Uma gota no oceano

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Cada um de nós é uma simples gota num enorme oceano chamado humanidade. É verdade que sozinhos pouco conseguimos mas se algo o ano de 2020 nos ensinou, para o bem e para o mal, é que quando algo de mal acontece a um, todos os outros são afectados. Um vírus «nascido» no outro lado mundo, uma chuva mais forte ou uma visita que acaba mal. É verdade que as coisas começam a mudar, com o V Day já em prática no Reino Unido, mas antes das 12 badaladas e do desembarque das vacinas nas costas europeias, entrego-vos neste espaço algo que já começa a ser apanágio neste espaço. Começamos aqui mais um breve resumo da semana noticiosa em Portugal.

Qual é o valor da vida humana? Será que valemos todos o mesmo? Aqueles que me responderem que sim pensam bem mas na realidade são sonhadores. Utopicamente somos todos iguais, esta escrito nas constituições da maioria dos países e na Carta dos Direitos Humanos, mas a verdade é que este é um mundo cínico. A Covid-19 até pode ser democrática, já que ataca qualquer pessoa, mas são os famosos e os ricos que fazem manchete dos jornais e provocam a comoção geral. Se for eu ou você, querido leitor, não somos mais que um número, um pequeno rodapé no livro da vida. Devo dizer que já pensei neste tema inúmeras vezes e não sou a única, basta ver o boom de testamentos que foram feitos ou alterados neste ano.

Mas voltando ao valor vida humana. Em Março, num dia que seria igual a muitos outros, mas ficou moldado pelos primeiros casos de infeção no país, um cidadão ucraniano que estava no país de passagem foi morto por vários agentes do SEF a pancada. Ihor Homeniuk era o seu nome. Só que ao contrário do de George Floyd, o seu nome não foi gritado nas ruas. Foi notícia naqueles primeiros dias mas a verdade é que ninguém fez nada nos últimos 8 meses. Este homem, que deixou mulher e dois filhos pequenos, só queria dar uma vida melhor a sua família mas acabou morto por quem o deveria ajudar a voltar ao seu país de origem. O que o governo fez? Muito pouco, o que é uma mancha para a hospitalidade tão conhecida e elogiada dos portugueses. Uma vergonha nacional para um país que prepara-se para abraçar, já nas próximas semanas e durante o primeiro semestre de 2021 a presidência do bloco europeu.

Só nos últimos dias falou que iria pagar uma indenização a vítima mas acredito que ela, tal como a família de todos os enlutados (e o número de mortos este ano em Portugal disparou para números só vistos há 80 anos, no período da guerra), apenas queria ter o marido com ela para passar o Natal, data que para mim (podem chamar-me de Grinch, é habitual) é um embuste.

Como podemos acreditar na magia natalícia quando olhamos para o lado e vemos pessoas a sofrer? A fúria consumista e a ternura que só dura um mês devia ser estendida pelo ano inteiro. É que os sem-abrigos ou as pessoas que estão nos hospitais precisam da nossa ajuda constantemente e não só num dia do ano onde levamos os cantores do costume para cantarem as mesmas canções de há 20 anos.

Tudo vale pelas audiências, quer seja a fazer o Natal dos Hospitais ou a dar a notícia de uma jovem de 21 anos que morreu num despiste de carro, que alegadamente terá sido provocado por condições climatéricas adversas e um carro capotado e não sinalizado, em directo. Um espectáculo macabro mas que atrai o público e como é ensinado nas aulas de jornalismo, o sangue e o sexo vendem e vendem muito! Minha querida ERC, por onde andas tu?

Mas quem era esta jovem que «comoveu» o país? O que ela fez de marcante para merecer as condolências de, entre outros, Marcelo Rebelo de Sousa, o actual presidente que concorre para um segundo mandato. A jovem era de uma família de conhecidos cantores e ela própria estava a lançar-se no mundo da música. Nada contra mas volto a perguntar se esta é uma vida que vale mais que as outras devido ao seu sobrenome?

Não tenho provas, como é óbvio, mas acredito que o presidente tenha ligado para alguém da família para dar as suas condolências. Fez o mesmo quando uma conhecida apresentadora lançou o seu novo programa (que entretanto já acabou), quando Miguel Oliveira ganhou a prova de Moto GP no Algarve ou quando uma dupla de ciclistas, que fizeram uma excelente prova no Giro de Itália, voltou a casa. Todos aqueles que de alguma forma se distinguem levam uma palmadinha nas costas, já que os beijos e os abraços estão proibidos, mas e o cidadão comum? Não importa se somos filhos, primos ou irmãos de alguém importante e com conhecimentos. O que importa é que somos todos pessoas, seres humanos sapientes.

O nosso presidente deu afectos a todos estes nomes mas não deu a viúva do cidadão ucraniano que foi morto por três polícias do SEF. Será que é pela senhora ser ucraniana e ele ser o presidente de (e apenas) todos os portugueses ou será porque ela, o marido (e todos nós) somos simples gotas num mais vasto oceano? Até dá vontade de citar Fernando Pessoa, o criador das fake counts ainda antes da criação da internet quando ele pergunta «O mar salgado, quantas das tuas lágrimas são lágrimas de Portugal? (peço imensa desculpa aos pessoanos se me enganei nesta passagem mas a verdade é que nem todos os portugueses têm alma de poetas e o especialista de poesia na família Rodrigues não sou eu).

Para não acharem que este é um artigo demasiado sombrio (culpo o mau tempo que está lá fora. Chove já há tantos dias que já nem sei de que cor é o sol!), quero que o final deste texto tenha um pouquinho de Natal, exactamente a mesma época festiva que ainda nos parágrafos anteriores «critiquei». Com mais ou menos prendas (é que este ano o orçamento está mais apertado, já que todos perdemos rendimentos e não sabemos como os recuperar), acredito que todos vão comprar nem que seja uma lembrança para a família com quem vão passar a consoada ou o dia de Reis.

Em vez de recorrerem a grandes espaços comerciais, que estão repletos de gente (sempre estiveram mas se em outros anos era simplesmente chato, este ano é perigoso e pode levar a um Janeiro negro), vão às lojas do vosso bairro, às pequenas lojas. Acreditem que vão sair a ganhar. É que para além de não estarem em grandes aglomerações vão dar uma preciosa ajuda para que estes espaços se mantenham. Apenas na baixa lisboeta, local da cidade que ainda no início do ano fervilhava de gente e de vida, tem mais de 100 lojas fechadas e muitas outras poderão seguir o mesmo fim, sem verem a chegada do dia 5 de Janeiro (data do início da vacinação).

Caso não nos voltemos a «ver» antes do Natal, desejo a todos os nossos leitores o melhor Natal possível junto dos que amam.

Andreia Rodrigues

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