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Enquanto esperamos que a vacina apareça e remova a pandemia da Covid-19 das nossas vidas, este traumático e histórico ano de 2020 traz finalmente uma boa notícia: o anúncio do processo de fusão do CaixaBank com o Bankia que, na realidade, é uma compra encoberta da entidade de Torres Kio pela entidade de Torres Negras. Da união destes dois bancos, para além do Banco Português de Investimento (BPI), que faz parte do grupo CaixaBank, surgirá a principal entidade financeira de Espanha e da Península Ibérica, com activos de quase 700 mil milhões de euros.

Sob a batuta de Isidre Fainé, que culmina uma operação de longa duração, o Gonzalo Gortázar (CEO do CaixaBank) e José Ignacio Goirigolzarri (Presidente do Bankia) serão os encarregados de pilotar a nova entidade resultante da fusão. Dois proeminentes financiadores de raízes bascas à frente de um novo banco nascido em Barcelona, ​​um com extensão em Portugal e outro em Madrid. Aqui temos um triângulo que nos permite ver em comum um projecto ibérico de modernização e progresso.

A reacção hostil de uma parte do movimento de independência catalão, o mais identificado com Carles Puigdemont, ao anúncio da fusão do CaixaBank & Bankia mostra, mais uma vez, a gravíssima miopia estratégica deste movimento, instalado no erro histórico permanente. O uso da paranóia e da demagogia para desacreditar uma operação de longo alcance que, objectivamente, foi liderada da Catalunha, é a prova do declínio irreversível e da marginalização do secessionismo político. Isto três anos após o clímax da “rebelião dos sorrisos”.

Se temos que fazer caso da maestria de Karl Marx, é a economia (infra-estrutura) quem determina a política e a cultura (superestrutura). E, neste sentido, a fusão do Caixa Bank com o Bankia abre e reforça uma dimensão peninsular que, sem dúvida, será transitada, progressiva e intensamente, por Pedro Sánchez, o presidente do governo espanhol, e António Costa, o primeiro-ministro português.

Ambos os governantes têm uma data-chave no calendário: o próximo dia 2 de Outubro, quando será realizada a cimeira Ibérica entre os governos espanhol e português. Nesta ocasião, o encontro ocorrerá na cidade lusa da Guarda e, dada a grande afinidade política e pessoal dos seus protagonistas e o momento chave que vivemos, com certeza terá um grande significado histórico, marcando um antes e um depois na estruturação do espaço peninsular.

A fusão do CaixaBank e do Bankia não só reforça e consolida o eixo Barcelona-Madrid-Lisboa (a Diagonal Ibérica, que liga o Mediterrâneo ao Atlântico). Aponta também para um modelo de governo que deveria ser aplicado nas grandes empresas que dependem fortemente das decisões das administrações (empresas do sector da energia, água, auto-estradas, infra-estruturas, telecomunicações, ambiente, serviços, etc).

A história conturbada da Bankia fez com que 60% do seu capital estivesse nas mãos do Estado, através do Fundo para Reestruturação Bancária Ordenada (FROB). Concluída a fusão com o CaixaBank, esta participação pública permaneceria em cerca de 20% e o Governo já manifestou a vontade de permanecer no capital.

A participação (minoritária) do sector público no capital de empresas com concessões administrativas ou fortemente vinculada às disposições do BOE teria que ser uma exigência democrática. Por um lado, para ter controlo directo sobre a gestão, evitando abusos. E, pelo outro, obtendo uma renda, por meio da participação nos lucros, que nutra e fortaleça o estado de bem-estar.

Jaume Reixach é jornalista e editor das publicações EL TRIANGLE, LA VALIRA e O TRAPÉZIO