Abril somos todos nós!

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O sol voltou a brilhar lá fora, as máscaras caíram e os cravos vermelhos ganharam uma nova cor. O vermelho volta a assumir as tonalidades de esperança. Uma nova porta está aberta. Estamos em Abril, o mês da Revolução. Os 31 dias que mudaram as nossas vidas e que fizeram com que a noite eterna desse lugar a um novo dia. Celebramos os 48 anos do fim de uma ditadura que tornava o nosso mundo cinzento.

Agora já temos mais tempo de liberdade do que ditadura e várias gerações já nasceram num país totalmente diferente. Para os mais jovens o 25 de Abril não é um ganho material pois não o vivemos e por mais que existam vídeos deste dia não há nada como o viver. Abril e a Revolução são um ganho espiritual algo bem ao estilo de Fátima para os católicos. Uma nação onde temos liberdade para viver, para criticar.

Passamos a vida a criticar sobre a política, corrupção ou desigualdade (de género e raciais). Todos temos as nossas opiniões e, como também dizem no Brasil, «o cala a boca já morreu!». Falamos porque podemos. A censura, pelo menos a nível corporativo, já não existe. Se estivermos a falar da moral e dos bons costumes a coisa já é diferente. Os casos de acosso na Faculdade de Direito de Lisboa ou o fato de ainda não ser muito comum ver um casal gay a andar de mãos dadas pelas nossas ruas é apenas um pequeno exemplo. As maravilhas são muitas mas claramente não somos a «Alice no país das maravilhas». Somos abertos mas ainda não tanto.

Em algum momento houve o sonho de um país melhor. Na realidade queremos um mundo melhor mas isso está cada vez mais difícil. Todos esperamos que a atual guerra acabe o mais rapidamente possível. Esperemos que as visitas de Guterres a Moscovo e a Kiev possam mudar o atual curso das coisas. Também esperamos que a pressão económica que volta a apertar as nossas carteiras possa terminar. Algo que parecia uma utopia tornou-se realidade. Foi a partir e é sempre a olhar para Grândola que festejamos a alegria de viver em democracia.

Grândola é uma espécie de segundo hino nacional que está no sangue daqueles que gostam de viver em liberdade e foi cantado tanto no Parlamento como a janela num dos períodos mais conturbados da pandemia que (pelo menos de momento) está a desaparecer naquele mesmo nevoeiro que há séculos promete a volta de D.Sebastião. O tal rei que desapareceu nas areias do deserto.

Na nossa história já tivemos vários prometidos, vários salvadores. Homens que disseram «basta!». Este também é o momento de abandonar as machistas sociedades latinas em que vivemos. É o momento de escrever Abril e Liberdade em todas as línguas do mundo e também com rostos femininos. Precisamos de alguém que nos guie na direção de um futuro melhor. Um futuro em que seja possível olhar para as estrelas e pensar que a solidão não é a nossa única companhia.

Todos nós queremos o melhor e olhamos com esperança para o amanhã. Um novo dia, um novo futuro. Ainda estamos em 2022 (bela conjugação numérica) mas daqui a dois anos vivemos o meio século da «Revolução dos Cravos». O simples gesto de uma florista marcou-nos a todos e mostrou que as armas não trazem mudanças.

Pelo menos não duradouras. As flores não trazem só um belo perfume e uma nova vida. As flores são o símbolo da primavera e da esperança. É o nosso símbolo. A utopia acarinhada pelos anti-fascistas e tornada realidade pelos militares. Homens fartos de perder a vida em terras africanas. A nossa casa que já não era nossa mas não aceitavamos. O nosso coração bate em português e como tal não existe só um Portugal mas sim vários.

A lusofonia está presente em várias latitudes e o sonho de Abril não é único de um só país. A necessidade de mudança e esperança num amanhã melhor é necessária em qualquer lugar. Será que Abril cumpriu-se? A primeira resposta é sim, claro. Vivemos num país totalmente diferente e que na sua maioria mudou para melhor mas não é o ideal. Estamos adormecidos mas ainda é possível acordar e fazer realidade o sonho dos nossos avós e pais.

A taxa de alfabetização subiu e os cuidados de saúde (o SNS é visto como uma das grandes conquistas de Abril) são universais mas ainda há muitos de nós que não têm habitação digna. Um dos sonho de Costa é marcar os 50 anos do 25 de Abril com casas para todos mas este ideal, tal como o de acabar com os sem-abrigo, está cada vez mais difícil. Não é impossível e esperemos que o afamado PRR possa trazer o aguardado salto.

Nasci nos anos 90, num Portugal europeu e que vivia a euforia da construção, mas lembro-me que numa visita a casa onde nasceu a minha mãe não havia uma casa de banho. Este era um espaço a parte da casa mas em alguns locais costumava ser uma casota (tipo do cão) na rua. Algo que para todos nós é banal não havia. Não devemos dar nada como certo. Este não é caso único e quase trinta anos depois ainda há muitos problemas com o parque habitacional lusitano.

Há muitos problemas mas também há muitas respostas. Somos o sétimo país mais pobre da Europa e vamos sendo ultrapassados neste comboio pelas nações de leste. A porta de entrada no continente está cada vez mais na cauda. Temos uma democracia madura com 48 anos mas perdemos contra antigos membros da URSS. Os dois extremos do continente ligaram-me, mais uma vez, há poucos dias quando Zelensky discursou perante a Assembleia da República portuguesa e lembrou não só as nossas diferenças geográficas e a famosa «Revolução dos Cravos».

Por mais de uma vez estivemos na mesma situação que a Ucrânia está atualmente mas mesmo assim continuamos aqui. Com altos e baixos mas vamos vivendo neste pequeno rectângulo. Quo Vadis, Portugal? Mesmo com as nossas imperfeições, este mês é para celebrar e deixar a alegria e a esperança entrar nas nossas vidas. Que os dias negros fiquem para trás. Abril somos todos nós!

 

Andreia Rodrigues

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