Trabalhar em prol da ligação entre Portugal e a Galiza é, para Diana Gonçalves (Tui, 1987), “parte do ADN” do seu trabalho enquanto cineasta. Mas a inspiração para filmes como Trapicheiras (2008) e Mulleres da Raia (2009) não se ficou por aqui. Mais recentemente, a vertente académica na qual se tem focado levou-a a explorar outros universos criativos e a conceber um projeto de instalação expositiva sobre as mesmas histórias e personagens reais das duas metragens, incluindo também outras que ficaram por revelar.
Transfronteiriza, que deverá ser o título desta exposição a inaugurar em 2026, vai assentar primeiro no Museu do Pobo Galego, em Santiago de Compostela, com o qual a criadora e investigadora assinou este mês um protocolo de colaboração para desenvolver o projeto. Mas o sonho é continuar esta mostra por outros lugares da Ibéria e do mundo. “Levar a raia para fora da raia” é o mote de um trabalho sólido, pensado e articulado pela associação Raia Creativa, à qual Diana Gonçalves preside, e que tem estabelecido parcerias, como é o caso do projeto Ponte nas Ondas.
Dois anos depois da última conversa, o EL TRAPEZIO volta a entrevistar Diana Gonçalves para conhecer o que mudou e o que permanece nesta profunda dedicação pela valorização do património comum e pelo intercâmbio regular entre a Galiza e Portugal.
O que é o projeto Transfronteiriza?
É uma instalação. Atualmente, há vários realizadores que têm optado por este formato expositivo porque permite trabalhar as imagens e os sons de outra forma, realçando o lado físico das histórias, e isso levou-me a decidir por este formato, que não é muito comum aqui [na Galiza]. O ponto de partida é o [filme] Mulleres da Raia, que continua vivo depois do longo percurso por festivais, mas também na academia e nas associações. Tem percorrido o mundo.
Como falámos da última vez, eu filmei muito mais do que era preciso para o filme e sempre tive vontade de fazer algo com esse material. Mas fazer o quê e como? O filme já estava feito, mas agora eu sabia que era preciso dar o salto. Queria fugir da narração linear do cinema e trabalhar no espaço, fora do ecrã, com objetos que representassem as histórias, ainda que mantendo a imagem e o som como elementos fundamentais. E foi essa vontade de explorar novas possibilidades, de ir à procura dos objetos no território e de os recolher, que me fez querer fazer uma instalação, criando um ambiente com diferentes cenários. Não só dar a ver e ouvir, mas estar dentro.
A curadoria é apenas sua?
Sim. É o meu primeiro trabalho deste tipo, ainda que tenha o apoio do Museu do Pobo Galego e dos seus vários departamentos. Mas como a ideia já estava bem definida e o Museu achou-a bem sustentada, recaiu em mim essa responsabilidade. Agora estou a explorar vários caminhos, no sentido de colocar as histórias a dialogar umas com as outras. Vou contar as histórias de uma maneira, mas depois o público que por lá passar vai completá-las.
E como surgiu a colaboração com o Museu do Pobo Galego?
É um espaço muito importante, para mim e para os meus. É o maior museu de antropologia da Galiza e, portanto, uma referência para quem quer conhecer a história desta comunidade. Além disso organiza a Mostra Internacional de Cinema Etnográfico (MICE), que tem exibido todos os meus trabalhos cinematográficos. Há um acompanhamento constante, uma mostra de atenção pelo meu trabalho. Dá-se ainda a circunstância feliz de o Museu ter aberto recentemente um espaço de exposições temporárias, com algumas ressonâncias com a própria arquitetura de fronteira, onde consegui ver o espaço físico adequado para a Transfronteiriza. Por isso fiz a proposta, que foi acolhida de braços abertos.
Entretanto criou uma associação, Raia Creativa, que sustenta o projeto. Fale-nos um pouco mais deste passo.
É uma associação de recente criação, do ano passado, mas no fundo é um trabalho que tem anos. Esta questão de dar valor ao património material e imaterial que nos une, a Portugal e Espanha, sempre esteve no ADN do meu trabalho e das pessoas que se foram juntando a mim. Mas agora que surgiu este projeto, apercebemo-nos de que era necessária uma estrutura para este e outros projetos que hão de vir. A vocação da associação é continuar a trabalhar de maneira organizada para favorecer o intercâmbio, sobretudo, cultural e o desenvolvimento social destas regiões transfronteiriças.
E por que nasce em Valença e Tui?
Porque somos de lá naturais, mas também porque achamos que falta ali esse nexo de união. Temos uma falsa ideia de que há uma ligação constante nestes territórios – e ela existe, de facto, em termos históricos e económicos, por exemplo – mas a frequência das trocas culturais não é tanta como supomos. Se formos a ver a relação de atividades que se fazem para promover este intercâmbio, não são assim tantas. De certa forma relaxamo-nos nesta ideia que não condiz com a realidade, portanto eu acho que é muito importante construir uma sociedade civil organizada em prol destas ligações. O que também passa pelo associativismo que, neste caso, não junta só as pessoas de lá. Há sócios de várias origens, de Santiago [de Compostela], do Porto, com diferentes profissões, que trazem um olhar diferente que nos faz sair da nossa “bolha” raiana.
A criatividade é, portanto, o eixo da vossa atividade.
Sim, juntamente com a comunicação e a sociedade. Estamos convencidos de que a criatividade é o motor fundamental que nos pode levar a pensar outras possibilidades para as nossas conexões. Precisamos de aprender com aquilo que fizemos até agora para podermos criar algo original, saindo do círculo em que vivemos. Além disso, promover este intercâmbio cultural e este maior contacto social vai permitir-nos ser cidadãos mais conhecedores de nós próprios e do que nos rodeia. Para nós, criatividade significa também criar uma cultura das pessoas, em que estas participem ativamente e não sejam apenas representadas. Porque só assim é que vamos poder entender-nos mais e melhor.
Voltando à exposição, vão querer levá-la posteriormente a outros lugares?
Essa é a ideia. Estamos a trabalhar para que a exposição chegue a Lisboa. Levar a raia para fora da raia. Obviamente queremos passar também por Valença e Tui, o ponto de partida deste projeto, e depois promover outras itinerâncias que ainda não sabemos quais serão. Mas, claro, não depende só de nós. Este é também o trabalho invisível de fazer funcionar as instituições, aproximando-as, mesmo aquelas que têm naturezas distintas.
A inércia é, de facto, um problema frequente no quadro institucional e legal, muitas vezes também impreparado para a cooperação transfronteiriça.
Sim. Vimos isso logo na criação da associação. O facto de estarmos legalmente sedeados apenas num dos lados da fronteira torna difícil o financiamento para o próprio projeto. Parece que agora vamos ter aprovada a nossa constituição como associação transfronteiriça, o que é uma excelente notícia, para não virmos a ter despesa com duas estruturas que não são necessárias. Vamos ver se a União Europeia, por fim, nos dá essa facilidade e reconhece aquilo que naturalmente somos.
No momento, o facto de estarmos só num dos lados também nos ajuda a criar relações com associações locais e outras que nos ajudam do outro lado. Como é o caso da Ponte nas Ondas, com quem colaborei desde sempre, e que nos complementa na vertente pedagógica. Daí o convite que lhes fizemos para participar no Transfronteiriza, no qual um dos públicos-alvo é, precisamente, a comunidade escolar. Uma nova geração que mal conhece ou até desconhece não só a história desta fronteira, mas também como chegámos até ao atual espaço de livre circulação. É fundamental que esta geração perceba a importância de sermos em comum, de cultivarmos os laços entre nós, e eu acho que o audiovisual é um bom meio para trabalharmos este público.
Quer deixar uma mensagem para quem possa estar interessado em colaborar convosco?
A associação está aberta a quem se sentir identificado com aquilo que acabo de dizer. Estejam atentos aos passos que vamos dar com o Transfronteiriza, porque eu acho que é a melhor maneira de nos conhecermos. Esta é a nossa maneira de fazer. Se estiverem interessados nela, na Raia Creativa há um lugar para todos.
Esta última expressão que disse cita o texto de um desenho de Castelao – um dos grandes intelectuais galegos e pensadores da autonomia galega como hoje a entendemos – em que parece haver um ser em construção, há escadinhas onde se vê pessoas a subir, etc.… Uma parte dos seus desenhos são acompanhados de texto e, neste em particular, diz algo como “Que ninguém critique a obra antes de a terminar. Aquele que pense que a obra vai mal, trabalhe nela, há lugar para todos.” Isto vem, de facto, de alguém que conhecia muito bem a forma de estar galega e portuguesa.