Sopram ventos antigos num novo tempo

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O sol ainda brilha lá fora mas o tempo está estranho e não é só por causa das alterações climáticas que fustigam. Até há pouco mais de quinze dias a falta de chuva, a Covid-19 e a falta de oportunidades eram as nossas maiores preocupações. Elas continuam cá mas a palavra guerra voltou a encher os nossos jornais. Tal como aconteceu na invasão do Iraque, a catástrofe que está a acontecer a leste é vista em direto e agora é nos possível comentar sobre a mesma nas diferentes redes sociais. Depois dos treinadores e dos médicos de ecrã, agora somos todos guerreiros. Quem diria que todos temos um general dentro de nós?

Quando todos achávamos que um novo vento começava a soprar e que ia levar para longe o fantasma pandémico que esteve por cima das nossas cabeças nos últimos 2 anos. As máscaras podem voar para longe já em Abril caso não haja uma sexta vaga depois do Carnaval. Mas este e outros temas, como é o caso da recontagem de votos no círculo eleitoral europeu ou a «guerra» civil no PP (no espanhol pois o português está debaixo de sete palmos de terra), perderam importância. Os nossos problemas deixam de ser tão graves quando vemos pessoas a perder as suas vidas e as suas casas mesmo em frente de nós. De manhã a noite somos bombardeados mas pouco fazemos. Pode parecer pouco mas daí é preciso fazer o mundo!

Perdemos todos, mesmo aqueles que têm a sorte de estar longe. Não corremos o risco de acordar com o estrondo de uma bomba e quando ouvimos barulho na rua é pura e simplesmente isso, um som passageiro e inofensivo provocado pelos miúdos que brincam na escola aqui do lado. Saímos de casa e voltamos a abraçar os nossos familiares. Aos poucos o inverno escapa, tal como o tempo e os sonhos.

Estes são difíceis de apanhar. Alguém já conseguiu apanhar ar com as mãos? É um vazio. Não podemos continuar a ser simples cascas prostradas perante um mundo cada vez mais pesado. Cada vez vivemos o dia de hoje sem ilusões em relação ao amanhã. Muita coisa mudou, todos mudámos. Enquanto o resto do mundo continua a girar, parece que ficamos para trás. Somos uma realidade que não chegou ao sonho.

Neste novo mundo (quem disse que íamos ficar bem, lá em 2020, enganou-nos) muita coisa faz lembrar uma Europa que nenhum de nós conheceu. Quer dizer, provavelmente os nossos avós mas os restantes nasceram em países livres e democráticos. Aqui na península Ibérica vemos uma comoção generalizada com a recolha de bens, o apoio aqueles que chegam, bandeiras da Ucrânia a voarem (alguma coisa deve ser livre!) e os preços a subirem em flecha.

Segundo o governo português, os alimentos não vão escassear mas talvez este seja o momento de voltarmos a terra, de sujar as mãos. A criação não precisa apenas de ser artística ou intelectual. Estar com as mãos na terra e ver dali sair uma cenoura ou ervas aromáticas é uma inspiração que demonstra que não são só os grandes que têm poder. Todos somos capazes de mudar a nossa situação, basta que o vento esteja a nosso favor.

Começam a dizer que este vai ser o nosso contributo nesta guerra que ninguém quis e que não sabemos quando acaba. Uma das perguntas básicas do jornalismo é o «como». Ela começou com uns simples exercícios. O pior é o como vai acabar. É a página do livro de história que estamos a escrever em direto para os alunos do amanhã. Para quem dizia que esta era uma geração «Nutella» (como dizem os brasileiros para falarem sobre os moles), acho que em apenas dois anos presenciamos mais momentos únicos que nos últimos 30 anos de vida.

Espero que quando entre nesta nova década este pesadelo já tenha terminado e estejamos todos empenhados na reconstrução desta nossa casa comum. Vamos unir os nossos destinos e seguir em frente. Queremos uma vida que valha a pena ser vivida e que não cheire ao mofo do passado. Sempre quis ser jornalista, ver os maiores acontecimentos da humanidade com os meus próprios olhos.

Costumava dizer que gostaria de ser correspondente de guerra, uma Pedro Mourinho no feminino (não digo Francisco Penim pois não tenho tanta graça). Nunca poderia imaginar é que desde 2020 ia conseguir cumprir este «sonho». Que belo mundo novo! Pêro Vaz de Caminha relatou a descoberta do Brasil. Este e outros escritos vão fazer parte da nossa história. Nós somos as testemunhas da maior pandemia deste século e da crise de refugiados que está a fazer que o mundo se políticas de novo em dois lados.

Aqui, no ocidente, tudo/nada de novo. Estamos todos mergulhados num turbilhão de sentimentos, de notícias que deixam qualquer um impactados mas, tal como pede o presidente português, não podemos resumir a nossa vida a atual guerra. Há muita coisa lá fora. Temos que continuar a olhar para o futuro, para um novo tempo que pode demorar mais tempo a chegar.

A história é cíclica, já o disse várias vezes em outros artigos. Acreditávamos que depois da doença viriam os Loucos Anos 20 mas parece que saltamos diretamente para a guerra. Palavrão que não era usado na Europa desde os Balcãs. Todos queremos que isto acabe o mais rápido possível para que seja possível viver, novamente, todos juntos como irmãos. Que este novo tempo traga boas vibras.

 

Andreia Rodrigues

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