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Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, assinalou a falta de uma estratégia ibérica coordenada a nível internacional, a que deu o nome de Iberolux. Em entrevista ao TRAPÉZIO, o eurodeputado português Paulo Rangel, que defendeu este modelo em 2004, garante que “podemos fazer muito mais”.

– Defendeu o modelo Iberolux em 2004…

– Quando falei deste modelo era muito a propósito do mercado ibérico da eletricidade. Depois, até republiquei numa obra que tinha um capítulo sobre a geopolítica portuguesa e da região Norte. Foi apresentado pelo Doutor Rui Moreira.

– Quais eram os pilares na altura?

– Há um conjunto de projetos de integração europeia e o Benelux [constituída pela Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo] pode ser um caso muito paradigmático porque eles antecipavam e, às vezes, até inovavam algumas políticas de imigração entre eles. Ou seja, iam para lá daquela integração que já existia no mercado comum. Por exemplo, Schengen, que não se chamava Schengen, muito antes de existir para a Europa, existia para o Benelux. Eles foram abrindo e criando um conjunto importante de possibilidades para uma cooperação reforçada. Anteciparam-se sempre um pouco à meta europeia. Por exemplo, na questão da saúde, Portugal e Espanha podiam ter uma cooperação mais avançada. Existe hoje uma política para os cuidados de saúde transfronteiriços, mas podíamos estar muito mais integrados aí, ter algumas sinergias e até economias de escala de parte a parte. Esta é uma área em que se pode trabalhar bastante.

– Existem outras áreas… Como é que vê o caminho que se fez desde 2004?

– Temos a área da investigação. Há muitas áreas, de setor a setor, onde se podia trabalhar bastante. Não acho que tenhamos grandes progressos. Há progressos que resultaram muito mais da dinâmica europeia em geral do que propriamente dos governos. Vou dar um exemplo que seria interessante e que estamos a pensar integrar num só painel no próximo fórum ibero-americano, que será no Porto, em outubro: É fazer uma ofensiva externa comum dos países ibéricos. No fundo, devíamos fazer uma promoção das duas línguas. Isto não será fácil mas, se pensarmos que as duas línguas ibéricas estão nas primeiras seis mundiais, percebemos que, se houvesse uma coordenação de esforços, por exemplo até no ensino da língua, podiam em muitos sítios ter um ensino paralelo, até no mesmo edifício. Por um lado, estudar as duas línguas nos dois países e fora, e depois, em algumas ofensivas, termos um discurso em comum. Podíamos ter uma política de exportação alinhada das línguas ibéricas. Isto seria muito forte do ponto de vista cultural.

– Ter um modelo Iberolux ajudaria em todas as pastas?

– Eu acho que poderia ajudar, claro. Mas também é preciso ver que o Iberolux não é uma União Ibérica. No Benelux é muito clara a autonomia. Mas claro que podemos fazer muito mais. Por exemplo, ao nível das políticas regionais. A região Norte tem uma ligação à Galiza, mas não só. Tem também a Castela Velha, que é a bacia do Douro, que são 800 quilómetros. O Alentejo tem uma continuidade importante com Andaluzia e as Beiras Interiores com a Estremadura. Estas relações, de região a região, são muito importantes.

– Pode falar-se aqui da necessidade de termos administrações autónomas em Portugal?

– É natural que, se houvesse em Portugal, este tipo de diálogo seria muito mais fácil, mas penso que as CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional) têm tido capacidade para fazer isto.