MUSA no Theatro Circo: música em espanhol e no feminino

A centenária sala de espetáculos em Braga encheu-se para os concertos de Silvana Estrada, Sílvia Pérez Cruz, Maria Arnal i Marcel Bagés e Maria José Llergo, entre outros artistas

Comparte el artículo:

Nos primeiros quatro dias deste mês de junho, os sons da música da atualidade (e feita por mulheres) ecoaram no Theatro Circo, em Braga. Neste ciclo de concertos MUSA, o espanhol foi predominante, com seis das sete músicas a cantarem na língua de Cervantes e apenas uma, a canadiana The Weather Station, a fazê-lo em inglês, logo no primeiro dia de atuações.

Nos restantes dias, foi então a vez de subirem a palco as artistas do país vizinho, mas também do México. Para o encerramento, no dia 4, estiveram Ángeles Toledano e Rocío Márquez, mas antes atuaram Silvana Estrada, Sílvia Pérez Cruz, Maria Arnal i Marcel Bagés e Maria José Llergo, concertos aos quais o EL TRAPEZIO foi assistir.

Estrada e Pérez Cruz: música para cuidar

Logo ao segundo dia de MUSA, deu para entender que a música em espanhol tem encontrado bastantes aficionados em território português. Uma fila enorme estendia-se bem para lá da sala bracarense, de pessoas que se reuniram para ver a já conhecida Sílvia Pérez Cruz e uma estreante em Portugal, a mexicana Silvana Estrada.

Para além do nome parecido, ambas se apresentaram em palco de uma mesma forma intimista. Sozinhas, projetaram-se apenas com a voz e outros instrumentos, levando o público consigo a lugares e emoções bastante particulares.

A abrir a noite, Silvana chegou um pouco “nervosa, mas feliz” e deu-nos a conhecer o seu primeiro álbum de longa-duração, Marchita, interpretando as canções com uma voz melodiosa e que elasticamente se esticava para todos os lados, bastante inspirada no folk do seu país (e, se quisermos, também com algumas influências do r&b e do jazz).

O seu cuatro venezuelano foi o instrumento que mais usou em toda a atuação, mas ainda presenteou o público com a “estreia mundial” de um tema recente que tocou ao piano. Outra das surpresas foi “Tristeza”, uma canção em que a jovem de 25 anos nos ensinou que, quando este sentimento aparece, não devemos deixar-nos ir com ele e apenas encaixá-lo naturalmente nas nossas vidas.

O serão musical seguiu depois com a catalã Sílvia Pérez Cruz que se mostrou sempre extrovertida, tecendo bastantes elogios a Portugal (e informando até que a irmã vive já “há muitos anos” em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, onde atuará com a sua banda no final do mês).

Entre as canções do seu último disco, Farsa (género imposible), Sílvia apostou também em apresentar canções novas, como “La Flor”, e as suas versões de “Asa Branca”, do brasileiro Luiz Gonzaga, e de “Estranha Forma de Vida”, fado popularizado por Amália Rodrigues.

Com uma expressão mais grave e séria a cantar, a cantora e compositora não desiludiu os fãs e até impressionou com a sua habilidade nas guitarras acústica e elétrica, apesar da sua atuação ter sido um corrupio. Talvez pela pressão de atuar sem a banda e de ter de improvisar ou mesmo pelo limite do tempo, como eventualmente confessou.

As duas cantoras acabariam juntas em palco no final do concerto para interpretarem, a cappella, “Tonada de Luna Llena”, do venezuelano Simón Diaz. Um encontro que não deixou ninguém indiferente e que deu ainda mais sentido à frase que Sílvia havia dito minutos antes: “é preciso cuidar da cultura para que ela cuide de nós”.

Arnal e Llergo: o novo flamenco está vivo e recomenda-se

No terceiro dia de concertos, as sonoridades eletrónicas invadiram o Theatro Circo. Tanto Maria Arnal i Marcel Bagés como María José Llergo vieram para mostrar que também se pode cantar o tradicional com uma roupagem do presente e que isso não o desvirtua.

No início da noite, Maria Arnal surgiu no meio do público, iluminada apenas por um foco branco, o que deixava antever a fragilidade (mas, ao mesmo tempo, o peso) das canções que seriam apresentadas. Em torno do mais recente álbum da dupla catalã, Clamor, cantado em espanhol e catalão, o concerto trouxe o melhor de um universo experimental e eletrónico aliado a um estilo pop e de um nuevo flamenco, que assentam que nem uma luva na voz de Arnal.

E por falar na voz da cantora – que também mostrou que sabia falar português (e bem) por ter vivido em Lisboa durante algum tempo – esta surpreendeu ainda pelo seu timbre doce e catártico que se diluía no instrumental mais cru e pesado dos sintetizadores e máquinas musicais, recorrendo, por vezes, à polifonia possibilitada pelos loops.

Um contraste que estava também patente no cenário do palco, em que um jogo de luzes brancas iluminava e mascarava, de forma psicadélica, o fundo negro. Algo quase cinematográfico que nos transportava para o ambiente de um clube noturno – até porque a música também nos fazia querer dançar como se não houvesse amanhã.

E se isso não chegasse, os músicos espanhóis ofereceram ainda ao público mensagens fortes. Antes de cantar “45 Cerebros y 1 Corazón”, canção que dá título ao seu primeiro álbum, Maria Arnal explicou-nos a história desses 45 cérebros e um coração, do tempo da ditadura franquista, que foram descobertos em bom estado de conservação numa vala comum, em Burgos. Uma música criada só com a notícia em mente e que só mais tarde, tal como nos confessou, viria a ser “fechada” quando atuaram nessa zona e puderam visitar o local da descoberta.

Depois desta viagem, partimos para outra, desta vez com a companhia da andaluza María José Llergo. Com o seu disco Sananción como pano de fundo, interpretado em formato trio, pudemos apreciar o encantamento de uma voz que, como pede o flamenco, tem corpo e força para dar e vender.

Um guitarrista virtuoso que fazia tremer a cada acorde, de um lado, e do outro um músico que, com os seus sintetizadores, “atirava” uns sons etéreos para a guitarra flamenca. Foi assim que Llergo se fez acompanhar e nos seduziu a cada música, deixando bem visível (ou melhor, audível) a qualidade do novo flamenco.

Em temas como “Nana del Mediterráneo”, deu-nos a conhecer também a sua consciência das injustiças sociais, já que escreveu a canção, como explicou, após mergulhar no mar Mediterrâneo e pensar nos milhares de migrantes que perderam as suas vidas naquelas águas (e como isso lhe dava a volta à barriga).

No final do concerto, ainda teve tempo de homenagear a sua ídola Lola Flores, com uma versão do tema “Ay pena, penita, pena”, que deixou o público em êxtase e lhe mereceu uma ovação de pé.

 

Créditos fotos: Paulo Nogueira / Theatro Circo.

Noticias Relacionadas

A hora da Liberdade

Agora que estamos a poucas horas (mais precisamente sete) do dia em que comemoramos os cinquenta anos da Revolução dos Cravos está na altura de