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“É altura de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada por contestá-los, pode dizer-se que merecemos o que temos”. A frase, pronunciada por José Saramago, resume, dez anos depois da sua morte, o modo de viver do Nobel português, que ligou a sua literatura ao seu compromisso como cidadão. Uma década depois do seu desaparecimento, as turbulências mundiais dão uma nova vigência ao seu legado, que previve numa obra imensa através da qual expunha as singularidades do mundo e abria a porta à sua mudança. Reconhecia que esse era o seu poder, à falta de conseguir mudar o mundo por si só.

“Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros”, afirmou em 1997 no âmbito de um dos seus múltiplos doutoramentos “honoris causa”. “Ensaio sobre a cegueira”, “Todos os nomes”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “A Caverna” ou “O Homem Duplicado” são alguns exemplos dessa visão do português, que abordava a escritura “como um artesão”, recorda a sua viúva, a jornalista espanhola Pilar del Río.

“Aproximava-se da escritura como, dizia ele, um artesão ao seu trabalhou ou um lavrador à terra: com dedicação, trabalhando a fundo, tentando fazer uma boa obra, sem ansiedade. O Saramago que conhecemos era um homem maduro, que tinha pensado e vivido muito e a quem as coisas da vida literária não o desconcertavam”, conta à Efe. As inquietudes de justiça e defesa do débil pareciam inevitáveis na biografia deste filho e neto de camponeses que veio ao mundo na aldeia de Azinhaga em 1922 e que viveu o regime salazarista do qual Portugal não saiu até 1974.

As suas afinidades políticas nunca limitaram as suas reflecções e, apesar de ter sido militante comunista durante boa parte da sua vida, criticou em ocasiões a esquerda com dureza: “Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda”, assinalou o escritor.

Também apelou ao debate em profundidade sobre o sistema democrático, ao estar convencido que o verdadeiro poder não reside nos governos mas sim nas multinacionais. “Falar de democracia é uma falácia”, dizia. O seu primeiro romance, “Terra do Pecado”, foi publicado em 1947, embora o seu nome só tenha começado a ser reconhecido mundialmente com o lançamento de “Memorial do Convento” (1982), com o qual criticava a exploração dos pobres às mãos dos ricos.

Começaram assim anos de aplauso internacional que se cortaram no seu próprio país com “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991), que humanizava Jesus Cristo, lhe outorgava uma história carnal com Maria Madalena e que conseguiu enfurecer o Vaticano. A obra chegou a ser vetada um ano depois para o Prémio Europeu de Literatura Aristeion pelo Governo português, então comandado pelo conservador Aníbal Cavaco Silva (PSD), por “atentar contra a moral cristã”.

Saramago respondeu ao ir viver para a ilha espanhola de Lanzarote, desde onde recebeu diversas chamadas de felicitação de Portugal seis anos mais tarde, quando conseguiu o Nobel da Literatura. “Pela sua capacidade para tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, a compaixão e a ironia”, argumentou a Academia Sueca.

Atualmente continua a ser o primeiro e único concedido a um autor de língua portuguesa, um feito que fez os seus compatriotas crescer “três centímetros” de orgulho, dizia o próprio Saramago, que faleceu na ilha espanhola aos 87 anos devido a um leucemia.  O seu desaparecimento vai ser recordado esta quinta-feira em Lisboa com a leitura do livro que estava a escrever quando morreu, uma história sobre as armas chamada “Alabradas”, publicada após a sua morte, onde aborda a ética da responsabilidade, assunto central na sua obra e, claro, na sua atividade como cidadão que nunca apresentou a demissão do seu papel.

Uma década depois da sua morte, obras como “Ensaio sobre a cegueira” parecem ter encaixado na perfeição no atual desassossego pandémico, embora Pilar del Río não considere que seja uma espécie de profecia cumprida. “José Saramago não era um profeta nem um iluminado, simplesmente via o mundo, observava, pensava. Foi por isso que conseguiu fazer o ‘Ensaio sobre a cegueira’, um mundo de pessoas que ao ver, não veem. Até que de repente a epidemia se torna tão forte que já não há outra solução do que lidar com ela”, expõe.