Mãos que ajudam, histórias que se cruzam

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A retirada de afegãos, feito que portugueses e espanhóis fizeram em conjunto, é apenas um pequeno (grande) feito que nos relembra que a entreajuda, o caminhar lado a lado, ajuda a criar um novo mundo. Um dos grupos de refugiados que chegou a Portugal é composto por antigas jogadoras da selecção feminina de futebol e as suas famílias. Um pedido já foi feito a FPF para poderem competir.

Uma nova sociedade está para nascer com a pós-pandemia. O pior é que ninguém sabe quando esta situação vai. Se na Europa já temos quase a totalidade da nossa população vacinada, no continente africano apenas são 3,6% a totalidade dos vacinados. A desigualdade é cada vez maior neste mundo que começa a aparecer agora que as notícias contra a Covid desaparecem. Os infectologistas aos poucos desaparecem e dão lugar aos especialistas em vulcões. Pode não ser um mundo melhor mas é um novo mundo onde diferentes histórias se cruzam.

António Guterres (socialista) e Marcelo Rebelo de Sousa (social democrata) são duas das maiores figuras portuguesas da actualidade que fizeram parte de um mesmo grupo religioso que se opôs contra o Estado Novo. Marcelo e Guterres (podemos também falar de Sampaio, um dos obreiros da independência de Timor) são duas histórias que a vida fez que se cruzassem mas muitas mais existem. Não importa se são governantes ou a pessoa que está a olhar para si do outro lado da rua. Os seus olhos contam uma história que pode ser diferente se lhe estender a sua mão. Já pensou como a sua história poderia ter sido diferente se tivesse (ou não) tomado uma decisão?

Falando em religião, no outro lado do Atlântico, uma das Pastorinhas de Fátima (Jacinta) serviu como inspiração para as venezuelanas Missionárias da ABC Prodein criarem uma linha de roupa feminina que usa o seu financiamento em projectos educativos para 2000 crianças e mulheres em situações vulneráveis. E, como todos sabemos, o país, que algumas décadas atrás foi o El Dourado dos portugueses, está a passar por um momento complicado. A época do «dá-me dois» já passou.

Na Venezuela a taxa de desemprego está em 54% (em Portugal é de 6,6%) e na confecção destas peças encontramos a modista portuguesa Assunção Maria Gonçalves de Ramos, que ajuda a formar novas costureiras que assim começam a escrever uma nova história num belo país mas cheio de dificuldades. Filas para tudo e para nada são banais. É verdade que aqui na Europa, e mesmo com a pandemia numa situação muito mais controlada (muito graças aos 75% de vacinados), as filas para o banco e a farmácia continuam. Veremos se a partir do dia 1 de Outubro, o nosso Dia da Libertação, esta situação mude um pouco.

Portugal cada vez mais se transforma num país das bichas (sinónimo de fila aqui para a malta do sul). É chato mas o produto está lá a nossa espera. Lá é diferente só que nem sempre foi assim. Há umas décadas os portugueses iam para este país da América latina procurando uma vida melhor para si e para a sua família. Este é o desejo que nos leva a apanhar um avião ou um barco lotado que atravessa o mediterrâneo em direcção ao El Dourado europeu. O país das «maravilhas» que só conheciam devido às histórias contadas pelos pais e avós. A busca por uma vida melhor faz com que se abandone as raízes mas estas acabam sempre por falar ao nosso coração.

A presença portuguesa na Venezuela remonta ao século XIX e no princípio eram comerciantes de vinhos, produtos frescos e cestaria. O comércio foi sempre, independentemente da latitude, uma das grandes paixões dos portugueses. Mais tarde, em 1935, os trabalhadores portugueses começaram a trabalhar na refinaria da ilha Curaçau, que chegou a ser portuguesa (o nome em português era Coração). Esta terra durante várias décadas atraiu madeirenses que se dedicavam ao comércio só que os fluxos mudam e agora é a vez (isto desde 2015) da Madeira e de Aveiro receberem de volta não só os luso descendentes como os venezuelanos que fugiram do governo de Maduro e da instabilidade ai existente.

Andar descansado pela rua é um dos nossos maiores tesouros, algo que quem chega de fora valoriza muito mais do que nós que aqui nascemos neste rectângulo junto do mar onde só nos preocupamos com dois irmãos refugiados (alegadamente pertencentes ao Estado Islâmico) que faziam pão para inúmeros políticos num restaurante. São 53.478 pessoas nascidas em Portugal que chamam de casa a Venezuela. O apoio dado, tanto na chegada ao país como no envio dos medicamentos que tanto faltam através das malas dos turistas que continuam a usar a TAP nesta ligação entre as duas nações atlânticas, é um pequeno grande gesto que não aproxima só duas bandeiras mas as suas populações.

Quando o chamamento é ajudar o outro, os portugueses vão para a fila da frente. Assim que se começou a falar sobre o acolhimento de refugiados, muitas instituições públicas e privadas disseram «presente». Você já «deu» a sua mão (devidamente desinfectada, como é óbvio) a alguém hoje?

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