Helena Freitas: “Devíamos ter um observatório ibérico para os recursos hídricos”

A investigadora e diretora do Parque de Serralves participa na próxima segunda-feira no «Fórum I+D+C», em Madrid, dedicado às transições socioecológicas

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Helena Freitas, 61 anos, tem dedicado a sua vida às questões do planeta e da natureza, sendo um dos nomes mais importantes da academia portuguesa em matéria de biodiversidade, ecologia e desenvolvimento sustentável. Professora Catedrática na Universidade de Coimbra, tem desempenhado vários cargos públicos em Portugal, na União Europeia e junto de organizações internacionais, tendo sido responsável pela transformação do Jardim Botânico da “cidade universitária”. Atualmente dirige o Parque de Serralves, no Porto, onde era já coordenadora-geral desde 2020.

Apesar de toda esta experiência e de ver a ciência como um motor do mundo, Helena Freitas não deixa de lado um olhar mais atento e humano sobre as alterações climáticas – e não só – que vivemos. Não se cinge aos dados e aos números preocupantes, mas procura contextualizá-los e relacioná-los com outros fenómenos das nossas vidas, como as artes e a cultura, passando pela pandemia e o afastamento espiritual da nossa condição humana.

Nesta segunda-feira, a professora e investigadora estará em diálogo com o jornalista e divulgador científico espanhol Luis Quevedo, no âmbito do «Fórum I+D+C» sobre transições socioecológicas, promovido pelo Círculo de Belas Artes de Madrid. Dedicada e atenta ao que está a acontecer no mundo, nomeadamente a COP28, Helena Freitas fala-nos da relação das sociedades urbanas com a natureza, do papel da cultura e da imprensa sobre a transição ecológica, e enfatiza a necessidade de cooperação entre os povos.

 

Como surgiu o convite para participar no Fórum I+D+C?

Foi uma coisa muito espontânea. Recebi um e-mail da Embaixada de Portugal em Madrid que tem feito, pelo que percebi, o convite a pessoas de outras áreas para gerar uma dimensão interdisciplinar neste evento. Julgo que, no ano passado, convidaram alguém que trabalha mais a área dos oceanos e, este ano, quiseram uma opinião diversa, ainda que convergente na temática. Atualmente sou diretora do Parque de Serralves e também tenho promovido eventos que juntam este universo das belas-artes e da arquitetura com a sustentabilidade, o ambiente e a transição climática. Estes são temas cada vez mais transversais.

 

De facto, o foco desta conferência serão as transições socioecológicas. O que lhe apetece dizer sobre este tema?

Antes de mais, trata-se de um diálogo. Vou estar a falar com o Luis Quevedo, uma pessoa da comunicação, que me fez algumas sugestões e será, no fundo, o impulsionador da conversa. A ideia é trazermos a questão do papel da natureza nas sociedades urbanas. Qual é o nosso posicionamento? De que forma somos interpelados pela extinção da biodiversidade? O que isso significa e que implicações tem? Também queremos refletir sobre o papel da cultura, que pode ajudar as sociedades a regenerarem a sua relação com a natureza… Esta ideia do Antropoceno, da pressão planetária que estamos a exercer, que tem uma implicação universal. A poluição, a contaminação dos solos e rios, a produção e a saúde alimentar… Há, de facto, um conjunto grande de transformações que estão a acontecer à escala global e que julgo que nos interpelam a todos.

 

Como podem então a cultura e as artes regenerar a sua relação com o meio ambiente?

A cultura faz exatamente este exercício de tradução do sentir, do pulsar das inquietações que o ser humano tem, individual e coletivamente. Penso que, neste sentido, é uma chave importante, pela forma como incita a esses diálogos surdos. Quando temos sobre nós esta pressão de mudança, de transformação, que é complexa, exigente e que tem de acontecer de forma colaborativa, as respostas não podem vir só da ciência. Têm de ser assumidas e vivenciadas pelas sociedades, nas suas culturas e nas condições que têm para fazer a mudança. Tenho dito algumas vezes que a biologia e as ciências naturais, a partir do Iluminismo, contribuíram para sobrevalorizar o papel do Homem. Mesmo aí, a cultura também pode ajudar a reposicionarmo-nos e a repensarmos o nosso valor.

Por outro lado, pode fazê-lo de forma mais explícita. Recordo-me, por exemplo, da “árvore” do Ai Weiwei que esteve em Serralves, visualmente espetacular, que mimetizava uma árvore de uma espécie originária da Amazónia quase em extinção. Foi, de facto, uma maneira muito explícita de trazer para a agenda a questão da Amazónia, da pressão que existe sobre um conhecimento tradicional que permite gerir ecossistemas. Ou então as fotografias do Sebastião Salgado, que transmitem a força da natureza no seu estado puro. Não são cenários idílicos, têm sempre uma certa humanização. Portanto penso que a arte pode convocar-nos para o sentimento, a espiritualidade e até a cumplicidade com a natureza.

 

Mas talvez terá de atentar mais nos materiais que utiliza.

Sem dúvida, isso é muito importante. No diálogo que tenho feito com outras artes, o design e a arquitetura, tenho percebido que é necessária a capacidade de olhar para os materiais e perceber o seu impacto, bem como o abuso da materialidade. Como podemos desmaterializar e trazer outra tipologia de materiais para as artes? Isso tem obrigatoriamente de fazer parte da transformação. E, a partir daqui, pensarmos também no sentido da inovação, por exemplo, ao nível das cidades. Pensar a madeira, por exemplo, como um material útil e preferível pelo seu papel no stock de carbono, pela sua função estética ou até pela articulação com o espaço rural, combinando a regeneração de um bosque com a regeneração da cidade e as novas profissões.

 

Nesse ambiente urbano, como se coloca o papel dos parques e dos jardins? De que forma podem melhorar as nossas vidas?

Pela presença da natureza, desde logo. Apesar de escolhermos viver em cidades, temos a noção clara de que precisamos de ter a natureza connosco. Não é exatamente a mesma coisa, mas [os parques] não deixam de ter as funções naturais ligadas ao ciclo do carbono, do oxigénio, da água. Temos essa necessidade de usufruir da natureza, no sentido em que nos conforta, nos inspira, nos satisfaz. Simplesmente porque passeamos ou corremos no parque. Percebemos também a ligação que as áreas verdes têm à nossa saúde, ao bem-estar. Hoje queremos viver mais, mas viver bem. E também a própria vitalidade da cidade está dependente da existência destas áreas verdes. Pela qualidade do ar, pela biodiversidade, pelas aves que gostamos de ouvir cantar e que nos despertam essa memória biológica de um outro tempo, um outro espaço, em que tudo isto nos era mais próximo.

Portanto, temos de contemplar e respeitar a natureza no espaço urbano, querendo que ela seja saudável. E isso depende muito de um olhar, que é preciso recuperar, de uma maior proximidade. Uma árvore é um ser vivo, por isso ter caldeiras que abafam a raiz de uma árvore não é uma boa solução. Não faz sentido. Temos de cuidar.

 

Infelizmente não é esse o cenário que temos hoje, com as alterações climáticas a escalar e a bater recordes indesejados. Em que estamos a falhar?

Disconnecting. Neste desligamento da nossa relação com a natureza, que resulta também de um certo entendimento que a ciência gerou – não que tenha sido essa a sua intenção – de que conseguimos tudo com o conhecimento e a inovação tecnológica. Temos feito coisas incríveis, de facto, mas esta ideia levou-nos a esquecer um pouco a nossa própria condição de espécie, de vulnerabilidade. Na pandemia, por exemplo, o maior conflito talvez tenha sido essa perceção da vulnerabilidade e da inquietação sobre a possibilidade daquele cenário. Como poderíamos ser dizimados por um vírus, algo tão ridiculamente pequeno? Obviamente que a ciência aqui ajudou-nos com a vacina, mas, ao mesmo tempo, esses avanços não nos podem fazer perder os valores humanos. Eu creio, com toda a minha convicção, que nada nos aproxima mais da nossa condição humana do que a natureza. Quando nos desligamos dela, também perdemos essa capacidade de “intra-conectar” e de alcançar o nosso bem-estar.

 

Começa hoje [à data da entrevista, 30 de novembro] a COP28, mais uma cimeira do clima. Pelo histórico destes encontros, percebemos que têm falhado em gerar ações ao mais alto nível. Será que desta vez resultarão decisões verdadeiramente vinculativas e a aplicar desde logo no terreno?

Sabe que eu… quero sempre acreditar que sim. Faço parte dessas pessoas [risos]. O conhecimento tem de nos inspirar, mas também é uma questão de inteligência. Como para mim é evidente que a solução mais inteligente é a mudança, custa-me não ver isso a acontecer, que as nossas lideranças não tenham a capacidade de o fazer.

A COP28, de facto, vem no seguimento de outras COP que têm vindo a desacreditar, sobretudo porque não há compromissos sobre aquilo que é fundamental. Desde logo travar os combustíveis fósseis, toda a sua cadeia produtiva. Esta COP em particular traz um sinal muito importante de uma primeira avaliação das metas apontadas em Paris. Isso já é um aspeto muito positivo do encontro, mas depois há contrassensos: passa-se na 7.ª economia do mundo que mais produz combustíveis fósseis e há uma certa dúvida sobre a benevolência da intervenção dos Emirados [Árabes Unidos] e, concretamente, deste sultão [líder das negociações] na promoção das renováveis em vários países. Há toda uma nebulosa em torno do evento e esta suspeita de greenwashing, mas o que é certo é que vão estar presentes vários líderes internacionais e representações dos presidentes chinês e norte-americano.

Portanto, há dossiers muito importantes a tratar. Um deles é a operacionalização do chamado Fundo de Perdas e Danos, que poderá alocar fundos para a instalação das renováveis em países com economias mais frágeis. Ainda que todo o continente africano, por exemplo, contribua apenas em 4% das emissões globais. Mas se desta discussão saírem resultados efetivos, penso já ter valido a pena o encontro.

 

As notícias, no entanto, fazem-nos crer que a solução está longe.

Pois, isso também é um problema. A imprensa tem de começar a responsabilizar-se pelo que diz. Por exemplo, tivemos este ano oito ondas de calor fortíssimas no Rio de Janeiro, mas só ouvimos falar de uma porque, infelizmente, morreu uma jovem num concerto da Taylor Swift. Os incêndios no Canadá foram também de uma violência nunca vista. Na Europa, terão morrido este ano 60 mil pessoas em virtude do aquecimento climático. Não ouvimos falar destes números.

 

Mas ainda vamos a tempo de minorar as consequências?

Os cientistas do clima dizem que, mesmo que consigamos cumprir os horizontes apontados em Paris e travar ligeiramente o aquecimento global, não conseguiremos estabilizar o sistema climático ainda este século. Vamos ter de nos adaptar. O que significa que vamos ter de trabalhar coletivamente no sentido de que todo o planeta tenha os meios para essa adaptação. Mas, como sabemos, são vários os países, pequenos arquipélagos, que já estão a sofrer o impacte e não têm os recursos disponíveis para fazer face à sua situação.

 

No contexto ibérico, por exemplo, temos dado alguns passos para facilitar esta transição, nomeadamente pelos vários acordos transfronteiriços entre Portugal e Espanha. O que estamos já a fazer? E que podemos ainda fazer?

Certamente ainda estamos a fazer pouco, embora tenhamos avançado no plano das relações sociais. Penso que o entendimento e a cumplicidade [entre os dois países] é natural. Salvo a questão da transição energética, do aproveitamento de fontes renováveis de energia, em que estamos a convergir, porque também existe um interesse recíproco nessa área, no resto não passamos apenas de tentativas e muitas dificuldades. A maior delas todas será mesmo a partilha das bacias hidrográficas, sobre a qual existe uma convenção [de Albufeira] que devíamos revisitar, mas que não temos conseguido. Ao nível político até pode haver o reconhecimento dessa necessidade, mas depois temos os agricultores da Andaluzia a pedir a água do Alqueva e muitos outros interesses. Nesta questão onde é tão crucial a cooperação, não podemos contar só com tratados antigos, mas colaborar de um modo mais permanente. Devíamos ter um observatório para os recursos hídricos que traduzisse um olhar mais comprometido e capaz de analisar conjuntamente, não apenas os usos humanos, mas também os caudais ecológicos e os ecossistemas.

Na conservação da natureza e das áreas protegidas, temos já mais sinais de cooperação, sobretudo nas regiões transfronteiriças. Nas nossas ilhas, portuguesas e espanholas, tem havido alguma cooperação para colmatar os problemas de abastecimento, da erosão dos solos e na resposta aos eventos extremos. Seria muito interessante pensar também a Península Ibérica como um conjunto noutras áreas em que temos dificuldades, como a produção agrícola, por exemplo. A questão ambiental, de facto, não tem fronteiras. É necessário ajustarmos a nossa legislação e os nossos interesses para melhorarmos o trabalho de cooperação.

Foto: Arquivo Diário As Beiras – Luís Carregã

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