Um top 10 ibérico na Eurovisão – desta vez dos miúdos

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Há quase sete meses, escrevia aqui sobre a 65.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, realizado este ano em Itália, em que Portugal e Espanha conseguiram ficar juntos entre os 10 primeiros lugares, sem que praticamente ninguém conseguisse assegurar isso à partida. Ora, o inesperado voltou a acontecer na tarde deste domingo, desta vez na 20.ª edição da Eurovisão Júnior, na Arménia, onde os dois países ibéricos repetiram o top 10. Espanha conseguiu a melhor posição dos dois – um sólido 6.º lugar, com 137 pontos – enquanto Portugal alcançou o 8.º posto com 121 pontos, sendo este o primeiro top 10 alcançado conjuntamente por ambos.

O resultado, porém, é mais expressivo para os lusos do que para os espanhóis. Este 8.º lugar, conseguido por Nicolas Alves e a canção Anos 70, é o melhor resultado de sempre de Portugal no concurso. E segue-se a um outro resultado inédito alcançado no ano passado, em Paris – a 11.ª posição, com 101 pontos, pela atuação de Simão Oliveira com O rapaz – a pontuação mais alta atribuída ao país até então. Coincidência ou não, esta “maré de sorte” tem acontecido desde que a RTP passou a usar o programa The Voice Kids como formato de seleção para o festival juvenil.

Já a Espanha, no que toca à Eurovisão “dos pequenos”, foi-se habituando a resultados mais cimeiros. Das 8 participações que fez – mais uma do que Portugal – conseguiu um quarto lugar (2006), dois terceiros (2019 e 2020), dois segundos (2003 e 2005) e uma vitória em 2004, com o famoso tema Antes muerta que sencilla, cantado pela andaluza María Isabel, que teve direito a referência durante o intervalo entre as canções e o anúncio das votações. Em 2021 foi quando o país registou a sua pontuação mais baixa no concurso, um 15.º lugar entre 19 participantes – curiosamente com uma canção chamada Reír, interpretada por Levi Díaz.

Apesar de ambas as participações terem sido bastante elogiadas antes e durante o espetáculo, havia muito poucos dados que pudessem apontar para esta classificação ibérica. Antes da gala ao vivo, Carlos Higes, representante espanhol com o tema Señorita, mostrava-se bastante seguro da sua performance, cheia de cor e movimento, e dava cartas nas redes sociais a conversar com outros participantes e a ensinar os passos de dança que usou em palco. Já o candidato por Portugal surpreendia pela voz rouca e pelo estilo “rockeiro”, conquistando fãs de todo o mundo (incluindo muitos espanhóis) pelo seu bom inglês – afinal de contas, viveu com os pais, brasileiros, em Inglaterra até aos 10 anos.

Mas o mais interessante do universo eurovisivo é mesmo quando chega a hora de saber o resultado das votações – e desta vez não foi exceção. A tensão ibérica (mas amigável) voltou a estar ao rubro quando se descobriu que o júri espanhol deu 7 pontos ao vizinho e o júri português atribuiu apenas 2 pontos a Carlos Higes. Seria fácil acreditar que tenha sido a desforra pelo facto de, em maio, ter sido Portugal a dar mais pontos a Espanha na Eurovisão “dos crescidos”, mas isso seria um olhar demasiado conspirativo sobre algo que não tem assim tanta ciência. Gostos são gostos e ninguém leva a mal alguma picardia de vez em quando.

De um modo geral, vimos acontecer em Erevan, a capital arménia, um festival bastante tranquilo e sem grandes polémicas, apesar de o país continuar em guerra com o vizinho Azerbaijão (que, por isso, não esteve presente). Talvez a surpresa da tarde tenha sido mesmo a classificação da Ucrânia, apontada por alguns como uma provável vencedora depois do triunfo na Eurovisão “mãe” deste ano, mas tal não aconteceu e o país, a braços com a invasão russa, terminou imediatamente abaixo de Portugal, em 9.º lugar. Ponto positivo: a canção ucraniana protestou contra a guerra, com uma mensagem de dor transformada em esperança, que sensibilizou e captou a atenção de um público bastante alargado.

No final, e depois de já ter vencido o concurso em 2020, a França conquistou a segunda vitória com Oh Maman!, uma canção bem rock’n’roll ao estilo de Elvis Presley e interpretada por Lissandro. Assim sendo, e tal como acontece na outra Eurovisão, o vizinho ibérico deverá ser no próximo ano o anfitrião do festival, que já teve lugar em países tão diferentes como Dinamarca, Roménia, Chipre, Ucrânia, Malta, Geórgia, Bielorrússia ou Polónia.

Quanto a Portugal e a Espanha, resta esperar por mais sorte ainda na próxima edição, contando que, brevemente, um dos dois possa trazer o troféu do concurso para casa. Mesmo não sendo um festival tão relevante como a Eurovisão “dos adultos”, é sempre uma boa montra para a música cantada pelos mais pequenos e para a capacidade de organização de eventos das televisões públicas.

E vá, depois de uma eliminação conjunta do Mundial de futebol – ainda por cima pelo mesmo rival – até sabe bem uma novidade agradável como esta.

 

João Rodrigues e Sousa

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