Aos Portugueses (III)

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Disse no meu artigo interior que os iberistas são responsáveis por defender os valores da paz, aceitação mútua, reconciliação e harmonia entre todos os habitantes da Península Ibérica. Hoje gostaria de regressar a este ponto.

Considerando que o iberismo precisa de comunicar os seus objetivos a todos os que sobre ele perguntem, infelizmente há dois obstáculos importantes à credibilidade do iberismo aos olhos do cidadão comum, seja ele português ou espanhol: o passado recente da Península Ibérica, no qual o fascismo teve o seu auge e fomentou uma mentalidade de separação e desconfiança cega com base numa rivalidade antiga que já não deveria causar atritos, e a realidade atual de Espanha, na qual os sentimentos separatistas parecem eternos.

A Espanha precisa de estar em paz consigo própria. Não sei como, mas tem de encontrar uma maneira. Digo isto para o bem da própria Espanha, mas também porque só a imagem de uma Espanha unida, reconciliada e pacífica permitiria que o iberismo invocasse menos esse passado terrível e mais um futuro diferente. Espanha precisa de compreender a nossa perspectiva, como país mais pequeno. O fascismo é outro problema; enquanto este, de ambos os lados da fronteira, se continuar a alimentar dos receios e das frustrações do povo, fomentará o ódio que é contrário ao iberismo.

Acho que o nosso papel como portugueses é, citando um companheiro iberista, os «árbitros» do panorama político na Península Ibérica. Já que o iberismo é uma mensagem de aceitação mútua e coexistência, porque da nossa perspetiva não pode haver Ibéria sem garantias de respeito pela identidade portuguesa, acho que podemos estender essa ideia a Espanha e pouco a pouco ajudá-la a encontrar o caminho para a reconciliação consigo própria.

Não quero meter-me em debates sobre os separatismos, opinar sobre quem devia fazer o quê nem sobre como se devia organizar a Espanha; só quero dizer que, enquanto esta questão não for resolvida de uma forma positiva, a realidade é que o iberismo continuará certamente a encontrar resistência em Portugal, porque o povo português vai continuar a imaginar-se regressado a 1580. E nenhum português quer isso, eu incluído.

Portugal, tal como muitos outros países pelo mundo fora, foi vítima do extremismo crescente em todo o mundo, do racismo e da xenofobia cada vez menos escondidos e cada vez mais explícitos. Foi vítima da ascensão ao poder no estrangeiro de oportunistas, demagogos, xenófobos, por exemplo nos Estados Unidos, que incentivaram a violência e o ódio. Portugal, como qualquer outro país, sente a necessidade de apontar o dedo a alguém, alguém de fora que quer arruinar-nos. E esse ressentimento é a força dos oportunistas. É sempre alguém de fora que conspira contra nós. Nunca somos nós próprios que reconhecemos eventuais momentos em que não soubemos cuidar de nós. A culpa é sempre dos outros. E é assim que os déspotas sobem ao poder: aproveitando-se do ódio da gente, fazendo a gente apontar o dedo a alguém (uns aos outros, se tiver de ser, mas nunca a si mesmos), quando na realidade nem sequer interessa a esses déspotas o que a gente sente e pensa. Fingem que lhes interessa. Fingem que sentem o mesmo que nós. A força deles é precisamente o facto de que demasiada gente alinha nesse jogo sem pôr nada em causa. O ódio é um vício e eles sabem aproveitar-se disso.

Eu disse, no primeiro artigo desta série, que estes artigos serão destinados especificamente aos portugueses. Obviamente, estão implícitas as perguntas: com quantas destas questões se identificam os espanhóis? Porquê publicá-lo aqui, se não quisesse estabelecer um paralelo entre os nossos países?

 

João Pedro Baltazar Lázaro

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