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Portugal é mais uma vez mais trend topic no Twitter em Espanha. Desta vez é por causa das críticas às declarações proferidas pela vice-presidente para a Transição Ecológica, Teresa Ribera, que disse, ao El País, que: “Portugal parou mais cedo. Isto veio de leste e como eles estão um pouco mais a oeste conseguiram parar um pouco mais cedo”. Para a direita isto não é justificativa, já que a Grécia não está no oeste e tem tido bons resultados.

No TRAPÉZIO temos estado a analisar e quantificar os factores do chamado “milagre português”, e tudo aponta que a chave de Portugal foi tomar decisões em uníssono, o que não aconteceu em Espanha. A fase de expansão epidemiológica prévia também contribuiu.

A tese de fundo da ministra pode conectar-se com as declarações que fez o seu homólogo português, Filipe Froes: “Não somos melhores que os italianos ou os espanhóis. Encontramo-nos em fases diferentes. Vamos ter semanas atrás da Itália e uma ou duas mais atrasados que a Espanha. É cedo para fazer uma evolução a Portugal”. Portanto, não se tratar de estar a oeste mas sim estar mais longe do foco de expansão da epidemia. A chave é estar mais a oeste, o enfoque mais a este, é dizer que a localização está mais longe do foco. A ministra tinha afirmado que “estão um pouco mais a oeste”.

Portugal tem como conexão internacional os portos marítimos (especialmente para mercadorias), a Raia e os aeroportos. A Raia, como fronteira terrestre de baixa densidade populacional funciona como um corta-fogos. E neste ponto há que recordar evidência terrestre que há entre Itália e Portugal e aqui está a Espanha.

Os aeroportos foram, em todos os países, um veículo de propagação do vírus. Aqui, o factor localização privilegiada em Portugal corresponde com o fluxo de viajantes aéreos com perfil contagiador, como podiam ser executivos estrangeiros que vieram a Portugal desde o norte de Itália ou turistas portugueses que estivessem de visita a Lombardia. Esta possível explicação também pode ser aplicável às regiões menos industrializadas de Espanha.

Tendo em conta as vantagens lógicas portuguesas, é possível uma crítica ou governo. É que Portugal tomou decisões ao mesmo tempo que o seu país vizinho a este (mais perto do foco), e Espanha poderia ter tomado medidas em uníssono com o seu vizinho a este (Itália). Haverá quem alegue, em defesa do governo espanhol, que a Itália foi o primeiro episódio na Europa e que o mesmo não é equiparável com o vizinho peninsular.

Não podemos esquecer o próprio viés retrospectivo. Lembre-se das palavras de Lorenzo Milá, correspondente da TVE em Itália, a 25 de Fevereiro: “Mas, rapaz, parece que a difusão do medo se estende mais que os dados”. Esta declaração foi aplaudida por hipocondríacos e economistas, tanto de esquerda quanto de direita.