Regina Guimarães está desde sempre ligada à cidade do Porto. Tem desenvolvido uma interessante vida cultural. Professora de francês, na Universidade do Porto, letrista para grupos musicais como «Três tristes tigres» e o grupo Clã.
Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1979.
Mas interessa-me muito essa infância portuense na casa de Teixeira de Pascoaes? Pode contar-nos um bocadito dessas recordações da casa de Gatão?
Passei várias vezes férias na Casa de Pascoaes em S. João de Gatão. Eu era uma criança tranquila e curiosa, acho que o João (sobrinho do poeta) gostava de me lá ter. A casa era admirável. Ao fundo do longo corredor em cujas paredes estava exposta uma admirável colecção de ex-votos, havia uma porta envidraçada que dava para os severos verdes do Marão. Do lado esquerdo dessa janela para a serra, havia os aposentos do poeta Teixeira de Pascoaes, deixados intactos desde a sua morte. Impressionavam-me as prateleiras com livros, muitos deles ligados por fio do Norte, os móveis desenhados pelo autor que ali morava e se retirava; surpreendiam-me os frascos com cinza dentro, a banheira de metal enterrada no soalho…
A cozinha de Pascoaes era parecida a uma catedral de granito, o roseiral perfumadíssimo, as fontes belas e muitas… Comia-se mal e pouco naquela casa, mas bebia-se uma limonada maravilhosa.
O João, tinha quatro filhos, criados como meninos ricos, totalmente desinteressados da alma do lugar, acho eu. Ele refugiava-se horas e horas e horas num atelier (que ocupava quase uma ala inteira) onde aprendia a pintar com o grande artista Manuel D’Assumpção (um homem genial e devorado pelo misticismo, que se suicidou em 1969, no dia da chegada do homem à lua).
O primeiro texto que escrevi (ditei-o à minha mãe com cinco anos de idade) incidia sobre a pintura abstracta do João de Vasconcellos, o aprendiz de feiticeiro que viria a tornar-se um extraordinário aguarelista; e dizia assim: Os quadros do João são como janelas abertas…
Por aquela casa passava muita gente interessante, apaixonante. Em redor da salamandra – o resto da casa era gélido –, além do Manuel D’Assumpção, conheci os surrealistas Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, a bailarina Elisa Worm, o escultor José Vieira, o pintor Justino Alves, etc.
Impossível resumir o muito que vi e vivi, com ou sem a presença dos meus pais, naquela casa-mundo.
Também dentro das múltiplas facetas da sua vida intelectual, foi também editora. Gostava que nos falasse dessa obra de Teixeira que editou, essa obra em que o autor fala de duas mulheres impressionantes nas letras desta Ibéria: Mariana Alcaforado e Teresa de Jesús.
Eu e o Saguenail temos sido, em geral, editores das nossas próprias obras; só excepcionalmente a Hélastre publica de obras «alheias». A publicação do inédito do Teixeira de Pascoaes foi confiada à Exclamação. O manuscrito oferecido pelo João de Vasconcellos ao meu pai (também ele poeta e fã do Pascoaes) dormiu longas décadas na nossa biblioteca; o texto discorre sobre o «génio» da Ibéria e elege Mariana Alcoforado e Teresa de Ávila como figuras de proa da Península. É um texto curto e inflamado. Belo. Foi editado na colecção ELEFANTES que dirijo na Exclamação (Nuno Gomes editor). Traduzi duas cartas e alguns poemas para Português para garantir a compreensão do conteúdo do texto do Pascoaes – gosto de livros para toda a gente, não especialmente para uma elite. O meu amigo Eduardo Brito posfaciou…
Estamos no ano das comemorações do 25 de Abril. Foram já os cinquenta anos da Revolução. A Regina era muito nova na altura mas hoje que é o que se lhe passa pela cabeça quando se fala em personagens como Humberto Delgado, Salgueiro Maia…
A minha relação com Humberto Delgado é de admiração, os opositores ao regime foram poucos… Nasci em 1957, não acompanhei a campanha dele. O Salgueiro Maia encarna o espírito de uma revolução feita por militares mas em que os militares não açambarcam o poder. Era um homem modesto e recto, duas qualidades poéticas a que a poesia é, frequente e infelizmente, indiferente.
O seu parceiro de vida e de trabalho Sergei Seguenail tem sido uma pessoa fulcral ao longo da sua vida. Em que medida tem contribuído ele para essa intensa vida intelectual.
Saguenail é o nome artístico do companheiro com quem partilho vida há 50 anos. O seu nome burocrático é Serge Abramovici.
O Saguenail é um cineasta que escreve e investiga as formas literárias e cinematográficas. Eu escrevo poesia e não só. Somos, como diz o título de um catálogo recentemente publicado pela Cinemateca Portuguesa sobre a nossa obra, «duas paralelas que por vezes se cruzam».
Além dos filmes Hélastre, juntos temos realizado projectos de intervenção em contextos carcerais, acções de formação na área do cinema e da escrita, programado e animado cineclubes em vários espaços, editado revistas de cinema e não só. De há quase duas décadas a esta parte, produzimos o evento anual intitulado Leitura Furiosa (encontro de escritores com grupos de pessoas zangadas com a leitura).
O Saguenail dirige um curso de crítica no Batalha Centro de Cinema. Eu dedico-me à escrita de argumentos para cinema (inclusive de animação), sobretudo, à tradução…
Agora na reforma tem saudades dos alunos, dos colegas da faculdade, da vida universitária? Ou antes pelo contrário faz parte desse grupo de professores que olham para o ensino com indiferença e acham que as mudanças sociais tornaram o ensino uma tarefa distante e impessoal que nada tem a ver com aquilo que já foi?
Tenho saudades de ver chegar todos os anos hordas de estudantes, gente muito nova e muito diversa. Tenho saudades de colegas, não muitos, alguns dos quais já faleceram. Da instituição não tenho saudades nenhumas. E, ao contrário do Saguenail, nunca senti particular vocação para a docência.
Para si que diria que é a poesia?
A poesia é uma forma de expressão que alia a dissonância ao silêncio, que combina a urgência do dizer com a pausa e a reflexividade.
A poesia é muito anterior à escrita. Talvez tenha nascido como canto. Ou como oração. Tudo isso ela transporta em si.
A poesia é escuta do presente e dos presentes. E do passado no presente. E dos outros adentrando-se em nós.
Conhece alguma poeta espanhola de que goste? E em português quais foram os seus referentes?
Rosalia de Castro certamente. Quase vizinha.
E do lado de cá da fronteira, falando só de mulheres: Luiza Neto Jorge, Agustina Bessa Luís, Maria Gabriela Llansol, Eduarda Dionísio, Margarida Vale de Gato.
(Não gosto de jogar a este jogo de escolhas. É redutor e, ao correr dos dias, as afinidades mudam em função dos ventos interiores).
Ainda faz sentido hoje, quer em Espanha quer em Portugal, a luta feminina?
Faz sentido a luta feminina e a afirmação feminista. Pelos direitos em todos os domínios, pelo alargamento da representação, contra a violência e o abuso. Contra o patriarcado, principal pilar dum sistema capitalista que se tem revelado cada vez mais destruidor.
Houve mulheres não muito longe de nós, e estou a pensar em Agripina, a esposa de António Ramos Rosa que não gozaram do luar que elas mereciam, não acha?
Acho. O António Ramos Rosa tinha, porventura, um ego demasiado grande para ouvir ecoar a poesia que tinha por perto…
Sendo uma mulher que trabalhou sempre entre duas línguas, francês e português, que lugar tem para si a língua portuguesa?
O português é a minha língua mãe e pai, irmã, irmão, ama, avó. A minha língua choro de nascer, grito de luto…
O francês é a minha língua amante. A minha língua “estrangeiramente” familiar. Não sei explicar melhor.
No Porto da ideia de uma cidade onde a poesia está muito viva, concorda?
Há muitos poetas no Porto. Há poesia no ar do tempo e poesia a contra-corrente.
Mas a cidade tem sido desfigurada por um violentíssimo processo de gentrificação e disneylandização. Em curso. Imparável. Desumanizante…
E gostava de acabar a perguntar a impressão que levou de Zamora, posso adiantar que a impressão que a Regina deixou nas pessoas que a ouviram foi de uma grande alegria por tê-la conhecido e conhecer a sua poesia.
Muito obrigada, Regina.
Zamora é uma cidade muito bela. Uma cidade onde fui recebida com verdadeira hospitalidade. Tentei escrever/descrever o que senti nas escassas horas que aí passei no poema VISITA que dediquei à Concha. Obrigada, Concha.