Aos Portugueses (I)

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Eu vivo em Espanha há quase sete anos. Acho que posso dizer que já conheço melhor este país, a sua mentalidade, a realidade de viver aqui, e a coisas que antes ainda não via claramente. De uma maneira ou de outra, eu não esqueço de onde venho. Há coisas que tentei dizer antes e talvez não tenha sabido fazê-lo como deveria. Portanto, hoje vou dirigir esta mensagem, e as que se seguirão, especificamente ao povo português.

Alguns de nós gostam de pensar que somos um país que se orgulha profundamente de si próprio. Se isso é verdade, porque é que já vi tantas pessoas dizerem que têm vergonha de serem portugueses? Acho que a verdade é que somos um país com duas caras: uma orgulhosa, por vezes saudosista a um ponto que chega a parecer perigoso, e outra desiludida, por vezes arrogante quando encontra conforto no estrangeiro.

Quantos portugueses já saíram de Portugal e deixaram de ser portugueses? Esqueceram a língua? Esqueceram os aspetos positivos da juventude em Portugal? E quantos agora voltam a Portugal de vez em quando para exibir a riqueza acumulada no estrangeiro?

E quantos portugueses já se deixaram cair no extremismo ideológico? Esqueceram a violência do passado? Esqueceram a tortura e a fome e a guerra ultramarina? E quantos agora votam em potenciais déspotas?

O que eu quero dizer é que espero não ser interpretado como estando nem num extremo nem no outro.

Eu não escrevo com pseudónimos, nem apago as coisas que escrevi antes, porque não tenho nada a esconder. Já falei de iberismo. União Ibérica. Até federalismo. Porquê? Porque tenho vergonha das minhas origens? Porque deixei de amar o meu próprio país? Não. Nunca. Falei sempre dessas coisas por um motivo que muitos provavelmente não entenderam: para, como português, enfatizar que Portugal tem o direito de escolher o seu próprio destino.

Sabem o que é vir para Espanha e descobrir o iberismo? A princípio, assustou-me. Quis criticá-lo, insistir a pés juntos que não podia ser. Mas depois compreendi… que se Portugal e Espanha de alguma forma unissem forças, podiam ser mais competitivos à escala internacional, sobretudo no contexto da gigantesca iberofonia. A escala do meu pensamento é dos países grandes, poderosos, que mandam no mundo, e francamente gostava de deixar de ver a Península Ibérica tão à mercê dos caprichos externos. Gostava de nos ver impormos algum respeito.

Foi por isso que comecei a falar de outra maneira, favorável à integração entre Espanha e Portugal (cuidado, eu disse «entre», não «de / em»), porque esperava que assim os espanhóis que sonham com uma Península Ibérica unida pudessem compreender que tinham de ver Portugal como um país livre para decidir: ou seja, que se nos uníssemos e a união não fosse frutífera, poderíamos depois separar-nos pacificamente. Deixem-me enfatizar isto: pacificamente. Jamais admitiria uma união pela força, feita por pura ganância e avidez de poder, um regresso à antiga rivalidade entre Portugal e Castela. Por outro lado, acreditava que, aceitando eles essa condição, daí derivassem um maior respeito por Portugal e um maior desejo de conhecer o nosso país e dar valor à sua cultura, não simplesmente assimilá-la. Esperava que assim pudéssemos superar todo o eventual rancor que ainda possa existir entre nós.

Mesmo sendo eu favorável à máxima cooperação entre Espanha e Portugal e à eventual utopia da união, ao insistir que Portugal tem o direito a decidir o seu próprio destino, estou a dizer que Portugal é mais importante do que eu. Sempre foi e sempre será.

Podem não concordar comigo, mas nem traidores nem fascistas falam como eu falo.

 

João Pedro Baltazar Lázaro

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