EL TRAPEZIO entrevista Clown Enano: “Costumo dizer que sou o perfeito ibérico”

O palhaço “portunhol”, conhecido em todo o mundo, vai estar presente, já no próximo dia 12, no festival Mindelact em Cabo Verde

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José Torres (Cádis, 1974) é quem está do outro lado quando vemos, numa qualquer rua do mundo, o palhaço Enano. Mas é enano (ou “anão”) só de nome, pela alcunha que a ele ficou gravada desde a infância. Porque, diante do público, agiganta-se pela arte que transpira e pela felicidade que contagia aos outros. 

Com os olhos postos “no aqui e no agora”, Enano faz da rua o seu “teatro da liberdade”. O lugar onde se sente mais livre para ser o que quiser. E onde o público, acredita, também se sente mais à vontade para trazer à flor da pele as suas emoções. Sejam elas quais forem, porque a sua filosofia de palhaço não é apenas fazer rir.

Um “portunhol” orgulhoso, da Andaluzia à Costa Alentejana, José é também um artista com uma notável consciência social – e um atleta incansável – que o EL TRAPEZIO quis conhecer. Nas vésperas de regressar a Cabo Verde e ao festival de teatro internacional Mindelact, que já o fazem feliz há 16 anos.

Como surgiu o Clown Enano?

Clown Enano surgiu por volta do ano 2000, como um palhaço mais profissional, mas onde eu comecei mesmo a fazer clown foi no Chapitô, a escola de circo de Lisboa, em 1997. Decidi usar o nome Enano – que, em espanhol, é “anão” – porque já na escola me chamavam assim, por ser o mais baixinho da turma. E deixei antes Clown, que é um nome internacional para palhaço.

Mas o Clown Enano não é uma personagem: sou eu. Quero deixar isto claro. Porque há muitas pessoas que acham que o meu trabalho é interpretar, mas não: sou eu mesmo. Abro-me através das emoções, da maneira como estou a cada dia. Sinto verdadeiramente as coisas. 

E a rua foi a minha escola para além do Chapitô, que me deu a consciência artística. A rua foi onde aprendi mais, da forma mais pura e dura. É por isso que lhe chamo o teatro da liberdade. Podes fazer tudo o que quiseres e só fica a ver o teu espetáculo quem quiser. Quem não quer, vai embora. Podes também começar à hora que quiseres e terminar quando quiseres. Só tens de respeitar o espaço onde te deixam trabalhar e saber aonde não podes ir. Porque, infelizmente, ainda existem muitas restrições para os artistas de rua. Antes de um espetáculo, tenho sempre de me informar se preciso de licenças ou não, porque tudo está burocratizado. “Burrocratizado” [risos].

Clown Enano é, portanto, o seu alter ego…

Sim. Quando me transformo e ponho o meu nariz vermelho, sinto que deixo de pensar. Tento sentir o momento, o aqui e o agora, e agir sem pensar na minha vida do dia a dia. Quando entro na minha energia clown, estou a lixar-me para o que as pessoas vão julgar, se vão gostar ou não. Simplesmente quero ser eu, livre. Quero divertir-me para divertir os outros, ou para emocionar.

Há pessoas que pensam que os palhaços têm a obrigação de só fazer rir e já vêm ter comigo para dizer: “Ó palhaço, faz-me rir”. Eu não simpatizo com isso e até fico sem vontade de o fazer, porque não é o que defendo. A minha filosofia é emocionar. E dentro das emoções que podem acontecer, aí sim, entra o riso. Mas há vezes em que eu também choro nos espetáculos e faço chorar. Também há pessoas que ficam assustadas, envergonhadas… embora o riso aconteça mais. Nos meus espetáculos, as pessoas fartam-se de rir. Pelo meu fracasso, pela minha vulnerabilidade, honestidade, ou simplesmente por vergonha.

E quando tenho de fazer um espetáculo num dia em que acordei maldisposto, estou triste, ou em que aconteceu algo no mundo que deixou uma energia triste nas pessoas? Simplesmente penso que tenho um contrato por cumprir e que tenho de trabalhar. Mas não escondo os sentimentos, não ponho uma máscara e finjo que estou contente. Partilho como me sinto no início ou no fim do espetáculo. Porque um palhaço, embora use a máscara mais pequena – visível – do mundo, que é o nariz vermelho, não deixa de ser transparente.

 

Considera-se um “palhaço ativista”. O que quer dizer com isso?

Sem dúvida. Sou ativista porque, sempre que acabo um espetáculo, dou um discurso sobre algo que sinto que devo dizer, procurando um mundo mais justo, equilibrado, solidário, e criticando aquilo com que discordo. Mas não afirmo nada. Apenas deixo dicas para que as pessoas tirem as suas próprias conclusões. Para que fiquem a pensar: “Francamente, não esperava que aquele palhaço, que eu achava que só me ia fazer rir, me fizesse questionar coisas da minha pessoa e do mundo”. 

Isto também acontece porque, antes de descobrir o mundo artístico, diplomei-me em Trabalho Social. E, quando descobri a potencialidade de ser palhaço, percebi que podia misturar o social com a arte. Que podia juntar o palhaço àquilo que sou e à minha forma de ver o louco mundo em que vivemos. 

Acho até que [o mundo] cada vez está pior, mas também acredito que há sempre luz e esperança. Algumas flores a nascer que não são artificiais…

E é também, nas suas palavras, um “orgulhoso portunhol”

Gosto muito de ser portunhol porque sinto que o sou [risos]. Faço 48 anos agora em novembro e, nestes 48 anos, vivi 24 em Espanha e 24 em Portugal. 

Portanto, sou o perfeito ibérico. Menos na fala. Nós os andaluzes – e os espanhóis – temos muita dificuldade em falar outras línguas: inglês, francês, português… Eu moro em Portugal há muito tempo e, ainda assim, qualquer português que me ouça percebe logo que eu não sou português. Muitos me dizem que sou argentino, chileno, da América Latina, e quando respondo que sou de Cádis, Espanha, dizem que não pareço espanhol.

Considero-me ibérico, sim, porque amo tanto Portugal como Espanha. Não sou nacionalista, não sou de bandeiras nem de fronteiras, mas gosto dos dois países. Embora o meu país de eleição para viver seja Portugal. Já percorri todos os continentes e onde melhor se vive – e se come – é em Portugal. E moro em Odemira, no Alentejo, num ambiente rural, que é onde me sinto em paz…

 

Por falar nisso, escolher Odemira para viver foi um acaso?

Não. Também já morei em Lisboa durante 4 ou 5 anos, quando estudava no Chapitô, e lá conheci a mãe do meu primeiro filho, que era então minha namorada. Ela é lisboeta e, na altura, disse-me que estava farta da cidade e que queria ir viver para o Alentejo. Eu respondi-lhe logo que não queria ir para o campo nem para a praia, que gostava muito da cidade e da vida urbana. Porque, na altura – falo do final dos anos 1990 – Lisboa era uma cidade ainda pura e mestiça, longe da cidade turística e fortemente explorada que é hoje. Então eu fiquei em Lisboa e ia visitá-la ao Alentejo aos fins de semana, mas, aos poucos, fui ganhando o gosto por aquele lugar.

Até que pus na balança a cidade e o campo e decidi que estava na altura de deixar a cidade. E lá, no campo, nasceu o nosso filho, que agora já tem 18 anos e vive em Lisboa. Eu continuei no Alentejo – entretanto separei-me – mas juntei-me com outra pessoa e agora tenho outro filho, de 3 anos. E moramos lá porque estamos felizes. 

Quando agora vou a Lisboa, ao segundo ou terceiro dia já estou a fugir [risos]. Agora só vou às cidades para trabalhar e prefiro o campo para viver, para ficar sossegado.

 

E tem trabalhado um pouco por todo o mundo, sem esquecer o espaço iberófono. Sente muita diferença entre estes países e os outros?

A qualquer lado onde vou, digo sempre que venho de Portugal. Embora, muitas vezes, também diga que sou de origem espanhola. Costumo dizer que sou o verdadeiro jamón ibérico: um bom presuntinho, mas em palhaço [risos]. Já estive em 47 países: no Brasil, no México, agora em janeiro vou a Cuba… Mas sempre que viajo, e apesar de ser um cidadão do mundo, deixo a minha identidade bem clara.

Agora, claro, há diferenças culturais entre o sítio de onde eu venho e os sítios onde vou. Sempre que vou a outro país, informo-me sempre da abertura social e das regras. Por exemplo, na Índia, não posso convidar uma mulher para ser voluntária no meu espetáculo. E eu peço a colaboração de muitos voluntários, mas lá, pedir isso a uma mulher é impossível.

Ainda assim, uma das coisas que eu gosto de fazer como palhaço é provocar. Jogar dentro dos limites. Na Singapura, por exemplo, atirar um papel ou uma chiclete ao chão dá cadeia. E, lá, comecei o meu espetáculo a atirar um papel de jornal ao chão, dentro do universo do clown. A brincar, mas a provocar, para ver a reação das pessoas.

 

E nunca teve problemas com isso?

Nunca. Faço sempre uma provocação mínima, dentro dos limites. Não continuo até as pessoas ficarem zangadas nem deixo o chão todo sujo. 

Mas há países onde já fui confrontado com denúncias. Acabo um espetáculo e o diretor do festival, no dia seguinte, diz-me que há uma denúncia contra mim na polícia. Isso aconteceu-me na Nova Zelândia, na Croácia, na Áustria… Mas depois são denúncias fúteis, que não vão para além disso. Vou à esquadra, digo que sou artista, peço desculpa e fica tudo bem.

No próximo dia 12 vai a Cabo Verde, ao festival Mindelact. Expectativas?

Sou suspeito para falar de Cabo Verde, porque já é a 17.ª vez que lá vou. Há 16 anos que vou ao Mindelact, até costumo dizer que é o meu festival favorito do mundo. É o único sítio onde vou trabalhar por amor à camisola, sem receber nada. Porque lá sinto-me em casa, muito confortável, e divirto-me muito com o povo cabo-verdiano, que é uma mistura de uma cultura europeia com outra africana. É um povo muito alegre e aberto, apesar dos problemas sociais e da humildade em que vivem. E, portanto, só espero poder continuar a amá-lo e que eles me amem a mim, sempre juntos e divertidos.

 

E, para além do trabalho, o trail running é uma das suas grandes paixões. Vê este desporto como uma forma de evasão ou até o ajuda a construir o seu clown?

São as duas coisas ao mesmo tempo. Eu corro como terapia e para me manter fit. Os meus espetáculos são muito físicos, mas eu quero chegar aos 70 ou 80 anos e continuar a fazê-los. Por isso, se tenho esse objetivo, tenho de me manter saudável, física e mentalmente. 

E com o trail running, seja pelas montanhas ou pelo campo, encontro isso. Respiro ar puro, tenho contacto com a natureza e consigo chegar a novos limites do cansaço. Faz-me pensar que, quando me sinto muito cansado, já quase morto, tenho de continuar. Nos próximos dias, vou tentar fazer 68 quilómetros. Isto diz-se muito rápido, mas as pernas a fazerem-no já não dizem o mesmo [risos]. A partir do quilómetro 40 ou 50, já não estou em mim. Entro numa espécie de outra dimensão, numa luta entre corpo e mente que se faz até à meta. 

Se lá chego ou não, isso é outra conversa. Espero lá chegar porque já estou a preparar isto há dez meses, mas, se não chegar, valerão a pena todos os treinos e todos os quilómetros. O palhaço lida muito bem com o fracasso. Somos profissionais do fracasso, mas o fracasso também é a maior das vitórias.

 

Então, daqui em diante, quais são os passos a dar?

Para já é não morrer num futuro próximo [risos]. Porque se há coisa que eu aprendi pela experiência é que o amanhã não existe. Ou melhor, existe, mas eu não quero que exista: prefiro o aqui e o agora. 

Mas, pronto, gostava de fazer um novo espetáculo sensibilizador da temática dos sem-abrigo. Porque agora vejo cada vez mais pessoas a viver na rua e fico sempre curioso sobre elas. Identifico-me muito com a pobreza. E também gostava de retomar o meu projeto da associação de doutores-palhaço [Remédios do Riso] que esteve parado com a pandemia e que agora quero voltar a fazer entrar nos hospitais.

 

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