“Sinais de Pausa”: o gesto bailado a partir do universo de Saramago

A peça dos coreógrafos São Castro e António M Cabrita regressou aos palcos e estreou-se em Águeda.

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Dois dias depois do fim das celebrações oficiais do centenário de José Saramago, os bailarinos e coreógrafos São Castro e António M Cabrita apresentaram, no Centro de Artes de Águeda, a sua mais recente criação. Sinais de Pausa, estreada há dois anos no Teatro Viriato, em Viseu, convoca o universo literário do Prémio Nobel português – e as várias dimensões e emoções que este sugere e desperta – através da dança.

“Uma grande viagem emocional e psicológica, antes de ser física, com as obras de Saramago.” É assim que os autores descrevem, ao EL TRAPEZIO, o seu processo de “construção com o corpo” dos textos e personagens da literatura saramaguiana. Tudo começou em 2020 com a leitura de obras como As intermitências da morte ou O homem duplicado, que São e António repartiram entre si, e que “ganharam força” com os sentimentos que foram despontando, isolados pelo contexto pandémico que todos vivíamos. “Foi muito duro, tudo parecia uma utopia que nos conduzia a uma realidade crua. O facto de estarmos a viver aquilo também nos trouxe uma inspiração exterior que acrescentou um peso ao que estávamos a ler.” 

Mas não deixam de reconhecer o “privilégio” de ter tido mais tempo para criar a obra, o que, necessariamente, resultou numa peça mais “saramaguiana”. Não só pelo tema, que exalta a condição humana, mas pelo tempo presente em tudo – incluindo o título. “Sinais de Pausa tem que ver com essa pontuação menos convencional do autor que nos obriga a ler como se estivéssemos a falar, com uma certa melodia”, embora tenha também um lado mais conceptual. “Na nossa coreografia, também colocamos uma pontuação. Foi engraçado pensar assim a estrutura da peça e conseguir cruzar os vários blocos, porque não há só uma narrativa – há muitas.”

Em palco, a peça abre com um dueto em silêncio, que os criadores apontam como uma “homenagem” geral às obras de Saramago. “Agarrámos em todos os títulos das obras e criámos uma frase a partir disso, que culmina em ‘todos os nomes’” – não o título da obra de 1997, mas “todos os nomes” dos livros do escritor. E a coreografia segue com o tributo a várias obras em particular, com momentos que enfatizam ideias, personagens e emoções. Desde A viagem do elefante, representada por um solo em que a bailarina se desloca de joelhos, marcando o passo com os punhos no chão, ao Ensaio sobre a lucidez, em que a luz branca (através de um painel móvel e dos holofotes) surge como metáfora da cegueira e elemento primordial da relação claro-escuro.

Um dos momentos mais marcantes da peça aparece como referência ao Ensaio sobre a cegueira, em que a cena de violação é recriada com recurso a movimentos repetitivos do corpo do bailarino entre os intervalos dos braços e pernas de São Castro. “Fizemos a cena sem ser explícita, mas não deixando de ser forte”. O que também se pode dizer do olhar intenso e do toque várias vezes evocado, representando as personagens Baltasar e Blimunda de Memorial do Convento.

Ainda é evidente na peça o apelo ao Saramago ibérico, presente em vários momentos principalmente inspirados pela leitura dos Cadernos de Lanzarote. “Nesta obra há muitas referências dessa vida [de Saramago] em Lanzarote e da paz que lá encontrava, junto da sua mulher”. Pilar del Río, atual presidente da Fundação dedicada ao escritor, é também retratada na coreografia como “uma mulher forte, de um peso muito grande, que carrega o homem e o seu legado”.

“Fazemos todas estas referências, mas o nosso objetivo nunca é colocar o espectador a decifrar. Através da linguagem da dança, comunicamos sem texto, mas conseguimos indicar intenções, transmitir sensações e, no fundo, criar uma poética através do movimento e do gesto”. Algo que também encontraram nas palavras de Saramago. “Ele era muito preciso a escrever, dava logo as emoções e as ideias certas, mas também era exigente com o leitor e deixava esse espaço à interpretação de cada um”.

“Nesse sentido, desafiamos o público a entrar com as suas próprias histórias e experiências, numa linguagem universal como é a dança. Aqui, a tradução é feita por quem vê”. O que faz com que a peça possa ser mostrada além-fronteiras. “Neste momento ainda não aconteceu, mas gostávamos muito que acontecesse. A tentativa faz-se.” E só nos resta esperar para que resulte. 

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