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A língua ladina, judeo-espanhola ou djudezmo, juntamente com a língua judaico-portuguesa, também conhecida como lusitana, eram as línguas tradicionais dos judeus ibéricos antes, durante e após a expulsão da península, pelos monarcas católicos espanhóis primeiro, no ano do Senhor da 1492 e, depois, pelos portugueses em 1497.

A perca desta comunidade na península Ibérica levou a um atraso significativo tanto no saber como nas finanças. Podemos dizer, sem medo de nos equivocarmos, que grande parte da cultura, não contabilizando aquela que se guardava zelosamente nos mosteiros, era possessão desta etnia, os sefarditas.

O ladino contém na sua alma parte das línguas faladas tanto em Portugal como em Espanha, como é o caso do galego ou do português, dos quais retirou grande parte do seu acervo que foi enriquecido ao longo das épocas pelo turco, pelo grego e, em tempos mais recentes, pelo francês.

Um exemplo claro disto é, sem dúvida, a cidade de Salónica, onde se podem distinguir nos seus bairros diferentes sotaques que indicam a origem dos seus habitantes, se são de Castela, Galiza, Catalunha, Astúrias, Leão ou de Portugal. Chegando a integrar 65% dos seus habitantes, este dito idioma era usado como língua franca. Praticando-a no comércio e nas relações com as regiões próximas. Locais onde eram praticadas as três grandes religiões monoteístas, o cristianismo, judaísmo e o islamismo.

Este idioma nascido na nossa península contínua a falar-se em países como Israel, Turquia, Marrocos, Inglaterra, Bósnia, Macedónia, Argentina, Alemanha, Tunísia, Sérvia, Bulgária e na própria Espanha. No total se contabilizam uns dois milhões de falantes, o que faz com que o mesmo se encontre regulado pela Academia Nacional do Ladino (ANL), sendo esta a responsável pelo assessoramento e pelo estudo do dito idioma em Israel. A sua criação é recente (2018) e aconteceu devido a Convenção Académica Judeo-espanhola, assinada por especialistas da Real Academia de Língua Espanhola. O que vem demonstrar o amplo interesse que este idioma apresenta junto dos intelectuais ibéricos. Assim mesmo, em 2019, a Academia Judeo-espanhola apresentou a sua candidatura para integrar-se na Associação de Língua Espanhola (ASALE).

O êxodo judeu da península deu-se em duas grandes vezes, a primeira entre os séculos XV e o XVII, na que se dirigirem do este peninsular para Tunes, Itália, Grécia, Egipto e, por vezes, para o Império Otomano.

A segunda emigração cobre os séculos XVII e XVIII e parte do coração de Portugal, de Lisboa, para as Américas, França, Inglaterra e Holanda. Para a zona este da Europa foram para os locais que actualmente conhecemos como Áustria e a Polónia.

Durante todo este tempo, o ladino não deixou de se falar nas comunidades sefarditas, tendo sido enriquecido com alguns vocábulos procedentes dos países onde estas comunidades “assentaram arraiais”. Sendo este uma clara forma de identificar tanto aqueles que pretendiam a comunidade judia como para marcar uma separação dos seus “irmãos” askenazi. No Império Otomano, a actual Turquia, chego a conhecer-se como yahudice, que traduz-se como “judeu”.

Apesar das pressões recebidas durante o século XIX para abandonarem o seu uso e adoptarem o do país no qual a comunidade sefardita se encontrava, entre 1880 e 1930 conheceu o maior auge da sua história por ter conseguido alcançar falantes de uma maior demografia.

Começa a desenvolver-se uma imprensa em ladino, traduzindo-se textos europeus e escrevendo outros de autoria própria.

A ferida aberta começa a fechar-se, aos poucos, com um decreto, de 1924, onde Miguel Primo de Rivera permitia aos sefarditas obter a nacionalidade espanhola.

A Segunda Guerra Mundial e a criação do estado de Israel fizeram com que o ladino perde-se em poucos anos cerca de 90% dos seus falantes devido ao ressuscitar do idioma nacional de Israel, o hebreu.

Hoje em dia começa a ressurgir, aos poucos. Não são poucas as editoras que apresentam livros em ladino, também havendo a publicação e jornais e revistas e uma emissão, de carácter semanal, da emissora de rádio Kol Israel que com o programa “Bozes de Sefarad”, é emitido na Rádio Exterior de Espanha, que ajuda a que este rico legado não desapareça. A esta tarefa se une Eliezer Papo, da Universidade Ben Gurion, com as suas publicações, de onde se destaca a “A Meguilla de Saray”.

Espanha, Portugal e os sefarditas compartilham de vários séculos de história em comum, idiomas perfeitamente entendidos entre si, refrãos, contos, lendas, vivências e, porque não, também desafortunados desencontros que se foram produzindo ao longo de séculos de convivência e separação.

Chegou o momento de juntar esforços para que um legado tão rico e extraordinário não desaparece.

Conservemos uma herança cultural dos nossos antepassados. Nós apenas somos os depositários de um tesouro que havemos de passar para as seguintes gerações. Rica de palavras, que formam conceitos, e que levam ao entendimento de povos irmãos.

 

Beatriz Recio Pérez é jornalista, com vasta experiência na Raia central ibérica.