Entre Oyarzabal e o Jabaquara: muito mais que uma bola rolando

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                                                                                 “Rubro amarelo, hás de vencer,

                                                                                 o Jabaquara jamais há de morrer

                                                                                  Rubro amarelo, sempre estarás

                                                                                 em nossa alma, em nosso coração”

                                                                                 “Púrpura y oro: bandera inmortal;

                                                                                  en tus colores, juntas, carne y alma están

                                                                                  Púrpura y oro: querer y lograr;

                                                                                 Tú eres, bandera, el signo del humano afán.”

                                                                                    Comparação entre o hino do Jabaquara FC e o da Espanha (letra de Eduardo Marquina)

Quando Oyarzabal marcou o gol de desempate, na manhã deste sábado, estava eu a poucos metros do Espanha. Não, caro leitor, não há qualquer equívoco tipográfico na minha declaração. Não pretendi referir-me ao país europeu, terra natal de tantos dos meus leitores, mas sim ao Estádio Espanha, em Santos, sede do Jabaquara Futebol Clube.

Estava eu imprimindo a minha passagem para voltar ao Rio de Janeiro (não confio em quase nada virtual, sou da época dos documentos impressos) quando o locutor esportivo anunciou o desempate. A TV, ligada no último volume, ocupava um canto discreto da lan house. Num primeiro momento, nenhum dos outros clientes da loja interrompeu o que fazia para olhar para a tela daquele obsoleto aparelho.

Alguns segundos depois, contudo, um senhor que acabara de adentrar o estabelecimento comentou, quase num solilóquio, que aquele sim havia sido um gol de verdade, e que o marcado por Douglas Luiz nada mais era que obra do azar espanhol. O gol de Oyarzabal, de fato, havia sido tecnicamente impecável. Bem como o de Douglas Luiz. Mas faltava-me tempo. E para não ter que discutir, fingi concordar com meu vetusto interlocutor. Não pude evitar de notar, porém, que trajava um auri-rubro jersey do Jabaquara Futebol Clube, localmente conhecido como o “Leão” ou “Gigante da Caneleira”.

Aquele tinha sido (num intervalo de 24 horas) meu segundo contato com os vestígios da outrora numerosa e profícua diáspora espanhola no estado de São Paulo. Havia eu pernoitado, de sexta para sábado, na casa de um amigo na vizinha Mogi das Cruzes, cidade aprazível cuja rua principal, infelizmente, ainda se chama (pasmem!) Avenida Francisco Franco.

Enquanto esperava meu ônibus na rodoviária de Santos, decidi pesquisar na internet sobre os times brasileiros que surgiram a partir da imigração espanhola. Descobri dois: o Jabaquara e o Galicia Esporte Clube.

O Galicia, também chamado de Granadeiro, foi fundado por imigrantes galegos na cidade de Salvador (Bahia) em 1933. Seu brasão homenageia a bandeira galega, nas cores azul e branco, às quais se sobrepõe a cruz de Santiago (também lembrado no nome do estádio do clube, Parque Santiago). A partir de 2013, o Galicia passou a empregar um uniforme parecido com o do Jabaquara, nas cores vermelho e amarelo.

As semelhanças entre os dois times, desafortunadamente, se resumem ao aspecto cromático de seus símbolos. Enquanto o Galicia é um foguete em ascensão, tendo conquistado inclusive títulos em outras modalidades esportivas (tricampeão regional de rugby), o Jabuca é pouco mais do que uma sombra do seu próprio passado.

Tradição, realmente, é o que não falta ao Jabaquara (carinhosamente chamado Jabuca). E essa tradição começou quando um grupo de vendedores ambulantes, quase todos de nacionalidade espanhola, fizeram um abaixo-assinado na cidade de Santos, visando fundar uma agremiação que congregasse membros da comunidade espanhola. Era uma forma de matar as saudades da pátria.

A princípio, esse grupo se reunia com o nome de Alfonso XIII, no bairro do Jabaquara, para a prática do futebol. O nome, porém, de um monarca espanhol, não combinava com o regime republicano adotado no Brasil. O nome de um outro bairro, Nova Cintra, chegou a ser cogitado, pois a maioria residia no local; outros defendiam Jabaquara, que era onde estava localizado o campo de futebol. Foi quando um senhor negro, ex- escravo,  sugeriu o nome “Hespanha”, tendo em vista o grande número de espanhóis participantes. A idéia foi aceita.

O Jabaquara surgiu em um momento em que os imigrantes fundavam clubes de futebol em todo o país. Quase que simultaneamente, os portugueses lançavam a Associação Desportiva Portuguesa e os italianos criavam o Palestra Itália. Em Santos, os espanhóis decidiram repetir a façanha e fundaram o Hespanha Football Club (que viria futuramente a dar origem ao Jabaquara) no dia 15 de novembro de 1914. A primeira camiseta da equipe já possuía, nessa época, as cores vermelho e amarelo, marcas tradicionais da bandeira espanhola.

O clube teve que esperar dois anos para disputar uma partida oficial, mas em pouco tempo ganhou protagonismo no panorama nacional e participou da fundação da Federação de Futebol de São Paulo. Em 1917, a equipe aderiu à Liga de Futebol Santista. Mas o time levantou um trofeu pela primeira vez já no ano seguinte, quando ganhou a Taça Grande Café D’Oeste, uma façanha que se repetiria em 1919 e 1920. O futebol do Jabuca inflamava multidões e a torcida crescia ano após ano.

Na década de 1930, a equipe aterrissou em territorios estrangeiros para competir em torneios internacionais. O maior destaque veio já em 1930, quando o o Hespanha enfrenta seu primeiro adversário internacional com uma vitória de 3×2 contra a Seleção de Buenos Aires.

Ao fim daquela década, o clube atravessou um período turbulento com jejum de vitorias e uma dívida crescente. Os credores começaram a pressionar a diretoria para que vendesse as ações do clube para estancar a hemorragia nas finanças.

Durante a Segunda Guerra Mundial,  a equipe recebeu outras noticias desagradáveis. Desta vez, o governo brasileiro proibira o uso de nomes de países em clubes desportivos. Com isso, os diretores do Hespanha elegeram o nome substituto “Jabaquara AC”, em honra do bairro onde nascera a equipe. Em que pese ter mudado de nome tantas vezes, o Jabaquara revelou muitos jogadores destacados nessa primeira fase da sua existência, em que esteve sob a supervisão do técnico Arnaldo de Oliveira, Papa. O goleiro Gilmar foi do Jabuca para o Corinthians e na sequência para a seleção brasileira; Osvaldo da Silva, conhecido como Baltasar; Marcos, Feijó, Getúlio, Ramiro e Álvaro (do Santos); Célio (do Vasco da Gama,); e Melão, (para SPAL da Italia).

Imagino que, ao assistirem à partida do seu time contra o Barcelona da Capela, na última rodada do campeonato paulista, em dezembro do ano passado, os poucos torcedores aficionados do Jabuca devem ter sido empurrados a uma reflexão involuntária. Hespanha FC contra o Barça paulistano. Alfonso XIII contra o azul-grená da quarta divisão paulista. Para além dos nomes e da cor dos uniformes, que semelhança haveria entre os primos pobres de aquém-mar e suas matrizes peninsulares?

Eu mesmo me vi compelido a pensar sobre o tema. A presença de tantos brasileiros em clubes espanhóis, além da existência, por estas bandas, de alguns times que evocam uma outrora influente imigração hispânica, são fatores que pedem, com veemência, uma aproximação institucional maior entre investidores e equipes regionais de ambos os países.

Investimento dos times espanhóis em categorias de base no Brasil (facilitando a descoberta de jovens talentos). Abrir o capital de equipes brasileiras menores a empresários espanhóis (transformando associações moribundas em promissoras sociedades anônimas). Criação de um campeonato reunindo times do Mercosul e da Península Ibérica. Facilitar a divulgação de marcas (e dos produtos que as veiculam) de times daqui por lá e os de lá por cá, etc.

Suspiro de alívio. Minha tarefa, neste artigo, foi dissertar sobre um triângulo amoroso. Brasil, Espanha e o futebol. Não precisei admoestar a juventude sobre a importância da leitura, nem foi necessário lecionar aos veteranos a respeito das vantagens da inovação. De vez em quando é mister seguir a correnteza. E o oceano do futebol, assim como o próprio mar não-metafórico, influencia sobremaneira a cultura (e a linguagem coloquial) das duas nações, mantendo o fluxo de mão dupla de talentos e técnicas, por meio de correntezas que devem se intensificar, conforme se intensifique também o profissionalismo das equipes locais menores.

Creio, assim, que desta feita o leitor vislumbrará mais claramente os meus augúrios. Por óbvio, quando Brasil e Espanha entram em campo, não se vê marinheiro de primeira viagem.

 

Danilo Arantes

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