Alentejo e Andaluzia, o futuro Silicon Valley da Europa?

A Plataforma Aeroespacial Andaluzia-Alentejo é uma iniciativa que pretende colocar esta zona raiana no mapa

Comparte el artículo:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

Em pleno deserto populacional e no polo sul da Europa, a região agrária portuguesa do Alentejo, que se destaca como destino turístico pelos seus vinhos e gastronomia, quer dar a mão à espanhola Andaluzia para se tornarem numa referência tecnológica da UE, o “Silicon Valley ibérico”.

A semente da ideia encontra-se na Plataforma Aeroespacial Andaluzia-Alentejo, uma iniciativa que pretende colocar esta zona transfronteiriça luso-espanhola no mapa, explica Hugo Valadas, gestor deste projeto impulsionado desde o Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo, localizado na cidade de Évora.

O subutilizado aeroporto de Beja (Alentejo), os incentivos fiscais, o apoio dos fundos europeus para estas regiões deprimidas, mão de obra qualificada e, sobretudo, a qualidade de vida que o território oferece são alguns dos atrativos com os quais pretendem chamar a atenção de novos investidores.

Esta iniciativa foi forjada pelo projeto AERIS (2017-2020), financiado com 1,57 milhões dos fundos Feder através do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP), para promover o setor aeronáutico no Alentejo e na Andaluzia. E depois dos “exitosos” resultados, explica Valadas, ambas regiões fronteiriças deram início à segunda fase do projeto com o programa ENDUPYMES, também financiado pelo POCTEP com 1,34 milhões de euros, que se vai estender até 2022 de modo a reunir esforços não só na aeronáutica como também no setores naval e automóvel.

No centro deste estão a empresa CEIIA, do Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo, e a brasileira DESAER, que chegaram a acordo para o desenvolvimento, comercialização e industrialização de um novo protótipo de avião, o ATL-100. “Trata-se de um avião pequeno, desenhado para viagens curtas, e o CEIIA contratou para o seu desenvolvimento 50 engenheiros aeronáuticos que vão operar desde a região do Alentejo”, explica Valadas.

ALENTEJO, UMA REGIÃO DE ALTOS VOOS

A uma hora e meia de carro de Lisboa e a outra hora e meia de Faro -a capital do Algarve, o principal destino turístico português- Beja alberga um aeroporto que, como diz Valadas, está “subutilizado” e não recebe voos. É um aeroporto atípico, os seus terminais estão vazios, o único veículo lá estacionado é um carro da polícia, não há ruído de aviões a aterrar e apenas se vêm um par de aviões no interior à espera de serem reparados.

O único operador neste aeroporto é a Air Fly, continua Valadas, uma empresa que desempenhou um papel importante no fornecimento de material médico para combater a pandemia de coronavírus em Portugal, especialmente durante a primeira vaga. Foi responsável por trazer material médico da China que foi descarregado no aeroporto de Beja e depois distribuído por todo o país.

“É um aeroporto logístico e de apoio para alguns voos ocasionais”, explica Valadas, que recorda que esta infraestrutura nasceu há décadas como uma base aérea que era utilizada por alemães. Agora, sem uso definido, o cluster aeronáutico luso-espanhol vê nesta infraestrutura um bom motor para a descolagem tecnológica na Andaluzia e no Alentejo.

“Daqui a vinte anos, a região do Alentejo não será apenas vinhos e gastronomia, haverá também um polo industrial para que olhem para nós de uma forma diferente”, prevê.

AIRBUS OLHA PARA O ALENTEJO

Entre os frutos do trabalho desenvolvido desde 2019 pela plataforma formada pela Andaluzia e Alentejo está o interesse despertado pelo aeroporto de Beja da Airbus, o maior grupo aeroespacial do mundo. Este cluster ibérico explica que o espaço aéreo está cada vez mais congestionado, especialmente na zona francesa de Toulouse, onde a Airbus desenvolve os seus testes de voo.

E neste sentido, o aeroporto de Beja “pode ser ideal”, uma vez que é uma zona sem voos, as suas condições meteorológicas são “privilegiadas” e, além disso, “pode-se voar nesta zona cerca de 300 dias por ano”, argumenta Hugo Valadas. Dada a dificuldade de encontrar corredores aéreos na Europa, o interior do Alentejo pode ser uma alternativa ideal.

Além disso, o pequeno aeroporto desta cidade portuguesa procura ganhar relevância com o desenvolvimento de uma fábrica de hidrogénio que se vai construir no porto de Sines (costa atlântica do Alentejo) com um investimento de 5.000 milhões de euros, uma vez que é considerado um ponto estratégico do corredor do sudoeste ibérico. “O aeroporto vai ganhar com isto” e também com a modernização das ligações ferroviárias que ligarão esta zona com a capital de Espanha, explica Valadas.

RELANÇAR O AERÓDROMO DE ÉVORA

A Universidade de Évora (Alentejo) está atualmente a formar mão de obra especializada para futuras empresas tecnológicas que se queiram assentar nesta zona do interior português, onde existe um aeródromo, agora paralisado, que formou nas últimas décadas pilotos de diferentes países europeus. “Este aeródromo de Évora, onde se formaram 10% dos pilotos portugueses, vai começar a funcionar a partir do próximo ano”, segundo avança a plataforma.

O objetivo é recuperar o seu estatuto de escola internacional, já que foram formados aqui diversos pilotos de países da Europa como Alemanha, Suécia ou Dinamarca, entre muitos outros.

SEIS PROJETOS I+D E QUATRO STARTUPS

Durante o trabalho conjunto entre o Alentejo e a Andaluzia desenvolvido desde 2019 surgiram quatro startups localizadas em Sevilha e 6 novos projetos relacionados com a indústria aeronáutica. Uma das empresas tecnológicas criadas é a Aerocad Aeropolis, destinada à formação, enquanto que a Edair Technologies trabalha em projetos de defesa e suporte de frotas de aeronaves.

A Airvant nasceu para revolucionar a otimização dos armazéns industriais com o uso de drones, enquanto a Vertical Engineering oferece soluções avançadas através da tecnologia dos mesmos aparelhos. Entre os projetos de inovação surgidos desta plataforma luso-espanhola estão ainda o AERIAL-CORE, que pretende consolidar a liderança europeia na robótica aérea mundial com drones e inteligência artificial, ou a Hyfliers, que irá desenvolver dois protótipos para o primeiro robô híbrido (aéreo e terrestre) do mundo.

O objetivo de toda esta sinergia luso-espanhola é claro, que a Andaluzia e Alentejo sejam uma referência europeia tecnológica e seja criado o “Silicon Valley ibérico”.

Noticias Relacionadas

Como chegámos a uma «Tempestade Perfeita»?

O que é uma «Tempestade Perfeita»? Normalmente quando utilizamos esta expressão estamos a descrever um fenómeno meteorológico que foi criado graças a confluência de vários

Deixe um comentário