Rega Molina, o excluído

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Sou entusiasta, como sempre tenho alardeado, da literatura hispanoamericana. Guardo confessadamente um apreço especial por alguns poetas argentinos, entre eles Lugones, Evaristo Carriego, Enrique Larreta, Alfonsina Storni, Baldomero Fernandez Moreno, Guiraldes e Jorge Luis Borges. E estranhei que um dos poetas nascidos na Argentina, que mais prezo, ande esquecido. É ele Rega Molina.

 

O POETA

Horácio Rega Molina nasceu na cidade de San Nicolás, provincia de Buenos Aires, em 10 de julho de 1899. Aos vinte anos publicou sua primeira obra “A hora encantada”. Desde então não parou de criar novos livros, desse poeta do qual se diz que “submeteu sua ternura de homem à mais rigorosa vigília espiritual”.

Aos vinte anos apareceram suas Vésperas do Bom Amor – que Leopoldo Lugones saudou entusiasticamente, exaltando-lhe os sonetos como uma das mais completas realizações da poesia castelhana.

Rega Molina, que foi também critico de alerta sensibilidade e pena independente, recebeu os mais altos galardões intelectuais da Argentina de seu tempo. A editora Espasa-Calpe editou-lhe, em 1954, uma “Antologia Poética”, que se inicia com sua célebre “Ode provincial” e contém poemas dos livros “O poema da chuva” (1922), “A árvore fragrante” (1923),  “Domingos desenhados de uma janela” (1928), “Azul do mapa” (1931), “Sonetos com sentença e poesia de arte menor” (1940), “Pátria do campo” (1946),  e “Sonetos de meu sangue” (1951). Desses poemas limitar-me-ei a algumas amostras.

Do “O Poema da chuva”, por exemplo, é o poema do “Pássaro morto”:

“Sob o frio invernoso da manhã,

entanguido o pulmão e o bico aberto,

jaz um pássaro inerte na janela.

E a gente vê, tão lirico e tão brando

que nem parece que esteja morto

senão que, louco, adormeceu cantando.”

 

OUTRAS AMOSTRAS

Curioso e original é esse poema curtíssimo de Rega Molina, em que ele retrata o “Meio-dia”:

“Banhado em luz, boceja o touro,

e com primor que o gesto míngua

treme-lhe o sol em plena língua

como uma pílula de ouro.”

 

Em outro poema sobre pássaros, ele simboliza a solidão de um bosque, através de seus habitantes:

“Canta um pássaro terno, sem que abarque

qualquer amor, por perto, em seus trinados,

porque as árvores frias desse parque

são tão corretas que nem ninhos têm.”

 

Ainda, a propósito de aves, este instantâneo de um bando de andorinhas:

“As andorinhas voam sob o céu

e fazem triunfar sob a campina

no alado triângulo do vôo,

a geometria da primavera.”

 

AGORA, OS SONETOS

Com seu estilo inconfundível, Horacio Rega Molina pode ser classificado entre os mais perfeitos sonetistas da literatura de língua espanhola.

Dos seus sonetos, intraduzíveis, na maioria dos casos, obras-primas do gênero, alguns merecem figurar, a título de exemplo, na forma original, nesta breve resenha ainda que por fragmentos. Vejamos:

 

CHUVA

“¿Por que la lluvia nos conmueve tanto,

si ella baja con ritmo paralelo,

hoy también como ayer, de un mismo cielo,

con um mismo dolor y un mismo canto?” …

 

AMOR SILENCIOSO

“Y esta pequeña lágrima que lloro

cada vez que la encuentro, hasta que expire

tambien se perdera por mi decoro,

 

Pues yo sabré tan rápido ocultarla

que ella no la verá, ni aunque me mire,

en el preciso instante de llorarla.”

 

FILOSOFIA

“… que en la esencia de todo lo que nace

muere  una realidad o la esperanza.

La rosa es una espina arrepentida.”

 

LÁPIDE

“Hoy quisiera llorar para hacia afuera

y salpicar de lagrimas la muerte”.

 

A INJUSTIÇA DO ESQUECIMENTO

Afirmei, no início, que estranho o esquecimento a que tem sido relegado o nome de Horacio Rega Molina, que sequer é mencionado nas historias de literatura argentina mais conhecidas. Da leitura de sua obra, que gostaria de conhecer na totalidade, estou convencido da injustiça, sobretudo numa época em que vão se tornando mais raras as vozes autenticamente líricas da literatura universal, como se os bons formassem uma espécie em extinção.

Lavro aqui o meu protesto, pedindo ao leitor que colabore comigo na tarefa de ressuscitar, inclusive ou principalmente no âmbito da literatura brasileira, essa multidão de inesquecíveis autores cuja obra literária dorme, abandonada, na desmemória das bibliotecas mal visitadas enquanto o reino das futilidades escandalosas se instala nas redes sociais e programas de TV.

 

CONCEITOS E DEFINIÇÕES

Da jornada de muitas leituras, anotei em meus cadernos alguns preceitos de arte literária, para eventual citação:

 1) – “O grande escritor, o grande artista, é aquele que não vê o universo com os olhos acostumados; ele recria o universo, rejuvenesce-o. A arte não é imitação, mas interpretação da natureza.” (Marcel Proust).

2) – “O que dá a medida de um artista é o seu sentimento da natureza, da paisagem. Um escritor será tanto mais artista quanto melhor saiba interpretar a emoção da paisagem. Para mim, a paisagem é o mais alto grau da arte literária.” (Azorín).

 3) – “Quando se diz que o poema deve estar nas palavras e através delas, o que se subentende é que o poema há de aproveitar ao máximo os valores simbólicos lógicos e musicais de cada palavra e de todas as palavras que o compõem.” (Geir Campos).

4) – “A forma que tomará sua obra, o poeta não a conhece antes de tê-la achado. Ele tateia à procura daquilo que não tem rosto. Sua arte é a de ser fiel ao desconhecido que ele desconstituirá.” (André Fernaud).

5) – “Desde o instante em que o escritor escreve, está na literatura; é-lhe necessário ser artesão, mas também esteta, buscador de palavras, buscador de imagens. Está comprometido. É a fatalidade. Ainda os casos célebres de holocausto literário não mudam em nada esta situação. Caberá exercer a literatura com o desígnio único de sacrificá-la? Até isto supõe que aquele que se sacrifica existe. É mister, portanto, crer, antes de tudo, na literatura, crer na vocação literária, fazê-la existir, e, por isso, ser literato até o fim.” (Blanchot).

6) – “O sentido poético tem muitos pontos em comum com o sentido místico… Representa o irrepresentável. Vê o invisível, sente o insensível. O poeta é, literalmente, insensato. É literalmente sujeito e objeto, ao mesmo tempo alma e universo. Donde o caráter infinito, eterno, de um bom poema. O sentido poético está estreitamente ligado ao sentido profético e ao religioso, a todas as formas de violência.” (Novalis).

7) – “Há duas retóricas: uma retórica má e outra boa. A retórica monstrenga e colorida, aquela que se nutre de recursos, empréstimos e reflexos, é reprovável. A retórica própria, aquela que cada escritor forja para si ou reinventa, é admirável. O risco da segunda é o maneirismo e a sua prova de existência, a invisibilidade do artifício.” (Guillermo de Torre).

 

Savio Soares de Sousa

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