Está na hora de pedir perdão?

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México, Brasil e a Namíbia. Estas três nações tiveram em comum a presença de descobridores/conquistadores (palavras controversas já que nestes locais já habitavam os seus povos originários) europeus que para lá levaram a civilização e as nossas práticas ocidentais mas estas também são histórias escritas com lágrimas e sangue. Uma amargura que, ainda hoje em dia, deixa mossa entre os povos.

A vandalização do Padrão dos Descobrimentos ou a queima da estátua de Pedro Álvares Cabral, no Rio de Janeiro, e de tudo o que estes monumentos representam são motivo de divergência de opiniões mas a verdade é que é difícil apagar a nossa história mas podemos evoluir. A Alemanha apresentou formalmente ao estado da Namíbia o seu pedido de perdão pelo «genocídio» sobre as etnias herero e nama durante o período colonial no início do séc.XX (estas etnias também podem ser encontradas em Angola) e comprometeram-se a ajudar no desenvolvimento deste país africano.

Será que portugueses e espanhóis deveriam fazer o mesmo e pedir perdão por terem tido durante séculos o controlo do mundo nas suas «mãos»? Actualmente vivemos numa sociedade que segue padrões anglo-saxónicos e onde parecemos que queremos queimar com o nosso passado mas não seria melhor fazer as pazes com ele e evoluir. Não precisamos olhar para o outro como o nosso inimigo mas sim como o nosso irmão com o qual podemos aprender. Usemos o perdão cristão para construir um novo mundo, novos países.

No México, o presidente Andrés Manuel Lopez Obrador assinalou os 700 anos da fundação de Tenochtitlan (actual Cidade do México) e os 500 anos da conquista da mesma pelo espanhol Hernán Cortés (o explorador português João Rodrigues Cabrilho também participou nesta batalha) rebaptizando a mesma conquista espanhola como «resistência indígena». O governo mexicano deu o primeiro passo e pediu desculpa aos povos indígenas que foram perseguidos após a independência do país, há 200 anos. Há 23 anos, no mexicano estado de Chiapas, 45 indígenas morreram às mãos de um grupo de paramilitares. Os sobreviventes aceitaram o pedido de desculpas do governo mexicano mas pretendem colocar em tribunal os responsáveis, incluindo o ex presidente Ernesto Zedillo.

Para Lopez Obrador, que em outros momentos já havia exigido um pedido de desculpas público por parte do monarca e do governo espanhol, a evocação vai permitir o reforço do conceito de nação e retirar o peso do elitismo colonial que ainda existe no país. Só que o conceito de opressores e oprimidos sempre existiram, não são invenção ibérica. Todas as civilizações são assim, são complexas. A história não é escrita a preto e branco mas sim em tons de cinzento. Pedro Sánchez, a 22 de Julho, disse «não concordar» com a leitura que se pode fazer de um «bom» ou «mau» passado em conjunto.

O historiador brasileiro Laurentino Gomes, autor do livro «Escravidão», defendeu numa entrevista que Portugal deveria seguir o exemplo dado pelo antigo presidente brasileiro Luíz Inácio Lula da Silva e pedir perdão pela escravatura. Portugal e o Brasil são os dois maiores impérios escravistas do hemisfério ocidental na história moderna.

Para Laurentino Gomes, este pedido seria benéfico pois para além de ser libertador ajudaria na reconciliação com os outros povos. Mais maduros e sem construir mitos e ilusões sobre heróis e vilões, só assim poderemos olhar para o futuro. Este enfrentamento com o passado também pode ser feito através da arte e no MATT, até Setembro, será possível ver uma instalação de blocos que representa os navios negreiros que partiam cheios de território africano para aportar no Brasil meses depois. A dor da escravatura portuguesa, comparando com o Brasil ou os Estados Unidos, não é tão marcante mas a verdade é que séculos depois ainda é muito difícil ver políticos negros em Portugal.

Nas eleições autárquicas, mais precisamente na corrida a Câmara Municipal de Lisboa, temos duas candidatas mulheres que têm como ponto marcante o facto de serem oriundas de países africanos. É a miscigenação feita pelos portugueses mas isto não deveria ser um diferencial. Em França temos vários políticos de origem portuguesa e espanhola e não passamos a vida a fazer manchetes sobre este tema.

Para terminar este artigo, deixo-vos a responsabilidade de responderem a pergunta deixada no título deste artigo. Está na hora de pedir perdão pelos nossos actos do passado?

 

Andreia Rodrigues

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