EL TRAPEZIO entrevista Santiago Veloso, presidente na Galiza da associação «Ponte… nas Ondas!»

Com 27 anos de atividade, o projeto que explora a rádio e o som para fazer a ponte entre as duas margens do rio Minho pode vir a ser inscrito na UNESCO

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Para Santiago Veloso, 2022 é um ano “muito especial”. Não apenas por mais um aniversário da associação que representa, mas sobretudo pela decisão importante que pode mudar o projeto. Se tudo acontecer conforme os seus planos, o modelo do Ponte… nas Ondas!, que há um ano foi apresentado na UNESCO por Portugal e Espanha como candidato ao registo de Boas Práticas no Património Cultural Imaterial, fará parte dessa lista em dezembro.

Independentemente disso, reconhece, a própria candidatura já é o resultado de mais de duas décadas de trabalho da associação, que desde 1995 realiza atividades educativas e culturais na Galiza e no Norte de Portugal. Entre elas estão os workshops de rádio nas escolas ou as propostas musicais que realizam sobretudo para o público infantojuvenil, como é o caso do Meniños Cantores, que arranca já para a sua segunda edição. Projetos que, para o professor de 61 anos, simbolizam uma verdadeira cooperação transfronteiriça pelo património comum.

Porquê «Ponte… nas Ondas!»?

O nome é o que explica melhor, já que o projeto nasceu de uma forma casual com a inauguração de uma ponte entre Salvaterra do Miño e Monção. Esse dia foi muito especial para as duas margens, pois era a segunda ponte a ser inaugurada entre a Galiza e Portugal e resultava do desejo de estreitar relações entre vizinhos. Então, aproveitando a presença de ministros espanhóis e portugueses, as escolas decidiram celebrar o evento com uma “ponte” radiofónica, em que a programação foi elaborada só por alunos dos dois lados e emitida ininterruptamente durante todo o dia. A partir desse experimento, as pessoas começaram a perguntar quando seria o próximo Ponte… nas Ondas! e nós, os professores organizadores dessa emissão, já não pudemos evitar dar-lhes resposta um ano a seguir ao outro.

E já lá vão 27 anos de atividade… Como tem sido, de uma forma geral, a trajetória da associação?

Das jornadas experimentais de rádio fizemos 20 edições, mas nestes 27 anos de existência temos feito muitas outras coisas. Celebramos com as escolas o Dia Mundial da Rádio, mas hoje de uma forma diferente. Os alunos produzem podcasts e programas de rádio que nós canalizamos no portal Escolas nas Ondas. Também realizamos oficinas de rádio no âmbito escolar, sobretudo na Galiza, e o interesse dos alunos pela rádio e pela comunicação torna-se muito visível e significativo. De facto, existem alunos marcados por esta experiência das oficinas que hoje são figuras públicas da rádio. Para além disso, através destas e outras iniciativas conjuntas, fomos descobrindo que temos um património comum, uma língua que é a mesma com sotaques diferentes. E isso faz parte de um património imaterial que valorizamos e que incluímos nos conteúdos dos nossos projetos.

E que património é esse? De que forma o preservam?

O património imaterial foi definido pela UNESCO há muitos anos, mas em 2001 fizeram-se as primeiras declarações das obras-primas deste património. Em 2003, voltaram a fazer essas proclamações e nós começámos a pensar no potencial do património galego-português, que está presente em muitos âmbitos. Por exemplo, na cultura marítima, o investigador Manuel Lopes dizia que o mar não tem fronteiras entre a Galiza e Portugal, que os marinheiros sempre tiveram uma relação com o mar e uma forma de trabalhar semelhantes. Na cultura agrária, no ciclo anual das festas e dos cultivos, há também semelhanças evidentes. E mesmo na literatura oral, temos um conjunto de lendas, contos, expressões e refrões que são comuns, para não falar das cantigas de amigo que, no fundo, são a semente. Por tudo isso, elaborámos em 2004 a primeira candidatura do património imaterial galego-português, a primeira também feita por dois países – Portugal e Espanha – e promovida por escolas. Infelizmente, no ano seguinte, a UNESCO não a inscreveu, mas recomendou aos Estados que voltassem a apresentar a candidatura. E ainda bem que assim foi, porque continuámos a trabalhar neste património e agora, 17 anos depois, o Ponte… nas Ondas! é candidato a modelo de boas práticas neste âmbito, o que para nós é um reconhecimento muito importante.

Neste contacto com as escolas, conhecem a forma de ser das crianças e jovens das duas margens do Minho. Na sua perspetiva, o que as une e o que as distingue?

Hoje em dia, com as redes sociais e a comunicação mais avançada, o contacto entre os dois lados é muito mais fácil. Nesse sentido, as crianças dão-se conta de que, entre um lado e outro, não há assim tantas diferenças, excetuando o facto de pertencerem a países diferentes, como uma fronteira pelo meio, e de terem também nacionalidades diferentes. Por exemplo, acabámos de lançar recentemente a segunda edição dum outro projeto que temos, o Meniños Cantores, com a colaboração de 17 escolas ao longo da fronteira, desde Chaves a Viana do Castelo. Destaco este projeto porque as escolas trabalharam canções tradicionais com um substrato comum, como é o caso de uma escola de Chaves que interpretou, do seu cancioneiro, uma cantiga chamada “Costureirinha Galega”. E isto é a prova de que a fronteira que temos une e não divide. Como diz uma frase da cantora Guadi Galego, “mudamos fronteiras por pontes”. É este o resumo mais evidente dessa união.

Nesse sentido, qual é a importância da música para o projeto? E sobre esta segunda edição dos Meniños Cantores, como foi a experiência de gravar em pandemia?

A música, enquanto linguagem universal, é muito importante para o Ponte… nas Ondas!. Primeiro porque a música na rádio é fundamental. E depois porque nós, professores e educadores, queríamos descobrir com os alunos as músicas mais próximas aos dois territórios. E foi assim que nasceu o Meniños Cantores, que teve a sua primeira edição em 2004 com outras 17 escolas entre Vigo e o Porto. Cada escola interpretou 2 temas tradicionais e, depois, mais de 500 alunos cantaram um tema comum em cima da ponte de Tui-Valença. Dessa edição para a que acabámos de publicar, muita coisa mudou. Mudou o formato – porque em vez de um CD e de um DVD lançámos um cartão USB com as músicas e uma série documental – e mudou o contexto, desta vez mais difícil e ambicioso. Gravámos tudo quando muitas escolas ainda estavam fechadas e tivemos muitas dúvidas e incertezas, mas conseguimos superá-las e, a meu ver, o resultado é excelente.

Voltando ao início da conversa, a rádio é um meio que tem uma morte anunciada há já vários anos com o advento de outras plataformas e propostas como o streaming. Também acreditam que a “caixa mágica” perdeu o seu encanto ou pretendem continuar a apostar nela?

Eu acho que a rádio não perdeu nem um pouco do seu encanto. Por exemplo, quando começámos a trabalhar os podcasts, os alunos achavam que isso era algo distante, que não fazia sentido, e agora descobrimos que eles estão a aderir de uma forma massiva a esse formato. Quando dizes a um aluno que pode elaborar, em sua casa, um trabalho criativo com a sua voz, ele trabalha na sua intimidade e dá o melhor de si. Da mesma forma a rádio também explora essa intimidade, sobretudo a rádio em direto, que continua a ter uma magia que não têm os podcasts. Quando o aluno se coloca diante de um microfone em direto, experimenta uma tensão positiva e um trabalho cooperativo que é a maior satisfação para si. Por isso, acho que a rádio nunca perderá essa magia nos jovens, principalmente se os deixarmos fazer e explorar sozinhos as inúmeras possibilidades que existem.

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