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O banqueiro Ricardo Salgado, antigo dono do grupo Espírito Santo (o segundo maior banco do país), seis anos depois da queda do seu império, foi finalmente constituído como arguido em 65 crimes que vão desde o habitual golpe de «colarinho branco», constituição de organização criminosa, falsificação de documentos ou corrupção activa. Todas estas actividades terão lesado o banco em mil milhões de euros.

Para além de Salgado, outras 24 pessoas foram acusadas pelo Departamento de Investigação e Acção Penal (DCIAP) no processo que investiga o fim do Grupo Espírito Santo, que alegadamente já estava falido cinco anos antes do seu fim oficial, em 2014.

A falência do Banco Espírito Santo (BES), que mudou de nome e actualmente chama-se Novo Banco, levou a que centenas de pessoas perdessem as poupanças de uma vida devido a capitais negativos a rondar os 962 milhões de euros. Este é o maior escândalo financeiro do país e foi um dos grandes contribuidores da última crise financeira no país. Nos últimos anos, o governo tem injectado dinheiro neste banco e o mais recente investimento de capital aconteceu já durante a pandemia.

Com a confirmação que Ricardo Salgado iria ser julgado por este processo, que não considera justo e empurra o fim do BES para o Banco de Portugal e o seu governador Carlos Costa, soube-se novos desenvolvimentos de um «saco azul» que serviu para financiar a campanha eleitoral do antigo presidente da república, Cavaco Silva. Para além deste financiamento eleitoral, que é ilegal em Portugal, Salgado também tem na sua folha de pagamentos o antigo primeiro-ministro, José Sócrates, e o actual presidente da TAP, Miguel Frasquilho.

Salgado e a amizade com Juan Carlos

No mercado latino-americano, Ricardo Salgado tinha relações de grande proximidade com os presidentes venezuelanos, Hugo Chávez e Nicolas Maduro, um antigo vice-presidente do Banco do Brasil ou o rei emérito Juan Carlos. Salgado e o antigo rei espanhol são amigos de infância, isto devido a uma juventude passada junto ao mar de Cascais, e o português e a esposa chegaram a marcar presença no casamento do rei Filipe VI com a rainha Letizia.

Mas não é só com a realeza espanhola que o antigo banqueiro tem ligações. Uma investigação de uma revista portuguesa revelou que Salgado está a ser acusado de roubar a entidade do porteiro Domingos Galan Macias, residente em Madrid. Os documentos deste cidadão foram utilizados para forjar um investimento, de 2.5 milhões de euros, na empresa venezuelana de petróleo PDVSA.

Ricardo Salgado, a quem muitos durante anos chamaram de «Dono Disto Tudo» e que era presença assídua nos principais meios económicos e sociais mundiais, actualmente está em prisão domiciliar mas a ser alvo de vigilância policial 24 horas por dia.