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Da mesma forma que Monsanto recebeu o prémio da “aldeia mais portuguesa”, o El Trapézio pretende atribuir a distinção da “povoação mais Ibérica”. Comprometemo-nos a visita-lo e realizar uma reportagem. Podem dar o seu voto (argumentando) em ([email protected]).

Monsanto é uma localidade perto da Raia e situada em cima de uma montanha. Esta aldeia destaca-sd pelas suas pedras graníticas. A portugalidade tem a ver com a estética de um Portugal medieval, com a estética renascentista manuelina ou a modernidade lusa que todos identificamos nas calçadas, azulejos ou janelas portuguesas.

Não procuramos grandes cidades, como Santiago de Compostela, Ceuta ou Sevilha, que poderiam ser as grandes referências do que é ser lusitano ou espanhol. Também não queremos populações de raízes primitivas iberas ou hispano-romanas. O critério para ser considerada a “população mais Ibérica” é ter havido uma permanente comunicação cultural e linguística, com matrimónios mistos em ambos os lados da Raia. Isto terá levado a uma certa cultura híbrida e a uma intercompreensão de ambos os idiomas (ou de um terceiro que pode ser o galego ou o mirandés-asturleonés). Também tem que haver uma certa projeção transregional peninsular. Isto no sentido que não seja uma povoação para no tempo e completamente isolada dos países a que pertencem. Provavelmente esse mítico e utópico lugar do iberismo vivencial situa-se em algum ponto de alguma velha rota de contrabando.

A povoação que procuramos provavelmente está na Raia seca, local onde um rio caudaloso não impediu um contacto fluído. Também é verdade que assim nos valem aqueles pontos onde existem pontes antigas ou conexões fluviais tradicionais. Por exemplo, a ponte Internacional Tui-Valença é de 1884 e conta com uma conexão ferroviária e de automóveis. Desde metade dos anos 90 existe uma ponte nova. A circulação transfronteiriça Tui-Valença supõe 50% do total. Outro ponto forte de circulação é Vilar Formoso-Fuentes de Oñoro, também com uma conexão ferroviária e outra rodoviária (e, provavelmente, até ao fim do ano pela auto-estrada). Esta é a rota habitual para os caminhantes, turistas e emigrantes que vêm da França. A fronteira, entre Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro, separa ruas que conectam os dois municípios. Vilar Formoso sediará a Eurocidade Puerta de Europa, que está em processo de criação, entre as cidades de Fuentes de Oñoro, Vilar Formoso, Almeida e Ciudad Rodrigo. Nesse sentido, e como António Reinas, da Rádio Fronteira, nos disse em uma entrevista para EL TRAPEZIO, a área da fronteira portuguesa absorve mais a cultura espanhola do que vice-versa. É também uma área em que a memória da guerra peninsular contra Napoleão é compartilhada. Portanto, Vilar Formoso é um forte candidato.

Há o caso emblemático e inevitável do Rio de Onor (de Portugal) e Rihonor de Castilla que formam uma população única. Também não podemos esquecer Barrancos, uma cidade portuguesa que coincide com uma incursão que a Raia faz ao interior da Espanha, na parte sul. Barrancos é provavelmente a cidade mais espanhola do território português. Do mesmo modo, é possível dizer de Olivença, que poderia ser a cidade mais portuguesa do território espanhol. No entanto, a singularidade de Barrancos é notável. Além da sua história de solidariedade com os espanhóis republicanos durante a Guerra Civil, Barrancos é uma cidade de três idiomas, já que os habitantes são fluentes em português, espanhol e o barranquenho. Este é um dialecto, tal como o portunhol, que mistura as duas línguas mas dá mais foco ao português. O portunhol também existe na América, ao longo da fronteira da América Latina com o Brasil, destacando dois fenómenos específicos: 1) o portunhol de Rivera no Uruguai e 2) a comunidade brasileira, descendentes de brasileiros que vivem no Paraguai e que dominam perfeitamente as duas línguas. A mãe e os avós maternos de Andreia Rodrigues, jornalista do EL TRAPEZIO, são de Barrancos, e ela os lembra de falar em barranquenho.

Do ponto de vista do iberismo político, a história de Barrancos tem um episódio interessante porque o General Prim visitou a cidade em 1866, já se retirando depois de um pronunciamento fracassado. A caminho do exílio, o General doou, às autoridades de Barrancos, as suas armas, uma pintura (assinada por Prim) e uma espada. Os dois últimos foram exibidos no Museu Municipal de Arqueologia e Etnografia em 2008. A excepcionalidade de Barrancos reside também por ser a única região portuguesa onde o touro pode ser morto, legalmente, nas touradas.

Todos os municipios portugueses que levam a palavra Raia tem a sua iberidade, como é o caso de Vilarelho da Raia ou Vila Verde da Raia na Eurocidade Chaves-Verín, ou de Soutelinho da Raia ou Cambedo da Raia que forman parte daquepes povos promíscuos onde desaparecia a linha de fronteira, como é o caso do Couto Mixto e da sua “república” independente.

Na triple fronteira entre a Galiza, Zamora e Portugal, lugar de muito contrabando, onde está o Penedo dos Três Reinos (também chamado Fraga dos Três Reinos) e a Fuente dos Três Reinos (Portugal, Galiza, Leão). Aqui também existem municípios interessantes como Moimenta, Castromil, Hermisende e a Mezquita. Diz a lenda que os reis dos três reinos convocaram uma reunião naquele momento para criar uma área em que todos os habitantes da área circundante pudessem se abastecer de água. Existem três cruzes esculpidas na rocha do monte, cada uma voltada para cada reino. Na refeição entre os reis, a lenda conta que eles teriam afirmado: “bebemos da mesa, comemos à mesa (Fraga dos Três Reinos) todo hum que se dirige ao seu reino”. É provavelmente a fonte mais ibérica de todas. Embora, o que procuramos seja a “cidade mais ibérica”.

Existem muitos dados interessantes como Portelo, Calabor, Miranda do Douro, Fermoselle (lembre-se que os sefarditas da Raia representavam os ibéricos), Sendim, Bemposta, Freixo de Espada à Cinta, Saucelle, La Fregeneda, La Bouza, Aldea del Bispo, Vale da Mula, La Alamedilla, Batocas, Almeida, Navasfrías, Albergueria, Aldeia da Ponte, Valverde del Fresno, Cedillo (que está no auge de um ataque da Raia ao interior de Portugal), Valencia de Alcántara (antiga conexão ferrovia com Marvão, que ligava Espanha e Portugal), La Fontañera, La Rabaza, La Codosera (que tem a mais pequena ponte internacional do mundo na cidade de Marco) e, sem dúvida nenhuma, Elvas (cidade eminentemente bilingue com uma cultura influenciada pela Estremadura e Badajoz). Claro, também existe Olivença e Táliga (ambos com passado português e castelhano), Villanueva del Fresno, Valência del Mombuey, Oliva da Frontera, Rosal da Frontera, Paymogo, Alcoutim, Sanlúcar de Guadiana, Castro Marim, Vila Real de Santo António e Ayamonte. Incentivamos os nossos leitores a visitar todas estas cidades e dar-nos a sua opinião.

O Tratado de Alcañices de 1297 (uma cidade que também deveria ser rotulada) estabeleceu uma troca de cidades fronteiriças que podem nos dar pistas sobre o que estamos a procurar. Castela deu a Portugal: Campo Maior, Olivença, Ouguela, Almeida, Castelo Bom, Castelo Melhor, Castelo Rodrigo, Monforte, Sabugal, Sastres, Vilar Maior e San Felices de los Gallegos (que tinha apenas três décadas de posse de Portugal). Castilla, em troca, recebeu os direitos portugueses das terras de Ayamonte, Santiago de Alcántara, Herrera de Alcántara, Valência de Alcántara, Aroche e Aracena.

Como podem ver, há muitos candidatos que cumprem alguns dos requisitos mas não todos. Certamente esqueci-me de alguns municípios luso-espanhóis interessantes e é por isso mesmo que necessitamos da vossa participação. Esperamos as suas candidaturas para eleger a “povoação mais Ibérica” da Península ([email protected]).