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Como explicámos no artigo anterior, existia dentro do movimento iberista uma corrente que defende uma “federação ou confederação de povos ibéricos”, um projecto político que para além de estar indefinido também é de difícil explicação e tem muito pouco ou nenhum sentido prático. Para compreender basta imaginar a complexidade deste modelo, que é composto por um indeterminado número de estados ou nações que (salvo Portugal e Andorra) são inexistentes e cuja criação política iria exigir o desaparecimento de Espanha como uma nação e estado. Parece claro que antes dessa confederação deveriam ser constituídos esses novos estados ou nações. O que iria levar a um processo muito complicado e que iria começar pela delimitação das fronteiras, a base de qualquer soberania, pois sem soberania não há território próprio.

Faço esta elementar reflexão pois sei que existem sinceros defensores desse iberismo que idealiza a noção romântica de “povo” como o fundamento de um nação e do estado. Essa definição de povo leva-nos a pensar numa identidade diferenciada e exclusiva (linguística, racial, étnica e cultural) que hoje é impossível de encontrar ou delimitar numa população tão misturada geneticamente, culturalmente e historicamente como é a ibérica. A verdade é que a sociedade moderna, que é baseada no intercâmbio, nas relações e nas dependências levou a que houvesse uma diluição de qualquer uniformidade que supõe o fundamentar da existência de um povo. Se podemos usar a terminação povo com um sentido político, que neste caso é o conjunto dos seus cidadãos, e falar do povo espanhol e do povo português, expressões que encerram uma carga emocional positiva (e que nos leva a dizer, “povos irmãos”).

Deixo de lado, portanto, esses iberistas que, especialmente os do anarquismo, acreditam numa uma certa utopia fraterna e imaginam uma espécie de “era de ouro ibérica”, na qual, e como desejava Dom Quixote, não haveria “nem teu nem meu” e tudo era paz e harmonia entre os povos. Permanecemos com esses bons desejos, que sempre terão o meu respeito, porque sem dúvida a união ibérica deve se basear, não apenas na racionalidade e no interesse mútuo, mas nos bons sentimentos. Este é precisamente o oposto do propósito dos outros, que usam a reivindicação do iberismo para seguir o caminho da desintegração e da divisão. Aqui refiro-me a catalães, bascos e galegos, que frequentemente falam sobre iberismo.

Este é um iberismo “instrumental”, contra o qual quero alertar, especialmente, os cidadãos portugueses que na sua maioria são desconhecedores da natureza e do fim destes movimentos independentistas que estão a progredir em Espanha. De modo espontâneo, os portugueses, e relembrando um passado em que alcançaram a sua independência de Espanha, sentem simpatia por estes movimentos com os quais têm tendência para identificar-se. A propaganda independentista, que tem feito um grande esforço para ocultar o seu projecto antidemocrático, classista e supremacista, para apresenta-lo como um “direito a autodeterminação”, entrou em sectores “progressistas” de uma Europa maliciosa e também teve eco em Portugal. Deve-se  lembrar que os partidos de direita e xenofóbicos da Europa são os únicos que deram apoio aos separatistas catalães, logo deve-se suspeitar desse “progressismo”.

O projecto iberista não pode cair nesta armadilha. Os independentistas falam de um iberismo de conveniência em que eles, especialmente os da Catalunha e os do País Basco, exercem a sua hegemonia impondo, na prática, um domínio económico e político. Não aspirariam a sair de Espanha para se integrarem num projecto que irá eclipsar este predomínio. Nem a Catalunha ou o País Basco podem prescindir da ibérica, ou seja, do mercado peninsular, alargando-o até Portugal. Se entrarem no jogo, deve ter vantagens adicionais. A Catalunha já aspira estender seu domínio a Valência e às Ilhas Baleares.

Sei que fica muito difícil de explicar, principalmente a que não o viveu, todos os passos que processo separatista tem dado nos últimos 40 anos a minar a Constituição espanhola e a ordem democrática que possibilitou o desenvolvimento da Espanha moderna. É difícil para os bem-intencionados entender que os independentistas apresentam a Espanha como um estado opressor e franquista, simplesmente porque defende a sua integridade territorial, algo que é contemplado pelas constituições de todos os estados europeus, começando por Portugal, cuja Constituição é de 1976 afirma que “o Estado é unitário “e que o Presidente da República é o ” garante da independência nacional e a unidade do Estado“. Inclusive, exclui a possibilidade de que essa “independência e unidade nacional” seja uma questão de revisão constitucional.

Aos portugueses simpatizantes dos independentistas convidámo-los a que imaginem que existia um movimento parecido no seu país e que exigiria, por exemplo, a independência e autodeterminação do Algarve argumentando que Portugal seguia sendo um estado salazarista e opressor.

Ainda precisamos de explicar com mais detalhe pois precisamos que a opinião pública portuguesa entenda a nossa denúncia e rejeite estes movimentos separatistas de Espanha que têm objectivos que cuidam de forma radical com o projecto iberista. Deles trataremos no próximo e último artigo.

 

Santiago Trancón Pérez é filólogo, escritor, professor de língua e literatura e membro da Plataforma pela Federação Ibérica.