De 19 de setembro até ao último domingo, 6 de outubro, realizou-se mais uma Quinzena de Dança de Almada, um festival internacional com mais de três décadas de existência e que promove autorias e artistas de todo o mundo. Nesta 32.ª edição, o compromisso com a criação contemporânea espanhola tornou-se mais evidente por uma série de espetáculos apresentados no âmbito da Plataforma Coreográfica Internacional do festival e da Mostra Espanha 2024, incluindo 16 coreografias e uma residência artística que resultou noutras duas.
“Temos tido algum apoio da Embaixada de Espanha, o que tem sido muito útil para perceber o que se faz no país vizinho”, diz Ana Macara, codiretora artística do festival com Maria Franco. Uma parceria que não se esgota no evento e se manifesta por um genuíno interesse. “Temos assistido, nestes [mais de] 30 anos, a um crescendo muito grande da dança contemporânea espanhola, com cada vez mais criadores e trabalhos de muita qualidade”, lembra. E nada melhor do que “casar” a vontade de dar a conhecê-la com a bienal Mostra Espanha que, este ano, encaixou três eventos do festival.
O primeiro de todos foi na inauguração da edição, na noite de 19 de setembro, com o «Destaque Espanha» da Plataforma Coreográfica Internacional. Integrada no festival, esta é um “apelo universal”, nas palavras da corresponsável, “para companhias e coreógrafos que estejam interessados em apresentar os seus trabalhos” no festival. No espetáculo, subiram ao palco do Auditório Fernando Lopes-Graça as coreografias: Picnic on the moon, da companhia Júlia Godin i Alexa Moya; Nunca bailaré solo, da Iron Skulls Co., uma coreografia e performance de Diego Garrido; Hellouses y goodbyeses, da Wako Danza, uma coreografia de Eduardo Zúñiga; In-side, de Lucia Montes e Mado Dallery; e ainda Con vos y conmigo sea. Libro II’, com direção e coreografia de Manuela Barrero dlcAos.
Já mais próximo do final da edição, o segundo evento desta parceria aconteceu a 3 de outubro, com uma «Mostra de Videodança» focada no país vizinho. Um género menos conhecido da dança contemporânea que, explica Ana Macara, consiste em “videógrafos que colaboram com coreógrafos ou em coreógrafos que dominam a arte do vídeo” e a utilizam nas suas criações Desta vez, o Instituto Cervantes de Lisboa recebeu onze performances: Paroxismo, uma parceria ibérica entre Pedro Sena Nunes e Alicia Soto; Summertime sadness, da galega Myriam González; No bi ha trigo sin porguesas, de Violeta García; 6 hours of fire, criada por Julia Vargas com as intérpretes Linda Cordero e Caterina Politi; Tus extremos, uma coprodução entre Espanha, França e Chile de Arthur Bernard Bazin e Francisca Sáez Agurto; Women of the future?, uma criação franco-espanhola de Joana Millet e Clémence Olivier; Epoch, de José Osiek; Aquí, de Arnau Pérez; Reset, de Guido Sarli; Empty, uma coprodução entre Indonésia, Espanha e Portugal de Romário Patogian e Marta Fialho; e ainda Nunca bailaré solo, de Derek Pedros com Diego Garrido.
Na noite da passada sexta-feira, 4 de outubro, o Auditório Fernando Lopes-Graça acolheu novamente artistas de Espanha, desta vez com o espetáculo bipartido Alleo + Anöa. A proposta resultou de um projeto internacional de residências artísticas, Atopémonos bailando, promovido pelo Colectivo Glovo, da Galiza, que apresentou no festival a sua colaboração com a companhia, também espanhola, de Elvi Balboa. No espetáculo, “com acessórios que não se costumam utilizar na dança”, assiste-se no início a um dueto do primeiro coletivo – ibérico, organizado por Esther Latorre e Hugo Pereira – baseado na ideia de vigia. A segunda coreografia, de Elvi Balboa, “explora diferentes maneiras de se deslocar no palco e tem que ver com o modo como resistimos àquilo que nos é imposto, algo que a própria companhia também faz”, afirma a coorganizadora do festival.
Para além destas propostas, houve também presença espanhola numa mesa-redonda sobre Festivais de dança e o futuro da dança contemporânea, com a participação da bailarina e investigadora Federica Fasano, e no laboratório prático B>Lab Intensive facilitado pelo coreógrafo Sebastián García Ferro, diretor artístico do BIDE (Barcelona International Dance Exchange).
Para Ana Macara, esta relação com Espanha vale a pena pela aposta no talento. “No ano passado tivemos cerca de 80 propostas de Espanha e este ano tivemos 60, mas com uma qualidade cada vez maior.” Algo que se revela pela comunicação entre pares, mas que ainda falha na relação com o público. “Em Espanha percebemos que há muitas apresentações informais em jardins, monumentos e outros espaços públicos, o que aproxima a dança contemporânea do público, enquanto, em Portugal, isso é menos comum e mais difícil de acontecer”, lamenta.
Ainda assim, na falta de iniciativas bilaterais, salienta a colaboração entre os países ibéricos no âmbito de programas europeus. “Isso é muito importante, porque a partir daí podemos avançar com outros projetos”, garante. E, dessa forma, chamar a atenção para a dança contemporânea, “ainda pouco conhecida” mas com “muito valor” para dar. “Não é uma arte tão fácil [de consumir] como outras formas de arte”, admite Macara, “mas, quando se entra nela, é um mundo maravilhoso, com artistas que nos fazem entrar em mundos mágicos e que temos de apoiar.”
A Quinzena de Dança de Almada é um festival criado e organizado pela Companhia de Dança de Almada, desde 1992, dinamizando anualmente espetáculos, mas também workshops, encontros, ações de formação e partilha, exposições, performances digitais e videodança. A 32.ª edição do festival teve o apoio principal da Câmara Municipal de Almada e da Direção-Geral das Artes, integrando a bienal de divulgação da cultura espanhola Mostra Espanha 2024.