dessa mulher. A Lola é uma drag queen mas eu a vejo como uma mulher trans, isso me leva para um outro lugar de pensamento, outro lugar de interpretação. Também a vejo como uma mulher trans até para poder dar visibilidade a essas mulheres, foi um processo muito lindo. Creio que um dos processos mais difíceis e mais saborosos da minha carreira.

Sobre a volta de Kinky boots, o que podemos esperar da volta da divertida Lola aos palcos?

Eu estou com muita vontade de voltar para esse espetáculo. A princípio, quando eu comecei a fazer e estudar para poder estrear esse trabalho estávamos saindo da pandemia. Eu dizia em todas as minhas entrevistas que eu estava como um fogo, e eu sigo como um fogo, muita vontade de devorar Madrid inteiro, com muita vontade de mostrar esse trabalho, muita vontade de me abrir.

São poucos trabalhos para negros aqui na Espanha temos o Rei Leão, temos Tina Turner, mas são poucos os lugares de oportunidade. Essa oportunidade eu abracei de uma maneira muito forte, esse protagonismo negro no cenário espanhol, para que seja algo marcante, algo bonito, emocionante e que eu possa desfrutar ao máximo possível, vai ser incrível!

Podemos dizer que você consolidou sua carreira internacional aqui, que conselhos daria para alguém que tem os mesmos sonhos que você e está começando?

Primeiro é acreditar nos seus próprios sonhos, porque que você não é a primeira pessoa a acreditar, ninguém vai acreditar. Por que o que mais vamos ter hoje em dia são pessoas para colocar areia no seu Castelo.

É lógico, é bom sonhar, mas, é bom construir esse sonho em uma base muito bem solidificada é dizer ter planos um plano A, um plano B e um plano C, porque essa carreira é muito instável. Um dia você está lá em cima, um dia lá em baixo, um dia todos te procuram, um dia ninguém te procura, um dia todos te aplaudem outro dia você passa pela rua e ninguém te reconhece.

Eu digo sempre, é primeiro estudar e acreditar, mas também mover os seus sonhos através de ações. Se você quer morar fora, comece a ver sobre esse país, a estudar, aprender uma nova língua, a pesquisar a oferta de trabalho.

Tentar desmitificar um pouco aquilo que, às vezes a gente pensa que morar fora significa ter muito dinheiro e às vezes não significa nada disso. Desmitificar coisas, mas ir em busca dos sonhos e com muita disciplina.

O Brasil é um país justo com os artistas?

Falar sobre ser um país justo, eu acho que nenhum país vai ser, tanto para a cultura como para a educação. Em alguns países para a educação será mais que no Brasil, mas para cultura eu acho que muita coisa que funciona bem aqui, e tem muita coisa que funciona bem lá.

Tem muitas coisas que é muito mais fácil trabalhar aqui, e por outro lado tem muitas coisas que estão mais avançadas lá, só que às vezes a gente tem, o brasileiro, tem o complexo do ninguém me quer, sabe o complexo do nada funciona aqui? E o mercado de teatro musical no Brasil está muito avançado, mais que em muitos outros países, muito bem organizado.

Você está mais ativo que nunca, quais são os novos projetos?

Uau, eu acho que respondo essa pergunta umas trinta vezes ao dia. É muito complicado, ser negro ainda é algo que que entra em perfil, ou seja, para um musical X você tem que ter o perfil para fazer o personagem e a gente começa a perceber que são pouquíssimas histórias ou pouquíssimos espetáculos que tem o protagonismo negro.

Se você senta em um teatro hoje aqui na Gran Vía, e olha para esse público, vai contar nos dedos quantas pessoas negras estão vendo esse espetáculo? Quantas pessoas negras tem acesso a esse tipo de cultura? Igualmente no Brasil vemos esse cenário, dentro dos teatros, mais pessoas brancas. Quero dizer com isso tem um déficit de acesso, por ser muito caro e por vários outros fatores.

Passamos também para o nível da preparação desse profissional, para poder fazer esse tipo de trabalho, você precisa dançar muito bem, ou seja, fazer aulas de balé ou alguma modalidade especifica da dança. Você precisa ser um bom ator, ou seja, tem que pagar um bom curso de teatro, um curso de artes cênicas, e você tem que ser um bom cantor ou seja tem que pagar uma boa aula de canto, o resultado dessa conta é muito caro.

Se você entra hoje num lugar periférico, um lugar para poder encontrar essas pessoas e dizer para a eles que, para começar a estudar teatro musical vai gastar no mínimo 800 reais, e coloca quanto vale o salário mínimo? Isso está fora de cogitação para muita gente, não é um lugar de fácil acesso. Hoje eu sei que eu sou um dos pioneiros, homens negros a trabalhar fora e ter uma carreira de êxito, assim como tiveram outros antes de mim, mas é muito difícil se manter nesse lugar.

Se eu disser esse próximo semestre eu tenho Kinky boots e não existe outro espetáculo com esse perfil do homem negro, então vamos esperar sabe? Mas é isso, não são todas as vagas que eu posso competir. Tem que ter um perfil específico, assim a resposta é estou esperando chegar um trabalho que eu possa fazer ou seja convidado.

 

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