04/04/2025

Ricardo Bramão, diretor dos Iberian Festival Awards: “O mercado ibérico tem uma vantagem que é o bom clima para os festivais”

Os Iberian Festival Awards realizam-se pela nona vez em março de 2025, na localidade algarvia de Almancil. Mas os nomeados à edição são revelados já esta quinta-feira

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Ricardo Bramão, diretor dos Iberian Festival Awards

Ricardo Bramão (Almada, 1983) é, atualmente, um dos principais promotores da colaboração entre Portugal e Espanha no setor dos festivais de música. Estudou Psicologia na Universidade de Lisboa, seguindo a vertente de Recursos Humanos, e posteriormente fez uma especialização na área da Gestão, mas as suas primeiras aventuras profissionais levá-lo-iam a encontrar-se com a indústria musical. Onde resolveu entrar sem medos para abordar um problema antigo: a menor relevância do setor de festivais em Portugal em comparação com outras cenas internacionais. 

Assim surgiu o Talkfest – fórum internacional dos festivais de música – em 2012 para discutir este e outros temas, que levantou a necessidade de formar uma associação portuguesa para representar o setor. A resposta de Ricardo e da sua equipa foi a Aporfest, que desde há dez anos tem sido responsável por organizar eventos que estabeleceram as bases de um mercado português e ibérico em crescente comunicação. São estes o próprio Talkfest, o ENECE – encontro nacional de estudantes de cultura e eventos – e, principalmente, os Iberian Festival Awards, que distinguem anualmente desde 2016 as melhores propostas e agentes dentro do ecossistema ibérico de festivais. Prémios que, nos últimos anos, têm adquirido uma maior projeção mediática e são hoje uma referência para quem trabalha ou quer conhecer mais sobre o setor.

Para começar, como surgiram os Iberian Festival Awards?

Posso dizer que esse nosso caminho se divide em três momentos. Primeiro decidimos fazer o Talkfest, um evento que reúne oradores [do setor] e que começou em Lisboa em 2012, mas depois percebemos que não podíamos fazê-lo só por amor à camisola. Rapidamente percebemos que tínhamos de ter uma entidade para credibilizar o evento e, ao mesmo tempo, para nos defender ao longo do ano, ganhando receitas e permitindo que o evento se possa realizar com uma cada vez maior sustentabilidade. Daí nasceu a associação [Aporfest], em 2014, que hoje reúne promotores a trabalhar para os vários eventos, incluindo o Talkfest. 

Depois, um pouco antes de 2016, criámos os Iberian Festival Awards (IFA), mas antes falámos com os European Festival Awards e os UK Festival Awards, que nos permitiram perceber algo importante. Os festivais portugueses não tinham hipótese de ser finalistas ou ganhar algum prémio ao nível europeu, pelo tamanho [reduzido] e pelos poucos votos, e era difícil entrarem sequer em competição porque tinham claramente de ser superiores para estarem em igualdade de circunstâncias. Do lado de Espanha, o cenário era melhor, mas também notávamos essa dificuldade. Então, ao percebermos isso, criámos os IFA para juntar os profissionais da indústria – ainda hoje é dos poucos momentos em que estão juntos – e foi também uma forma de criar uma competição para premiar as boas práticas neste ecossistema dos festivais. 

E como surgiu esse interesse por conectar com Espanha?

Sempre estive ligado a Espanha por causa de alguns recrutamentos que fiz, depois de me ter formado em gestão. Há empresas que operam em Portugal, mas os seus diretores estão em Espanha, portanto essa ligação começou aí. Depois foi uma coisa natural, de fazer com que se olhasse mais para o país que está ao lado, de criar competitividade, de promover que os artistas passem de França para a Península Ibérica. Hoje podemos dizer que, cada vez mais, os festivais ibéricos têm tido maior reconhecimento por causa disto. E é para que isso aconteça que, intervaladamente, fazemos o evento em Portugal e em Espanha para criar raízes nos vários sítios. Queremos continuar a conhecer o melhor dos dois países.

É fácil questionarmo-nos como isto não aconteceu antes.

Sim, é verdade. Por exemplo, nas minhas áreas académicas – psicologia e gestão – as pessoas juntam-se para falarem, seja no âmbito científico ou não, enquanto as áreas da música e dos eventos são de grande stress. Estamos sempre a fazer coisas para ontem. Portanto, o tempo para parar, criar relações e networking – o que deve ser visto como um investimento – não existe. Passou a existir durante o covid, onde nos permitimos “estar juntos” à distância, planear estratégias futuras, negociar com os governos. No fundo, fazer o trabalho da associação, mas com a participação de todos os envolvidos. Depois há também, se me permite, um défice económico que verificamos mais do lado de Portugal, em que um promotor cultural ou um músico normalmente não o são a tempo inteiro. Estão a fazer outra coisa, logo aí o seu tempo disponível é reduzido.  

Que parcerias foram importantes para consolidarem este projeto?

Em primeiro lugar, com a Acción Cultural Española (AC/E), que nos validou todo o trabalho e deu credibilidade ao evento. Depois, com algumas entidades institucionais e os próprios ayuntamientos e municípios onde o evento se desenrola, que querem receber este conjunto de profissionais nos seus locais. As cidades lutam hoje entre si de uma forma positiva para receber estes promotores, porque não existe mais nenhum momento em que estes profissionais ao nível ibérico estão juntos. 

Do lado privado, claramente, também temos algumas parcerias. Normalmente são marcas que seguem os festivais e que sabem que o nosso evento representa todo o setor, logo querem também estar associadas. Mas isto é agora. Lembro-me que, nos primeiros anos, tínhamos de andar a bater à porta. Hoje também batemos às portas, obviamente, mas vêm muitas vezes ter connosco. Por exemplo, a cidade onde se vai realizar a cerimónia dos prémios em 2026 já está decidida mesmo antes da edição de 2025 se realizar.

Qual pensa ser então o vosso contributo para a indústria da música em Portugal?

Acho que temos sido o mais isentos possível. Para nós é tão importante um festival como o Rock in Rio, que é nosso associado, como um festival que ainda não ocorreu nem tem nome, mas que é nosso associado também e que estamos a ajudar desde o primeiro momento. São ambos importantes, com necessidades de trabalho diferentes. Portanto, o que vemos é que, ao longo destes dez anos, existem festivais que começaram connosco, pequeninos, e que agora já estão muito bem estabelecidos na indústria. Dou o exemplo do Summer Opening, na Madeira, ou do Monte Verde [Festival] nos Açores. Hoje vemos o setor a renovar-se, com muitos festivais, e isso é ótimo.

E de que forma têm apoiado a ligação dos festivais portugueses e espanhóis?

Gostava de salientar, antes de mais, que temos mais de 750 associados, o que é um ótimo número no nosso país. Portanto, aquilo que vamos fazendo com eles é criar relações – que os promotores de Espanha consigam fazer circular os seus artistas cá e os portugueses lá – e, acima de tudo, o que procuramos é economizar as operações. O que isto quer dizer? Por exemplo, imaginemos que há um promotor português que conseguiu um artista do Reino Unido. O que se pode fazer com promotores espanhóis é promover um concerto no Porto, outro na Galiza, e entre si dividirem estes custos. Queremos que os promotores comuniquem mais, o que vamos vendo cada vez mais com sinergias feitas, por exemplo, no La Mar de Músicas [Cartagena], Monkey Week [Sevilha], entre outros festivais. 

No entanto, numa entrevista que deu em 2017, afirmou que “em Portugal e Espanha é difícil” ser surpreendido quando procura um concerto. Continua a ser assim?

Vamos lá ver, ainda não estamos ao nível daquilo que ocorre nos Estados Unidos e na Ásia. Por exemplo, a próxima digressão dos Guns N’ Roses vai passar por novos mercados da Ásia, Emirados Árabes Unidos, ou seja, novos países que também entram em concorrência pelos grandes artistas. Isto é o que faz com que seja cada vez mais difícil surpreender e ser diferenciador na contratação de um artista. Aquilo que verificamos, sim, é uma adaptação. Em Portugal, vemos agora mais concertos de pavilhão e estádio abertos também a artistas portugueses e a esgotarem, o que há meia dúzia de anos, antes do covid, era impensável. Estes espaços estavam reservados apenas para os grandes artistas internacionais, mas hoje já não é assim. Portanto, o setor [ibérico] adaptou-se e conseguiu transformar isto numa virtude.

Qual pode ser essa marca diferenciadora do mercado ibérico?

A valorização da própria música. Se analisarmos o mercado de Espanha, isso já acontece há muitos anos, enquanto o mercado português só agora está a fazê-lo. Primeiro, essencialmente, por uma necessidade de mercado, e hoje, sim, por uma maior valorização e rentabilização de todo esse processo. Agora o mercado ibérico tem uma vantagem que é o bom clima para os festivais comparativamente ao resto da Europa. Se eu quero ir aos festivais [ibéricos], eu sei que posso ter um anoitecer com calor até mais tarde. 

O que podemos então fazer para unir ainda mais este ecossistema?

Muito, mas principalmente aquilo que dizia de pararmos em mais momentos e de trabalharmos mais vezes em conjunto. Mas acho que temos agora uma premissa ainda maior de pôr também os governos de Portugal e Espanha a trabalhar em conjunto nesta área. Enquanto os promotores vão começando a estar mais ligados entre si, verificamos que ao nível da tutela isso ainda não existe. Ao nível ibérico ainda é difícil trabalhar em conjunto, é complexo efetivar esta rede. Portanto, o nosso próximo objetivo – e isso faz-se com tempo – é incentivar esta ligação institucional. Já existem do lado privado, por exemplo, alguns setores de negócio como o turismo que já têm importantes sinergias, portanto a cultura pode ser o próximo caminho a fazer. Não nos esqueçamos que estes dois setores estão, muitas vezes, associados, sobretudo em viagens de curto prazo.  

Os Iberian Festival Awards rumam no próximo ano a Almancil. O que podemos esperar desta futura cidade (sê-lo-á muito em breve) e das próximas edições?

É uma cidade muito interessante. Ainda que possa parecer periférica em relação a outras maiores, está localizada num dos concelhos [Loulé] onde se realizam mais festivais ao longo do ano, como o festival MED. Brota muita cultura por ali. De facto, já tínhamos ido a várias zonas de Espanha e de Portugal, mas nunca tínhamos ido ao Algarve. Portanto, queremos potenciar toda essa dinâmica, aliada ao bom tempo que já fará em março, e dar uma boa experiência a quem vai ao evento.

Só dizer também, para já, que a lista dos nomeados vai sair na quinta-feira e que há muitas surpresas para a próxima edição. É o ano recorde em termos do número de nomeações, uma vez que as entidades se preocupam cada vez mais em fazer a sua candidatura e em fazê-lo a mais categorias. Dito isto, só queremos que todos se divirtam e que este seja o arranque de mais um ano de festivais.