José Mojica Marins e os pesadelos da razão

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                                      “Os sonhos da razão criam monstros”

                                                                       Francisco de Goya

 

Estive anteontem na estréia de um evento artístico presencial, o primeiro do qual participo desde o início da pandemia. Com a presença tímida de parcos visitantes, a exposição Melhores Filmes do Ano, organizado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), foi inaugurada nesta última quarta-feira, dia 19 de maio, e estará aberta ao público até o dia 28 deste mês, no cinema João Uchoa, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

Uma das homenagens póstumas (e por sinal muito merecida) que assisti na exposição contemplou o ator, diretor e produtor hispano-brasileiro José Mojica Marins, conhecido aqui por estas bandas pelo seu principal personagem, o Zé do Caixão.

Se, por um lado, o Coffin Joe (como o alter ego de José Mojica chegou a ser conhecido em terras anglófonas) tornou-se ícone do cinema de terror brasileiro, sua relação com a Espanha e com os imigrantes espanhóis no Brasil ainda não foi de todo investigada. Fiz minha parte nessa escavação ao mesmo tempo hispanófila e cinéfila, e o resultado compartilho com o leitor nos parágrafos que se seguem.

José Mojica Marins nasceu numa sexta-feira 13 do ano de 1936, no bairro paulista de Vila Mariana. Seus pais, os imigrantes galegos Antonio Andrés Marín e Carmen Mojica Imperial, não faziam ideia de que a data natalicia era mais do que um clichê ou casualidade. José Mojica parecia mesmo nascido para causar calafrios.

Seu progenitor, que em sua terra natal for a um toureiro bem-sucedido, desistiu da carreira na tauromaquia pouco depois de chegar ao Brasil. Sua tentativa de improvisar uma “plaza de toros” no Largo do Arouche, em São Paulo, ruiu diante da resistencia dos defensores dos direitos dos animais. Restou-lhe então o ofício de zelador de um cinema da periferia paulistana.

O pequeno Pepe, filho único, deixou claro seu amor pela sétima arte aos 9 anos, ao rejeitar uma bicicleta com que lhe haviam presenteado, preferindo uma câmera filmadora 8mm. E com esse mesmo aparato gravou seu primeiro filme, “Juízo Final”, sobre uma invasão de vermes alienígenas. Essa obra tão precoce quanto macabra rendeu-lhe a primeira crítica eclesiástica. Um padre que assistiu à película (e escandalizado pela trilha sonora, toda composta por música sacra) teria comentado com don Antonio que seu filho era, provavelmente, um débil mental.

Nenhum desses comentários demeritórios o desencorajou, entretanto. O pleno apoio que recebia dos pais o convenceu de que o melhor ainda estava por vir, e, de fato, a primeira coroa de louros já aguardava por ele nos primeiros anos da idade adulta, quando fundou a companhia cinematográfica Atlas, e logo em seguida, a Apolo Filmes.

Nessa época, Mojica decide buscar na comunidade de imigrantes espanhóis investidores para rodar o primeiro longa-metragem da Apolo filmes, “Sentença de Deus”, um drama sobre uma familia rica que perdia suas posses. Conhece então Manuel Augusto Sobrado Pereira, também de origem espanhola,  que viria a ser gerente da Apolo. Nascido em Santa María de Sabadelle, em Lugo, Manuel Augusto Pereira (que posteriormente adotou o pseudonimo de Augusto de Cervantes) emigrou em 1953 para o Brasil com o objetivo de se dedicar ao setor imobiliário em São Paulo, embora antes do final da década já estivesse trabalhando com cinema.

A estréia de Mojica como diretor ocorreu com “A sina do aventureiro”, uma historia de faroeste patrocinada integralmente pela namorada de Augusto de Cervantes, Nilza de Lima, que impôs, como condição, que seu irmão, Acácio de Lima, ficasse com o papel de protagonista. A obra ficou na história como o primeiro filme em cinemascope rodado no Brasil com atores brasileiros.

Mojica fez muitos filmes “western” adaptados à realidade brasileira, alguns prontamente consagrados pela crítica. Mas o caminho para o sucesso estava cravado de obstáculos, quase todos eles de natureza ideológica ou religiosa.

Entrevistado pelo jornalista Antonio Abujamra, Mojica disse que, tentando apaziguar o clero catolico, que ainda o perseguia por causa de algumas cenas menos pudicas em seus filmes de faroeste, seguiu o conselho de Augusto de Cervantes e fez uma versão brasileira do “Marcelino Pan y Vino”: o filme “Meu destino em tuas mãos”. O resultado não poderia ter sido mais desastroso: os críticos de cinema da época desprezaram a produção (considerada como “água com açúcar”) e o alto clero brasileiro jogou um balde de agua fria nos sonhos de grandeza do (até então) devoto católico diretor cinematografico. “Desista, você não nasceu para fazer cinema”, ter-lhe-ia dito um bispo, ao receber a oferta de paz.

Não muito tempo depois, José Mojica teve uma das mais estranhas experiências transcedentais de sua carreira. Sonhou que alguém o acordava e o levava pela mão a um lugar desconhecido. O seu guia era um gêmeo, ou um clone seu, mas a vestimenta lhe pareceu um tanto extravagante. O sósia estava trajado de negro, com uma capa sobre as costas e uma cartola igualmente negra sobre os cabelos. A caminhada terminou em um cemitério, diante de um túmulo aberto, em cuja lápide o sonhador pode ver seu próprio nome e a data de sua morte: 19 de fevereiro de 2020 (data em que efetivamente veio a falecer).

Mojica não teve dúvidas: aquele ser que o visitara em sonho era o personagem que haveria de causar a reviravolta de sua carreira. Acabava de nascer Josefel Zanatas, o Zé do Caixão.

Josefel Zanatas, o Mr Hyde da vida de Mojica, era um agente funerário que, ao voltar da 2a Guerra, na qual havia lutado como expedicionário (pracinha), descobre que sua noiva o trocara pelo prefeito de seu vilarejo. Torna-se, então, um cínico e um depravado.

No primeiro filme em que interpreta o personagem, “À meia-noite levarei a sua alma”, Mojica debocha intencionalmente do monólogo de Segismundo em “La vida es sueño” de Calderon de La Barca:

 

    “O que é a vida? É o princípio da morte.

      O que é a morte? É o fim da vida.

      O que é a existência? É a continuidade do sangue.

      O que é o sangue? É a razão da existência”.

 

De fato, como niilista que é, Josefel não crê na imortalidade metafísica. Busca, assim, a mulher psicologica e intelectualmente perfeita para gerar um filho seu. Anseia, destarte, viver para sempre por meio da “continuidade do sangue” (uma imortalidade meramente genética). Para tanto, não hesita em eliminar todos os que se interponham em seu caminho (inimigos e até amigos próximos).

Zé do Caixão é claramente amoral e indiferente a tudo o que seja alheio aos cinco sentidos e aos prazeres da carne. Considera os outros moradores do vilarejo selvagens analfabetos e supersticiosos, e, mesmo tendo assistido à procissão das almas penadas (no primeiro filme) e visitado o inferno (uma versão congelante do Hades retratada em “Esta noite encarnarei em seu cadáver”), continua irredutivelmente ateu.

Diante do sucesso imprevisível do personagem, Augusto de Cervantes, decidido a renunciar ao posto de Sancho Pança de Mojica, opta pelo protagonismo. Funda a Iberia Filmes (já que a Apolo Filmes havia falido poucos meses antes), que se encarrega de todos os detalhes de “O estranho mundo de Zé do Caixão”, o terceiro filme da série.

Em julho de 1967, Augusto de Cervantes regressa à Europa na companhia do seu conterrâneo José Ledo, com a ideia de divulgar as suas produções na Espanha através da Suevia Filmes, de Cesáreo González. No cinema Yeca, em Chantada, ele organiza uma exibição privada de “Esta noite encarnarei em seu cadáver”, com a presença de Ánxel Gómez Montero, repórter do jornal galego “El progreso”, que alerta a equipe a respeito da censura que o filme sofrerá por parte do regime franquista.

Mesmo assim, o mestre do horror brasileiro teve seu valor justamente reconhecido na terra de seus pais, em 1973, com o Prêmio Especial no “Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror de Sitges” pelo filme “À meia noite levarei a sua alma”. Coincidentemente – ou não – pouco mais de três meses após a renúncia do caudilho Francisco Franco.

E não foi apenas o patrulhamento ideologico franquista que dificultou a divulgação da obra de José Mojica Marins. Também no Brasil o totalitarismo freou o que poderia ter sido, de acordo com o proprio Mojica, um movimento de vanguarda do cinema de terror. O regime militar considerava o sarcástico papa-defunto como uma ameaça subversiva, e só não prendeu Mojica porque, à época, o ator namorava a filha de um general, que desempenhou muito bem o papel de “anjo da guarda”.

Ao longo de sua carreira, Mojica dirigiu 40 produções e atuou em mais de 50 filmes.  Questionado, porém, sobre sua obra-prima, respondia sem pestanejar: “Zé do Caixão é quem eu gostaria de ser, caso fosse corajoso como ele”. No país do carnaval, José Mojica Marins, o Alonso Quixano do terror, encontrou na fantasia de sua criatura a desculpa perfeita para deixar que o seu “eu lírico”, um “Arlecchino” ao mesmo tempo maquiavélico e gótico, nos deslumbrasse em toda sua plenitude. Que venham mais homenagens a Don Pepe, um gênio bem à frente do seu tempo!

 

Danilo Arantes

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