El Cid: cinema e literatura

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Tenho pensado frequentemente nas afinidades, aliás, do conhecimento comum, existentes entre esses dois meios de comunicação e instrumentos de cultura: a arte literária e a arte cinematográfica. O cinema – através da imagem em movimento. A literatura – através da palavra escrita e do livro. Esta, com a sua milenar tradição. Aquele, mais moderno, praticamente um sinal da civilização nascida no século XX, hoje com suas ramificações na televisão, redes sociais e serviços de streaming. Estou, inclusive, elaborando um ensaio sobre o tema «Cinemania – virtude ou pecado?», em que me considero inveterado leitor e incurável cinemaníaco (para aproveitar o título de divertida comédia de Harold Lloyd).

Essa preocupação minha tem-me propiciado pesquisas e trabalhos, a meu ver úteis e interessantes, no sentido da aproximação entre as duas artes, e dos quais procuro dar notícia ao leitor.

Agora, por exemplo, a pretexto de falar sobre o filme «El Cid», dirigido por Anthony Mann e interpretado por Charlton Heston, produção de 1961, vou-me permitir uma incursão nas literaturas espanhola e francesa, em torno do lendário herói da Península Ibérica e do registro de suas façanhas na luta contra os invasores mouros.

UM WESTERN DO SÉCULO ONZE

Aos leitores que assistiram o filme, o que deve ter ficado na memória foram as movimentadas cenas de combate, as batalhas campais travadas contra os mouros, por Don Rodrigo Díaz de Vivar (ou Bivar), numa tentativa de promover a paz entre os membros da realeza e a unificação de uma Espanha dividida em vários reinos, e ao depois, comandar a resistência.

Isto se explica: o diretor Anthony Mann, mestre em filmes de faroeste, deu preferência ao aspecto épico, às cavalgadas e aos embates sangrentos, ao entrechoque de lanças, espadas, adagas e cimitarras, e nenhuma ênfase imprimiu ao lado romântico do enredo, tipo «Romeu-e-Julieta», configurado no dilema vivido por Cid e Ximena, assunto e tema de cantares medievais e de um drama de Pierre Corneille.

Rodrigo (El Cid) ama Ximena, sua prometida, mas para resgatar a honra do próprio pai (Dom Diogo), mata em duelo o futuro sogro, o Conde de Gormaz, Dom Gómez. E Ximena, que também ama Rodrigo, tanto quanto o admira por seus feitos heróicos, fica dividida entre o dever de vingar a morte do pai, perseguindo na justiça o homicida, e o desejo de unir-se a este, tanto por força de um pacto de casamento como, igualmente, pelos mandamentos do coração.

No filme, esse dilema – que também poderia ser o núcleo de uma história de faroeste – não mereceu qualquer destaque, na opinião de George Sadoul, em seu «Dicionário de Filmes».

EL CID, FIGURA HISTÓRICA

Ramón Menéndez Pidal, insigne polígrafo espanhol, em seu consagrado ensaio sobre «El Cid Campeador», acentua que o Cid é um herói épico de natureza singular. Enquanto que quase nada se sabe a respeito dos protagonistas das epopéias grega, germânica e francesa – como Aquiles, Siegfried, Roldão – a existência histórica de Rodrigo Díaz de Bivar nascido no ano de 1043, ao tempo do rei Fernando I, de Leon e Castela, ficou ricamente documentada através da História e da Poesia. O que ele foi e o que ele fez consta, com detalhes, na «História Roderici», no «Carmen Roderici», no poema do «Mio Cid» e no poema da «Conquista de Almería». O «Cantar de Mio Cid» é o único cantar de gesta espanhol conservado em sua totalidade. Foi escrito no ano 1140, cerca de cinquenta anos depois da morte de Rodrigo Díaz de Bivar, herói do poema. E a proximidade cronológica faz com que essa antiga obra literária tenha um real fundo histórico, ao mesmo tempo que sua geografia repousa sobre uma realidade, características próprias da epopéia castelhana em oposição à de outros países (Martin de Riquer, in «Antologia de la Literatura Española»). No texto do poema, o nome do herói aparece gravado assim «Roy Díaz, el Çid de Bivar Campeador».

A LENDA E A LITERATURA

Durante algum tempo, a lealdade de Rodrigo Díaz de Bivar foi, inclusive, posta em questão. Ele se rebelara, por mais de uma vez, contra o seu soberano. Despojado dos próprios bens, exilado, colocara sua bravura e seus homens a serviço do rei mouro de Saragoça: Moctadir. Mas depois empreendera a conquista do reino árabe de Valencia, tomara a cidade e nela se mantivera, durante cinco anos, isto é, até morrer. Foram seus adversários que lhe conferiram o título de «Senhor» (Cid, de Sidi, palavra árabe).

Formou-se então a lenda, à base de poemas que lhe enfeitaram a biografia. Já em 1601, o jesuíta Juan Mariano, em sua «História da Espanha», inventou uma versão imaginosa «Ximena se encantara com as virtudes de Rodrigo. Veio, então, Guillén de Castro, e, na comédia «Mocedades del Cid», forneceu a versão final: Ximena esteve enamorada de Rodrigo até o dia em que este lhe assassinara o pai…

«Eis que a história forneceu a Dom Guillén de Castro, o qual colocou esse famoso acontecimento no teatro, antes de mim» – disse Pierre Corneille (1606-1684), no prefácio ou «advertissement» com que apresentou ao público e à crítica da França sua obra «LE CID» – uma tragédia, ou melhor, uma tragicomédia que, levada ao palco em 1636, despertou, de imediato, acirradas polêmicas.

Investigados pelo Cardeal Richelieu, pipocaram blasfêmias ao autor da peça, em favor do qual logo acorreram outros escritores, provocando o fato uma longa disputa, conhecida como «a querela do Cid».

Paulo Rónai, prefaciando a edição brasileira da tradução brasileira da tradução feita por Jenny Klabin Segall, da peça em verso de Corneille (Edições de Ouro/Rio -1956), concluiu: «Os séculos deram inteira razão aos espectadores da época contra os escrivinhadores que, para agradar à mesquinharia do Cardeal Richelieu, grande estadista e minúsculo autor teatral, desencadearam contra o CID uma campanha venenosa, levando à Academia Francesa a publicar uma crítica, tão minuciosa quanto inconsistente, da obra que criou o teatro francês e ainda hoje conserva sua cintilação de mocidade triunfante.

A ESTRUTURA DO DRAMA

«LE CID», do francês Pierre Corneille, é uma obra teatral inteiramente escrita em versos, na sua maioria dodecassílabos – alexandrinos – rimados, paralelamente. A ação dramática distribui-se por cinco atos, divididos em cenas, que se passam, todas elas, na cidade de Sevilha, sede da Corte Real. Ao abrir-se o pano, Elvira, a aia de Ximena, diz-lhe que o pai desse Dom Gómez, e o pai de Rodrigo, Dom Diego, concordam sobre o casamento dos filhos, pondo fim a uma inimizade entre as duas famílias. A notícia é bem recebida, porque Ximena ama Rodrigo e, também, é por ele amada.

Acontece, porém, que logo após, Dom Diego e Dom Gómez se desentendem, a propósito de uma decisão do rei, em favor do primeiro, a qual provoca os ciúmes do segundo. Dom Gómez, impulsivo, dá uma bofetada em Dom Diego, que é mais idoso que ele. E Dom Diego pede ao filho, o jovem Rodrigo, que desagrave sua honra, diante de tão infamante injúria.

«-Vai, prova teu valor contra o arrogante. Reage // Lava-se em sangue, só, um tão cruento ultraje».

A princípio, Rodrigo hesita. «Ó Céu, que estranha é a pena. Em tal ofensa é meu o ultrajado, e o ofensor é o pai de Ximena. Devo vingar um pai e perder um amante…» Mas, fiel  ao código de honra dos cavaleiros espanhóis, desafia Dom Gomez para um duelo, e desse duelo resulta a morte do contendor. Ximena, por sua vez, sente-se no dever de vingar a morte do pai, e pede ao rei que faça justiça, punindo o homicida. A infanta, filha do rei, que em segredo também ama Rodrigo, tenta interceder em favor deste. «Tira-lhe o amor mas deixa-nos sua vida».

Ximena, apesar de estar apaixonada pelo noivo e reconhecer-lhe as virtudes de cavaleiro, mostra-se irredutível: «Meu pai estando morto, eu já não tenho escolha… Ainda que abrigueem mim do amor ardente febre,/ ainda que um rei o afague e que um povo o celebre,/ que estejam a servi-lo os mais valentes prestes,/ prostarei meus lauréis, debaixo de ciprestes». Rodrigo deve morrer.

O rei, contudo, resolve dar-lhe uma oportunidade: que morra honrosamente num duelo. A escolha do adversário recai sobre Dom Sancho, que também é apaixonado por Ximena. E ele aceita enfrentar Rodrigo. «Minha espada empregai contra o culpado audaz;/ empregai meu amor em vingar essa morte;/ será, sob ordem vossa, o meu braço mais forte». Mas Dom Sancho se engana. O vencedor do duelo será El Cid, que, generosamente, ainda lhe poupa a vida.

O rei anunciara que o prêmio seria a mão de Ximena, apesar do protesto desta: «Se Rodrigo vencer, na aceitação te deixa;/ basta de protestar contra um juízo amistoso/ qualquer dos dois que seja, há de ser teu esposo». A primeira notícia, porém, dava Dom Sancho como o vitorioso, e Ximena a recebera com resignação». Meu se satisfez, nada há já que temais/ um só golpe deixou minha glória a coberto/ minha alma em desespero e o meu amor liberto». O próprio rei se incumbira de retificar o erro: Ximena, sai do horror, Rodrigo não morreu/ Dom Sancho do ocorrido falsa imagem deu». Agora, na presença de toda corte, a infanta, filha do rei, procura confortar a jovem. «Ximena, enxuga o pranto e aceita, sem tristeza./ tão magno vencedor das mãos de tua princesa». El Cid, o vitorioso Dom Rodrigo, numa atitude muito nobre, dirige-se ao soberano dom Afonso e à bela Ximena:

«Não vim cobrar meu prêmio e ser do tento pago/Senhora, ainda uma vez, a cabeça eu vos trago./ e em meu fiel amor por fim me aterei/ à lei daquele que embate ou ao que deseja o rei/ Se, pelo fim de um pai, o feito é paga escassa/dizei-me o meio então por qual se satisfaça/ Combater mil e mil rivais é o que encerra?/ Levar trabalhos meus aos dois confins da terra?/ Forçar um campo a sós, por em fuga uma armada/ de míticos heróis, superar a nomeada?/ Se meu crime por tal se pode enfim lavar/ posso tudo empreender, e tudo termina/ mas se para abrandar tão rigoroso juízo/ a morte do culpado é o que for preciso/ contra mim não armeis, já outros nesse passo/ a vossos pés estou, me vingue o próprio braço… Não me exileis, também de todo, da lembrança.

E já que vos preserva o trespasse a glória/ em paga, de meu fim, guardando-me a memória/ uma outra vez pensai, para o meu reconforto/ Foi tão só por me amar, que Rodrigo foi morto.

E Ximena o perdoa. E casam-se. E diz a história que foram muito felizes.

Lembram-se de que, no cinema americano, Ximena se apresentou com a carinha sensual de Sophia Loren. Convenhamos: era forçoso que tudo acabasse com um «happy end».

Savio Soares

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