Quando a fé não tem fronteiras, mas tem memória

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Depois de um longo hiato sem escrever, decidi lavrar um texto que a intuição me pedia há muito tempo. Escrever não é algo que se deve fazer de ânimo leve; deve ser coerente e fiel ao que nosso espírito nos pede. Não sei escrever por escrever. Não sei ser apenas por ser.

Assim, neste artigo optei por falar de algo que ultrapassa conceitos e ideias; venho citar algo real, palpável. Adjetivos estes que tanto se pedem quando se escreve. Existe um certo receio que quando alguém escreve possa levantar demasiado os pés do chão. Para mim: os pés devem estar sempre no chão. E é por isso que hoje pretendo dar mérito a quem o tem e o merece. Quero apenas que as minhas palavras sejam meras condutoras de uma verdade e de um exemplo raiano.

É sabido que a questão da identidade me toca de forma particular. E as definições que o termo raia encerra em si, também. Como relacionamos o conceito identidade e raia? Com exemplos reais. É por isso que hoje apresento uma história que é trilhada todos os dias e que merece, mais que o nosso respeito, a nossa admiração. Hoje venho falar da Unidade Pastoral da Raia Seca. Não será um artigo religioso, respeitando os credos ou a falta deles, mas um artigo que pretende difundir um caso real do verdadeiro conceito de raia. Venho hoje escrever sobre quem realmente vive no terreno e sente na pele a raia e este nosso interior.

A Unidade Pastoral da Raia Seca é formada por 6 paróquias, dos concelhos de Chaves e Montalegre, que geograficamente se situam na raia; a raia é igualmente o espaço geográfico, de um e de outro lado da fronteira política, em que as populações partilham elementos históricos, linguísticos, culturais e económicos. E religiosos.

Esta unidade é representada pelo Pároco António Joaquim[1], pessoa ligada intrinsecamente a este território e aos raianos. Numa das conversas que travamos sobre o tema entendi que, à parte do seu serviço religioso, olha também para as populações com atenção e respeito pela sua realidade e história destas gentes, do seu passado e da sua memória. Das suas necessidades. Assume como sendo sua a missão de preservar as memórias destas gentes.

É justo que, dado o caso que cito, tenhamos sensibilidade para entender que a ligação fraternal entre portugueses e galegos existe. A todos os níveis. Inclusive na fé. Num contexto externo à pandemia, a visita às romarias é comum nos dois lados da fronteira: a celebração em honra de São Caetano, em Chaves, ou a Santa Ana, em Oímbra, são romarias mistas. Têm visitantes de ambos países. Outros exemplos de romarias raianas ou raiotas:  a festa da Senhora da Saúde em Vilar de Perdizes, as visitas ao Santuário dos Milagros perto de Verín e claramente, o afamado domingo de Lázaro também em Verín.

A fé também permite uma permeabilidade constante na fronteira. É um meio condutor. Assim como os fatores económicos e sociais. Citando as palavras do pároco “não será o tempo certo (esta pausa que a pandemia nos obriga a respeitar) para nos focarmos em objectivos mais alargados e sairmos bem mais fortes e conscientes do rico património cultural, religioso e sobretudo, imaterial nas nossas gentes?” Prossigo nas suas citações: “As festas das aldeias raianas não têm fronteira e há um partilhar de fé e de santos”.  E de vidas e experiências comuns.

Por concordar com estes argumentos é que decidi expor, através das minhas humildes letras, a voz de quem conhece a raia e as suas vivências como ninguém. E não só. Mostrar o trabalho que desempenha diariamente, não apenas religioso, mas a função de quem conhece a verdade e o conteúdo da vida na raia. De quem trilha os mesmos caminhos das pessoas que orienta todos os dias. Estas vozes deveriam ter mais voz! É de pessoas assim, que trabalham no terreno e que se renovam e se superam, que deveríamos recolher a experiência no momento de decidir traçar a vida destas gentes. Pretendo apenas dar mérito pelo esforço a quem se dedica à raia. Esta é a verdadeira intenção.

Decidi terminar, como tenho sempre a tendência de fazer, com uma citação que pode traduzir o que aqui pretendo demonstrar: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”. Estas palavras pertencem a José Saramago escritas nos Cadernos de Lanzarote em 1994.

Contrariamente ao que as maiorias pensam, todos temos o dever de preservar o que é nosso e não esperar por soluções institucionais ou burocráticas. Estas poderão de facto ser decisivas e importantes, mas não podemos transferir dessa forma a nossa responsabilidade enquanto sociedade. E por isso nasceu este texto. Todos podemos aportar algo.

Bem-haja ao Sr. Padre António Joaquim, ao seu trabalho e à sua disponibilidade para me elucidar. O mérito é seu. Bem-haja aqueles que todos os dias contribuem para a preservação da nossa memória. E da Raia. Da minha parte, enquanto puder, continuarei a escrever. Com os pés no chão. Sempre.

Nídia Ferreira da Cunha

 

[1] Biografia: António Joaquim Pinto Dias, Padre desde 21 Dezembro de 2003. Actualmente é pároco de Solveira, Santo André, Vilar de Perdizes, Meixide no concelho de Montalegre, Soutelinho da Raia e Ervededo, no concelho de Chaves. É Major Capelão dos Regimento de Infantaria 19, em Chaves, e do Regimento de Cavalaria 6, em Braga. Presidente do Centro Social e Paroquial de Vilar de Perdizes.

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