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A música também serve para unir portugueses e espanhóis e ainda mais quando trata-se dum projeto que promove os valores de cooperação e integração transfronteiriça. Este domingo, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, a Orquestra Sem Fronteiras (OSF) estreia-se na capital espanhola com o concerto “Atravessar fronteiras”, dedicado “as ligações que temos os dois países e aos compositores que atravessaram fronteiras para levar a sua música a outros lugares”, afirma ao TRAPÉZIO o maestro Martim Sousa Tavares, quem dirige a OSF e é o responsável do projeto. Um concerto que forma parte da programação da 18ª edição de Cultura Portugal.

A orquestra criada por este jovem músico (Lisboa, 1991), pretende dar saída profissional ao talento musical e combater a desertificação do interior. “Muitos jovens abandonam os seus estudos musicais com 18-19 anos e perdemos muito talento”, sublinha o maestro. Ele próprio emigrou e foi nos USA quando pensou na ideia da orquestra. Por outro lado, “no interior há menos oportunidades e com a orquestra queremos corrigir as assimetrias que existem e oferecer uma maior oferta cultural”, acrescenta. O projeto nasceu em Portugal em março de 2019, tem sede em Idanha – a -Nova e aspira a se converter em breve num projeto ibérico. “No interior muitas vezes estamos mais virados para Espanha do que para Lisboa e interessa-me muito essa proximidade”, indica o músico. Em tempos de pandemia, com uma orquestra mais pequena e uma difícil logística, não resulta fácil a colaboração mas “esperamos recuperar a ideia, quando passar o coronavirus, e colaborar mais com Espanha”.

A OSF não conta com um grupo de músicos residente. Quando há um concerto realizam uma convocatória e os professores dos conservatórios e escolas propõem aos alunos que tiveram um melhor desempenho. “Tocam através dos seus méritos académicos, são músicos diferentes”, afirma Sousa Tavares. A parte mais difícil pela logística são os ensaios. “Para os alunos não faltar às suas aulas aproveitamos os fins de semana”. Durante toda a duração do programa (ensaios e concertos) se oferece aos músicos transporte, refeições e alojamento. “São remunerados e para eles é muito importante receber dinheiro fruto do seu trabalho”  destaca o maestro. Sem esquecer que esta experiência oferece aos seus músicos a possibilidade de complementarem os estudos em ambiente profissional, integrando jovens provenientes de diversos locais e escolas em colaboração com o staff OSF e artistas convidados.

Esta será a primeira vez que a jovem orquestra (a média de idade dos músicos está nos 18-19 anos) atuará em Madrid, mas já é a quarta em Espanha. As vezes anteriores os concertos tiveram lugar na Extremadura. Para esta ocasião Martim Sousa Tavares escolheu obras de compositores que também atravessaram fronteiras para tocar. Como Domenico Scarlatti, o músico italiano instalado em Espanha que viajou até Lisboa e deu aulas à princesa Bárbara de Bragança quem mais tarde casou com o rei espanhol Fernando VI ou o italiano Luigi Boccherini fixou-se em Madrid. O programa inclui uma peça do compositor português António Fragoso, quem faleceu com só 21 anos, por causa da gripe espanhola, e estava chamado a ser um dos grandes compositores do século XX.