Da relevância de uma futura “Academia Brasileña de la Lengua Española”

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                     “O Brasil, embora de origem principalmente portuguesa, é duplamente hispânico”

                                             Gilberto Freyre, 1975, em “O brasileiro entre os outros hispanos”

 

Acaba de entrar em pauta de votação, na Assembléia Legislativa do Estado brasileiro do Amazonas, o projeto de lei que torna o espanhol disciplina obrigatória em todas as escolas mantidas pelo governo estadual. A autora do projeto, a deputada Therezinha Ruiz, apresentou como justificativa para sua proposta “o fato de somente a língua inglesa ser de ensino obrigatório entre as línguas estrangeiras, não atende a realidade de um mundo cada vez mais globalizado, plurilinguístico e culturalmente complexo”. Além disso, observa a deputada, “o espanhol  é o segundo idioma de comunicação internacional mais falado no mundo”.

A ilustre parlamentar poderia também ter mencionado que o estado a que serve, o maior em extensão territorial na federação brasileira, limita-se com três nações hispanófonas: Peru, Colômbia e Venezuela.

Mas esses detalhes que aqui acrescento não importam muito. Nada mais são que um pano de fundo diante da trama que se desenrola diante dos olhos dos brasileiros: das vantagens crescentes que a língua espanhola (e de toda bagagem cultural que ela possa veicular) vem proporcionando ao gigante lusófono.

Poderíamos listar centenas de dados estatísticos sobre a diáspora brasileira no mundo hispânico, poderíamos também enumerar cifras de nove (ou mais) dígitos para explicar a vantajosa balança comercial do Brasil em transações com seus primos de língua espanhola. Prefiro, entretanto, insistir no que já venho fazendo em outros artigos: um estudo aprofundado sobre os laços culturais que estreitam os dois ramos da família ibérica, apresentando, ao final, uma ou duas sugestões para que essa intimidade se intensifique.

Falemos, inicialmente, do potencial que a arte (considerada em suas inúmeras manifestações) pode ter no fortalecimento dessa identidade em comum. Cito, a título de exemplo, o sucesso das séries espanholas, que tornaram-se fenômenos de popularidade no Brasil desde a chegada do streaming por aqui. Não faltam títulos para comprovar isso: La Casa de Papel, El Inocente, Vis a Vis, Elite e por aí vai.

O leitor brasileiro dirá, quiçá, que a mídia oriunda do mundo hispânico não é nenhuma recém-chegada a estas praias, e que as novelas mexicanas, argentinas e colombianas foram pioneiras no coração do brasileiro, antecipando-se a qualquer produção televisiva espanhola. A geração que viveu sua infância nas décadas de 80 e 90 certamente mencionará a obra do Chespirito (Roberto Gómez Bolaños) como referência-mor do seu imaginário lúdico, suplantando, muitas vezes, a influência dos seus congêneres americanos e japoneses.

Tudo isso é inegável. O brasileiro ama seus vizinhos (mesmo que a recíproca, esporadicamente, não se confirme) e consome vorazmente os produtos de suas indústrias culturais, numa escala infinitamente maior do que faz em relação à cultura das outras nações lusófonas.

A atitude tupiniquim frente ao mundo hispanófono, contudo, é ainda excessivamente passiva. O brasileiro já produz rock em inglês, literatura em inglês (escrita diretamente nessa língua), e nesses tempos ciberdigitais não é difícil encontrar humoristas, youtubers e influencers brasileiros produzindo conteúdo diretamente no idioma de Shakespeare (muitas vezes tropeçando em regras de gramática e sintaxe, além dos usuais atentados contra a pronúncia).

O leitor já deve estar desconfiado, nessa altura da exposição, que o brasileiro poderia explorar melhor as oportunidades oferecidas por um mercado consumidor mais próximo a nós, em termos culturais, que o do mundo falante do inglês. Não me resta outra escolha, caro interlocutor, que fazer das vossas palavras as minhas.

E acrescento desde já, que a criação de uma Academia Brasileira da Língua Espanhola poderia impulsionar esse fluxo, estimulando o bilinguismo dos escritores brasileiros e abrindo portas (até então cerradas) para um universo literário um pouco mais vasto que o lusófono (há, segundo o Instituto Cervantes, 572 milhões de hispanofonos em todo o mundo, contra 274 milhões de lusófonos – dados do sitio ethnologue.com).

“Mas o espanhol não é língua oficial no Brasil!” poderia alguém redarguir. Sem dúvida, mesmo nos tempos de Felipe II o espanhol não era sequer veículo de ensino em quaisquer das escolas das colônias portuguesas. Para o brasileiro, de modo específico, o castelhano sempre foi um idioma simultaneamente exótico, sensual, e o atalho mais prazeroso para aqueles que desejam alcançar o “título” de poliglota. Mas oficial no que hoje é território brasileiro, de fato, o espanhol só o foi a oeste de Tordesilhas (até 1750), em algumas partes do sul do Brasil (os Siete Pueblos de las Misiones), e no Acre – até 1903.

Saiba o leitor, todavia, que três instituições como a academia há pouco proposta já prosperam em outras nações onde o espanhol também é idioma minoritário. Convido-o, portanto, a acompanhar-me neste vôo panorâmico sobre as academias norte-americana, filipina e israelense da Língua Espanhola.

A primeira sobre a qual nos debruçaremos é a Academia Norte-Americana de la Lengua Española, fundada em 1973 em Nova Iorque, cidade que ainda abriga sua sede. Curioso é observar que a Academia Norte-Americana tem seu quartel general em uma parte tradicionalmente anglófona do país. Em termos estratégicos, porém, a escolha da “Grande Manzana” como reduto literário do espanhol faz um pouco de sentido – a presença, em sua vizinhança, de Wall Street e da infraestrutura principal da ONU, proporciona uma visibilidade à ANLE da qual essa academia talvez não usufruiria caso estivesse instalada em Porto Rico ou no Arizona.

A segunda academia de Língua Espanhola sobre a qual trataremos é a filipina.

Como é de conhecimento geral, o castelhano foi a língua do governo, da educação e do comércio nas Filipinas ao longo dos três séculos (333 anos) de domínio espanhol e continuou a servir como língua franca até a primeira metade do século XX.

Na terceira década de ocupação norte-americana, foi fundada em Manila a Academia Filipina da Língua Espanhola. Tendo sido a décima primeira academia de língua espanhola do mundo a ser fundada, seu estabelecimento refletia a posição proeminente do espanhol como língua nas Filipinas na época.

Infelizmente, a contaminação da cultura filipina pela anglolatria, nos anos seguintes, chegou a tal ponto que, em 1986, o poeta espanhol Dámaso Alonso pediu sem sucesso a dissolução da academia, citando Enrique Fernández Lumba, um membro da “Akademyang Pilipino ng Wikang Espanyol” que havia descartado a organização como uma «relíquia». De fato, refletia a desmoralização ontológica da ANFLE a escolha dos idiomas principais em que grande parte de suas reuniões eram conduzidas: o tagalo e o inglês.

Nem tudo, porém, são espinhos no roseiral hispânico da pátria de Rizal. Em dezembro de 2007, a então presidente Gloria Macapagal Arroyo assinou uma diretiva na Espanha determinando o ensino e aprendizagem da língua espanhola no sistema escolar filipino a partir de 2008. A subsecretária do Departamento de Educação, Vilma L. Labrador, distribuiu um memorando sobre a «Restauração da Língua Espanhola na Educação Filipina». Nele, o Departamento obriga as escolas secundárias a oferecer espanhol básico e avançado. Até o momento, contudo, essa medida não foi plenamente implementada.

Mais promissora do que a Academia Filipina, a meu ver, é sua equivalente israelense. Abro aqui um parêntese para que o leitor entenda o que está acontecendo em Israel, em termos de hispanidad. De acordo com o Escritório Central de Estatística do Governo de Israel, em 2020 cerca de 1,6% da população israelense tinha o castelhano como língua nativa. Além dos falantes de espanhol, segundo a Universidade de Bar-Ilan, Israel abriga ainda 250.000 falantes de ladino, um tipo de castelhano arcaizante escrito não no alfabeto latino, mas no hebraico.

E foi com a intenção de fortalecer os laços de Israel com o restante do mundo iberófono que, em 2018, um grupo de intelectuais trouxe à existência a Academia Nacional Judaico-Espanhola em Israel como correspondente da Real Academia Española. Enfatizo aqui, porém, o objetivo prioritário da ANL: proteger o idioma ladino da extinção. Embora vinculada à RAE, “Academia Nasionala del Ladino” patrocina e tutela um idioma aparentado ao castelhano, tão próximo deste quanto o falecido moçárabe e o moribundo chabacano filipino. Semelhante, mas – fique bem claro – reconhecido filologicamente como língua distinta e independente do espanhol da RAE.

Penso, porém, que no caso do Brasil, tornado lar (voluntária ou involuntariamente) de 300 mil bolivianos, 261 mil venezuelanos e quase 140 mil espanhóis – além de um número indeterminado de outros hispanohablantes – uma futura Academia Brasileña de la Lengua Española deveria (nos primeiros anos após sua fundação) apoiar e promover o estudo e o uso correto do espanhol europeu. A escolha de uma variedade latino-americana poderia gerar ciúmes entre nossos vizinhos e, consequentemente, causar desavenças indesejadas entre irmãos culturais e parceiros comerciais. A escolha pela variedade europeia – até o surgimento natural de um espanhol genuinamente brasileiro – proporcionaria uma neutralidade à qual nenhum hermano de Iberoamérica imporia qualquer obstáculo (afinal, foi na Espanha que o espanhol surgiu).

Pronto. Lançada está minha sugestão, e, considere-se, doravante, publicado meu manifesto. Cabe aos meus compatriotas, porém, abraçarem ou rejeitarem essa causa. Afinal, uma andorinha solitária não faz verão. E que venham outras Academias de Lengua Española: andorrana, belizenha, saharauí, etc…

 

Danilo Arantes

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