Neste final de setembro, entre os dias 25 e 27, o hub criativo do Beato e os bares do Cais do Sodré, em Lisboa, receberam uma vez mais a conferência e festival de música MIL Um evento dedicado à descoberta e promoção da música popular atual, de várias origens e sensibilidades, bem como à reflexão sobre as políticas e práticas culturais vigentes possíveis.
Entre outros temas, focaram-se, nesta oitava edição, a acessibilidade na cultura e a relação da cena musical portuguesa com outras, particularmente a espanhola. A conexão com o país vizinho ouviu-se e sentiu-se tanto na conferência como no festival, não só pelas sessões de discussão e concertos, mas também pela presença de profissionais como oradores e espectadores.
«Como desbloquear o mercado ibérico?», foi a pergunta que inaugurou oficialmente esta relação no segundo dia do evento, propondo um questionamento sobre as dificuldades de circulação de artistas entre os dois países e as oportunidades para construir um mercado ibérico mais coeso. No painel desta mesa-redonda estiveram o A&R (“olheiro”) Javier Marañón, a curadora de festivais Mar Rojo, a agente Estefanía Serrano e a gestora Naiara Larrinaga, com os portugueses Hugo Ferreira (promotor cultural) e Gonçalo Castro (radialista).
“Estamos perto, mas ainda muito longe uns dos outros”, sublinhou Serrano no início da sessão, enfatizando a “fronteira económica” que existe ao nível da tributação entre países e da negociação de cachês em função disso. Falou-se também da dificuldade de promover artistas portugueses em salas espanholas e vice-versa, salientando-se exceções “particulares” e boas práticas que, lembrou Rojo, resultam da interação “entre indivíduos que querem muito”. A concluir, ficaram no ar potenciais iniciativas como a geminação entre salas dos dois países e um coletivo de profissionais do setor para discutir e encontrar soluções neste âmbito.
No último dia da conferência, a questão ibérica foi reforçada com os painéis «Mostra Espanha» e «Música cigana: uma conversa com Israel Fernández e Diego El Gavi». O primeiro serviu para apresentar o festival bienal de cultura espanhola em Portugal que, este ano, também comemora a sua oitava edição, mostrando o dinamismo e a criatividade das indústrias culturais espanholas na atualidade. Nesta edição da Mostra Espanha, destaca-se o 50.º aniversário da chegada da democracia a Portugal com um programa ligado aos diferentes processos de transição democrática entre os países, incluindo atividades em diversas localidades portuguesas.
Na conversa entre Israel Fernández, cantor de flamenco nascido em Toledo, e Diego El Gavi, cantor com raízes entre Lisboa e Madrid, moderada pela programadora Aïda Camprubí, falou-se sobre a evolução e a valorização da música cigana como símbolo cultural na Península Ibérica. Entre os temas abordados, estiveram também a vivência dos dois artistas entre Portugal e Espanha, a relação entre música e religião nas suas criações, a falta de incentivos à criação musical cigana e os preconceitos sociais que ainda persistem. Algo referido também noutro painel, no mesmo dia, por membros do grupo La Família Gitana, que refletiram sobre a dificuldade de fazer entender que “as pessoas ciganas também trabalham”.
Durante a noite, nos últimos dias do evento, foi a vez do MIL rumar ao Cais do Sodré e se transformar numa pista de dança e talento (também vindo de Espanha). O serão de quinta-feira promoveu a nova música catalã, começando pela banda de arcade punk Sistema de Entretenimiento, que encheu a sala Roterdão com uma energia acelerada e algo pueril. A noite seguiu com a cantora e compositora Adelaida, na sala Lisa, que apresentou o seu mais recente álbum «Muérdago», explorando uma ambiência coral com a própria voz. Intervalo para a música com marca basca com a DJ e produtora Alai, que trouxe à sala «Titanic Sur Mer», o seu estilo eletrônico misturado com merengue, reggae, breakbeat, entre outros géneros. Já durante a madrugada, ouviu-se na Lisa a eletrônica contaminada pelo dembow de Hadren, DJ e produtor de Barcelona, e ainda, na sala Musicbox, a DJ e ativista hispano-palestiniana Saya, radicada no Porto, que espelha todas as suas referências culturais numa eletrónica multigénero.
Na sexta-feira, a noite espanhola em Lisboa descolou no Musicbox com Vatocholo, um compositor e produtor mexicano nascido na Dinamarca e atualmente radicado em Madrid. O som foi um misto entre o regional do México e a essência urbana de géneros como o hip-hop, o rock, o metal ou a soul, que acompanham o artista desde a infância. Ao mesmo tempo, na sala Lounge, o público vibrava com a pop alternativa (jovem e com espírito árabe) de Restinga, alter-ego da artista hispano-marroquina Herminia Loh Moreno, nascida em Tetuão e radicada em Sevilha. A encerrar o serão, houve ainda espaço para mais uma artista emergente catalã, Dianka, que trouxe ao palco do Roterdão a sua pop contemporânea com influências do folclore e da música espanhola dos anos 60 e 70, recuperando o caráter de artistas como Marisol, Jeanette ou Raffaella Carrà.
O MIL é um festival e conferência de música realizado em Lisboa desde 2017, organizado pela produtora CTL – Cultural Trend Lisbon em coprodução com a Gato Loco Productions. Entre os parceiros estão a Direção-Geral das Artes, a Câmara Municipal de Lisboa e outras entidades portuguesas e internacionais, como a Embaixada de Espanha em Portugal e o Instituto Cervantes de Lisboa.