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Esta frase foi proferida pelo presidente da república, Marcelo Rebelo de Sousa, e acredito que ganhe um simbolismo ainda maior já que estamos no mês mais importante para os portugueses. Se foi a 25 de Abril que readquirimos a nossa liberdade, pode ser com um esforço colectivo de todos nós (e quando falo de todos devem ser mesmo todos e como tal idas a feira ou tentativas de férias pascais deveriam ser uma linha vermelha que ninguém devia passar) que este pesadelo acabe de uma vez por todas e possamos ver uma luz, por mais pequena e intermitente que seja, ao fundo deste túnel longo e comprido que se tornou o ano de 2020.

Foi há um mês que esta pandemia chegou a Portugal em força e logo após os primeiros casos houve, tal como no exército, um toque de recolher obrigatório. Jovens saíram das escolas; uma boa parte dos trabalhos fecharam ou tiveram que se adaptar a tempos novos e os idosos são aqueles que mais perigos correm e estou sem ter visitas desde o princípio de todo este caso que está a fazer com que a população lusitana (e não só) estejam a enfrentar desafios únicos, comparados a crise económica de 1929, ao pós II Guerra Mundial ou a nossa Revolução dos Cravos. Foi a lembrar esta situação, que Marcelo Rebelo de Sousa relembrou a luta que os nossos pais e avós tiveram para criarem um país democrático e respeitador do valor da vida humana, independentemente do estágio da mesma.

Esta “guerra” é bem diferente da última que vivemos como nação. Não falo sobre o valor ou não da mesma mas falo de rostos e de atitudes. Antes, pediam que os jovens agarrassem em armas e lutassem pelo seu país ou por um pedaço de terra, lá longe na quente África, a qual estávamos ligados pela história e pela língua mas poucos ou nenhuns conheciam antes de embarcarem nos paquetes que os levaram para a guerra.

Mas isso foi antes, noutros tempos. Agora, a nossa juventude (a minha juventude!) é requerida a ficar em casa e olhar pela janela. Seremos aquele fósforo que quebra a cadeia de contágios. Seremos a pressão necessária na mola que tanto falam. Só assim seremos capazes de controlar um pico mortal e transforma-lo antes num planalto.

Mas esta é a conversa dos especialistas. Aqueles que todos os dias, por volta das 12 horas (ou um pouco mais tarde. Depende) entram em directo nos quatro canais generalistas para apresentarem os números do dia anterior. Se antes esperávamos pelo almoço, agora esperamos para ver quantas foram as vítimas e rezamos para não chegar a mesma situação que vemos ser vivida mesmo aqui ao nosso lado, a sempre perto mas agora longínqua Espanha.

Muitos órgãos de comunicação social estrangeiros, de países tão diferentes como a França ou os Estados Unidos, olham para este rectângulo a beira-mar plantado para tentarem compreender a situação que estamos a viver. Qual o segredo? Acredito que nem António Costa sabe qual é a fórmula mágica para o sucesso. É viver um dia de cada vez e fazer aquilo que somos tão bons a fazer, desenrascanço. Nas últimas semanas estamos adaptar inúmeras indústrias às necessidades vigentes e já temos estilistas a produzirem batas e máscaras e cervejeiras ou produtoras de moscatel a produzirem gel desinfectante.

Tudo está a mudar e enquanto estamos fechados em casa, de onde apenas saímos para ir às compras (o que acredito que, com a máscara, assemelha-se muito a entrar numa mina a vários metros de profundidade), vamos pensando em quando e como este pesadelo vai acabar. Há uns dias, um conhecido jornalista do jornal Público, assinou uma crónica onde clamava por uma data para podermos voltar a uma normalidade que será tudo menos normal.

Esta declaração gerou alguma agitação mas eu tenho que lhe dar razão. Eu também quero uma data. Quero saber quando poderei voltar a ver e beijar os meus tios e a deslocar-me sem medos de controlos ou de correr o risco de ficar infectada com uma doença que tal como a Peste Negra ficará para a história de todos os cidadãos europeus. Os mesmos que chegaram hoje (para mim o hoje é 9 de Abril, data em que estou a escrever este artigo de opinião. Para vocês será muito provavelmente depois da Páscoa. Já agora, espero que a mesma tenha sido, dentro do possível, boa) a um acordo para um pacote de 540 mil milhões de euros. Foram vinte horas de reunião, orquestradas pelo nosso Cristiano Ronaldo das finanças, mas o fumo branco lá saiu. É um princípio mas muito mais vai ter que ser feito e a vários níveis. Só uma união de povos e de espíritos poderá fazer com que o nosso querido estilo de vida europeu prevaleça.

Vivo numa zona perto do mar e que têm grandes raízes na pesca. Pelo menos teve no passado, agora a grande força económica desta zona (como, para ser sincera, de todo o país) é o turismo. Aqui, os mais velhos costumam dizer “antes de partir para a fauna abastecemo-nos em terra”. Agora estamos em alto mar mas um dia haveremos de atracar num porto seguro. O pior é que não sabemos se esse porto será assim tão seguro e vários líderes, incluindo Mário Centeno, começam a falar do momento em que a situação de pandemia acabe. O que esperar? Certamente, uma recessão económica nunca antes vista e novos hábitos.

Mas até lá, até esse glorioso dia onde poderemos finalmente sair de casa e voltar às nossas vidas que agora estão em stand-by, é preciso continuar a lutar. Só que agora a luta não será apenas por Abril mas sim por todo um ano, por todos nós. Para que em Maio ou Junho (preferia que fosse já no próximo mês pois odiaria passar o meu aniversário trancada entre quatro paredes) possamos finalmente contabilizar todas as nossas baixas e planear um novo futuro.

Talvez dando um pequeno passo atrás para dar dois em frente dentro de pouco tempo. Deixar de apenas nos focarmos no turismo (que, como já todos sabemos, será uma das áreas mais afectadas) para expandirmos o nosso leque de ofertas para outras vertentes que fomos esquecendo ao longo dos tempos.

Este é um problema muito português, mas não só. O nosso velhinho continente e o seu apetite de consumo fez com que nos esquecemos de produzir bens que agora são como se fossem ouro mas que até há bem pouco tempo valiam bem pouco, como é o caso das máscaras e das zaragatoas (que há uns meses valiam 0,20€ e agora viram o seu valor subir para mais de 2€). Numa das várias entrevistas que está a dar, desta vez numa casa que tive o prazer de conhecer, a rádio Renascença, António Costa disse que tínhamos que nos voltar a habituar a produzir as coisas que comprávamos a China. O que concordo com ele. Não fazer um boicote de produtos, mas voltar a apostar nas nossas empresas pois só assim é que conseguiremos cuidar do bem-estar de um povo que está cada vez mais a habituar-se a sobreviver e a especializar-se em jargão médico e em análise de dados (com as curvas e gráficos todos que já vi, e se isto tivesse acontecido há cinco anos atrás não tinha tido tantos problemas a fazer uma certa cadeira na faculdade).

Pouco mais dá para fazer. As escolas não abriram mais este ano (apenas os dois últimos anos do Ensino Secundário vão realizar exames) e o resto do país vai continuar nesta onda em Abril para que em Maio possamos ver alguma luzinha.

 

Andreia Rodrigues é formada em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (ESCS) e é uma apaixonada por todas as formas de comunicação. Contar novas histórias e descobrir novas culturas é algo que move todos os dias.